Os 3 pilares da fundação de Portugal
Portugal: Como um Território de Fronteira Se Transformou Numa Nação Independente
Quando tentamos compreender o nascimento de Portugal, é fácil cairmos na tentação de procurar um momento único e dramático, uma data precisa em que possamos dizer "aqui nasceu Portugal". A realidade histórica, contudo, é simultaneamente mais complexa e mais fascinante do que qualquer narrativa simplificada. Portugal não nasceu num dia específico através de um único acto heroico, mas emergiu gradualmente através de um processo que os historiadores descrevem como uma "ruptura estrutural", uma série de transformações políticas, legais e territoriais que, ao longo de décadas, criaram algo genuinamente novo no extremo ocidental da Península Ibérica.
Para compreendermos verdadeiramente este processo extraordinário, precisamos de abandonar a ideia de que a fundação de uma nação é um evento e começar a vê-la como um processo com múltiplas dimensões que se desenvolvem em ritmos diferentes mas que eventualmente convergem para criar uma realidade nova e irreversível. Pensemos nesta fundação como assentando em três pilares fundamentais que se reforçam mutuamente: o pilar político, onde o poder de facto é estabelecido através de actos de vontade e força militar; o pilar legal, onde esse poder é reconhecido e legitimado pelas autoridades internacionais da época; e o pilar territorial, onde fronteiras específicas são conquistadas, defendidas e consolidadas de forma a criar um espaço geográfico coerente. Cada um destes pilares é essencial, e Portugal só se tornou verdadeiramente independente e viável quando os três estavam firmemente estabelecidos.
O Pilar Político: Quando a Vontade de Independência Encontrou a Força Para a Impor
O primeiro pilar, o político, começou a ser construído de forma dramática numa tarde de Junho de mil cento e vinte e oito, no campo de São Mamede junto a Guimarães. Naquele dia, algo que teria parecido impensável poucos anos antes aconteceu: um filho pegou em armas contra a própria mãe numa batalha que decidiria o destino de todo um território. D. Afonso Henriques, que tinha crescido sob a regência de sua mãe D. Teresa, tinha chegado à conclusão de que a política dela de aproximação à nobreza galega, particularmente através da ligação com o poderoso Fernão Peres de Trava, estava a transformar o Condado Portucalense numa mera extensão da Galiza. Para o jovem príncipe e para a nobreza portucalense que se tinha agrupado em torno dele, isto era inaceitável. O Condado tinha potencial para ser algo mais, algo independente, e essa visão valia o custo moral terrível de uma guerra civil familiar.
Quando as forças de Afonso Henriques derrotaram as tropas de sua mãe naquele campo, algo fundamental mudou. Não foi apenas uma troca de governante, não foi simplesmente um filho a substituir uma mãe como regente. Foi o momento em que o Condado Portucalense declarou, através da força das armas, que não seguiria o caminho que D. Teresa tinha escolhido de integração crescente na órbita galega e leonesa. A partir de São Mamede, Afonso Henriques assumiu o governo com uma agenda clara: construir um poder autónomo que eventualmente se transformaria em soberania plena.
Contudo, e isto é crucial para compreendermos a complexidade do processo, a vitória militar em São Mamede não fez de Afonso Henriques um rei, pelo menos não imediatamente e não aos olhos do resto da Europa medieval. Tecnicamente, o Condado Portucalense continuava a ser um território vassalo do Reino de Leão, e Afonso Henriques, por mais poderoso que fosse de facto no seu território, continuava formalmente subordinado ao seu primo Afonso VII de Leão e Castela. Esta discrepância entre poder real e estatuto formal era insustentável a longo prazo e teria de ser resolvida de alguma forma, através de guerra prolongada ou de negociação diplomática.
A solução chegou quinze anos depois, em cinco de Outubro de mil cento e quarenta e três, na cidade de Zamora. O Tratado de Zamora representa o momento em que a realidade militar no terreno finalmente se traduziu em reconhecimento formal. Naquele encontro diplomático cuidadosamente orquestrado, com a presença crucial de um legado papal que conferia gravidade internacional ao evento, Afonso VII de Leão e Castela reconheceu formalmente o seu primo como rei. Esta não foi uma concessão que Afonso VII fez de bom grado ou por generosidade familiar. Foi o reconhecimento pragmático de que Afonso Henriques tinha construído um poder militar suficientemente forte para que tentar reconquistá-lo pela força seria dispendioso demais e talvez impossível, e que era mais sensato aceitar a realidade e estabelecer uma relação formal que pelo menos salvasse as aparências da autoridade imperial que Afonso VII reivindicava sobre toda a Hispânia.
O acordo de Zamora tinha subtilezas diplomáticas engenhosas que permitiam que ambos os primos declarassem vitória. Afonso Henriques era reconhecido como rei de Portugal, alcançando o estatuto que tinha procurado durante anos. Afonso VII mantinha a ficção da sua autoridade imperial através de um arranjo de vassalagem por certas terras específicas que não comprometia a independência fundamental do reino português. Era o tipo de compromisso criativo que a diplomacia medieval frequentemente produzia, onde a substância favorecia claramente uma parte mas a forma permitia que a outra salvasse a face.
O Pilar Legal: Quando Roma Validou o que as Armas Tinham Conquistado
Contudo, mesmo após Zamora, Portugal ainda não estava completamente seguro na sua independência. Na ordem internacional medieval, existia uma hierarquia de autoridade que não podia ser ignorada. Acima de todos os reis e imperadores terrestres estava o Papa, o vigário de Cristo na terra, cuja autoridade espiritual se traduzia em enorme poder político. Um reino que fosse reconhecido apenas por outros reinos vizinhos mas não pela Santa Sé existia numa espécie de limbo legal internacional, sempre vulnerável a que esse reconhecimento fosse contestado ou retirado quando as circunstâncias políticas mudassem.
Afonso Henriques e os seus conselheiros, particularmente os bispos como D. João Peculiar que tinham conexões profundas com a corte papal, compreenderam isto perfeitamente. Imediatamente após Zamora, iniciaram uma campanha diplomática persistente em Roma, procurando obter o reconhecimento papal definitivo que transformaria Portugal de um facto consumado militarmente num reino plenamente legítimo aos olhos da cristandade. Esta campanha envolveu não apenas embaixadas e negociações mas também uma manobra estratégica brilhante: Afonso Henriques declarou-se vassalo directo da Santa Sé, oferecendo o reino como feudo da Igreja e comprometendo-se a pagar um tributo anual ao Papa. Esta vassalagem espiritual a Roma efectivamente blindava Portugal contra qualquer reivindicação de suserania por parte de Leão, pois na lógica feudal não se podia servir dois senhores soberanos simultaneamente.
O reconhecimento papal demorou, contudo, muito mais tempo do que Afonso Henriques esperava. O Papado tinha de equilibrar múltiplos interesses concorrentes e não queria hostilizar os poderosos reis de Leão e Castela apressando-se a reconhecer um reino que eles ainda viam como território rebelde. Só em mil cento e setenta e nove, trinta e seis anos após Zamora e apenas dois anos antes da morte de Afonso Henriques, é que finalmente chegou o documento que completava o pilar legal da independência portuguesa: a bula Manifestis Probatum do Papa Alexandre III.
Esta bula papal foi, em todos os sentidos que importavam na época, a certidão de nascimento internacional de Portugal. Reconhecia solenemente Afonso Henriques como rei legítimo, confirmava Portugal como reino independente, e validava todas as conquistas territoriais que tinham sido realizadas durante as décadas anteriores. Com este documento, Portugal deixava de ser uma anomalia política cuja existência dependia da força militar do momento e tornava-se um membro plenamente reconhecido da família de nações cristãs europeias, com todos os direitos e protecções que esse estatuto conferia.
O Pilar Territorial: Quando as Conquistas Criaram Um Espaço Nacional Coerente
O terceiro pilar, o territorial, era simultaneamente o mais concreto e o mais prolongado no tempo. Não bastava declarar independência ou obter reconhecimentos formais se o território controlado fosse demasiado pequeno ou mal posicionado para sustentar um reino viável. Portugal precisava de expandir-se para sul, conquistando território aos muçulmanos, não apenas por razões ideológicas de Reconquista mas por necessidades práticas básicas de sobrevivência económica e estratégica.
As conquistas de Santarém e Lisboa em mil cento e quarenta e sete foram absolutamente cruciais neste processo. Estas não eram apenas vitórias militares impressionantes mas transformações fundamentais da viabilidade do reino. Lisboa, em particular, era um porto rico com conexões comerciais que se estendiam por todo o Mediterrâneo e além. A sua conquista deu a Portugal acesso a recursos económicos e a redes comerciais que transformaram o que tinha sido essencialmente um reino guerreiro pobre do interior numa potência marítima emergente. A linha do Tejo tornou-se a nova fronteira sul, uma posição defensiva muito mais forte do que qualquer coisa que Portugal tivesse controlado anteriormente.
Mas a expansão territorial não parou no Tejo. Ao longo das décadas seguintes, através de campanhas militares persistentes frequentemente conduzidas pelas Ordens Militares tanto quanto pelos exércitos régios, a fronteira continuou a mover-se para sul. A conquista final do Algarve em mil duzentos e quarenta e nove sob D. Afonso III completou a Reconquista portuguesa, tornando Portugal o primeiro reino da Península Ibérica a alcançar as suas fronteiras definitivas. Enquanto Castela e Aragão continuariam a lutar contra o Reino de Granada durante mais dois séculos e meio, Portugal tinha terminado a sua expansão peninsular e podia dirigir as suas energias noutras direcções.
A estabilização formal destas fronteiras chegou com o Tratado de Alcanizes em mil duzentos e noventa e sete, negociado pelo habilidoso D. Dinis. Este tratado com Castela definia com precisão as fronteiras terrestres entre os dois reinos, resolvendo disputas sobre territórios fronteiriços e criando uma linha de demarcação que, com pouquíssimas excepções, permanece a fronteira de Portugal até aos dias de hoje. Esta estabilidade fronteiriça durante mais de setecentos anos é praticamente única na história europeia, onde a maioria das fronteiras foram repetidamente redesenhadas através de guerras, tratados e mudanças dinásticas.
As Consequências Estruturais: Como a Independência Transformou a Organização do Território
Quando pensamos na fundação de Portugal, precisamos de compreender que não foi apenas uma questão de mudar o título do governante de conde para rei ou de desenhar novas linhas no mapa. A independência criou a possibilidade e a necessidade de construir estruturas completamente novas de organização social, administrativa e cultural que transformaram fundamentalmente como as pessoas viviam e como se viam a si próprias.
A criação sistemática de concelhos através de Cartas de Foral foi uma destas transformações estruturais. Os reis portugueses, começando com Afonso Henriques mas intensificando-se dramaticamente sob os seus sucessores como D. Sancho I e D. Dinis, concederam autonomia substancial a comunidades locais através destes documentos legais. Isto não era apenas uma questão técnica de administração mas uma estratégia deliberada para povoar território conquistado, para criar uma base de apoio popular que equilibrasse o poder da grande nobreza, e para desenvolver uma identidade política onde as pessoas sentiam que tinham interesse directo na sobrevivência e prosperidade do reino porque tinham direitos genuínos e voz nas decisões locais.
A independência também permitiu o desenvolvimento do português como língua administrativa e cultural distinta. Enquanto Portugal fazia parte do Reino de Leão, a língua da corte e da administração era o latim ou, crescentemente, o castelhano que estava a emergir como língua dominante nos reinos do norte. A independência criou espaço para que a variante local do romance, aquela língua que tinha evoluído do latim vulgar falado pela população comum, fosse elevada ao estatuto de língua oficial. Quando D. Dinis ordenou no século treze que documentos oficiais fossem escritos em português em vez de latim, estava a fazer muito mais do que uma reforma administrativa. Estava a criar uma ferramenta de unificação cultural que permitia que pessoas de diferentes regiões do reino se vissem como parte de uma comunidade política comum unida por uma língua partilhada.
A criação de uma administração central genuína, com as suas próprias leis, o seu próprio sistema fiscal, e o seu próprio exército permanente através das Ordens Militares, transformou Portugal de uma zona tampão entre reinos maiores numa entidade política coerente capaz de formular e executar a sua própria estratégia a longo prazo. Esta capacidade de planeamento estratégico independente seria absolutamente crucial séculos mais tarde quando Portugal se lançou na aventura dos Descobrimentos, um empreendimento que teria sido impossível se Portugal ainda fosse apenas um condado subordinado a decisões tomadas em cortes de outros reinos.
Assim, quando olhamos para trás através dos séculos para aquele processo extraordinário que decorreu principalmente durante o século doze mas cujos efeitos se desdobraram durante gerações, precisamos de ver a fundação de Portugal não como um momento mas como uma transformação estrutural profunda que criou algo genuinamente novo. A ruptura de mil cento e quarenta e três não foi apenas uma troca de títulos ou uma redefinição de relações feudais. Foi o nascimento de uma estrutura política, legal, territorial, administrativa e cultural organizada que permitiu a Portugal não apenas sobreviver mas prosperar, estabilizar as suas fronteiras quando outros reinos permaneciam em conflito territorial constante, desenvolver uma identidade nacional coerente quando outras regiões permaneciam fragmentadas, e eventualmente, quando o momento chegou, lançar-se ao oceano para criar um império global que moldaria o curso da história mundial. Tudo isto só foi possível porque aquela ruptura fundamental do século doze tinha criado as fundações sólidas sobre as quais gerações futuras puderam construir.
os Pilares da Independência
1. O Pilar Político: A Vontade de Poder
A independência começou com a afirmação de autoridade interna e diplomática.
São Mamede (1128): A batalha que marcou a rutura umbilical com a Galiza e Leão.
Tratado de Zamora (1143): O reconhecimento de Afonso VII de Leão, aceitando o título de Rex para o seu primo, em troca de vassalagem por terras específicas.
2. O Pilar Legal: O Reconhecimento de Roma
Para ser viável na Europa medieval, Portugal precisava da validação do Papa.
Vassalagem à Santa Sé: Afonso Henriques declarou-se "cavaleiro de São Pedro" para evitar a suserania leonesa.
Manifestis Probatum (1179): Após décadas de diplomacia, o Papa Alexandre III emitiu a bula que serviu como a "certidão de nascimento" internacional de Portugal.
3. O Pilar Territorial: Espaço e Fronteiras
A soberania só foi plena com a conquista e estabilização de um território coerente.
Linha do Tejo (1147): A conquista de Santarém e Lisboa deu ao reino viabilidade económica e estratégica.
O Algarve e Alcanizes (1249-1297): A conclusão da Reconquista e a fixação das fronteiras terrestres mais antigas da Europa.

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