Historia de Portugal
Lusitânia Romana
A Romanização da Lusitânia: Quando Portugal Entrou no Mundo
Este capítulo marca a transformação verdadeiramente radical de Portugal, que deixou de ser um território fragmentado de tribos isoladas e frequentemente rivais para se tornar parte integrante da civilização mais avançada, mais poderosa e mais sofisticada que o mundo antigo alguma vez conheceu. Para compreendermos adequadamente a magnitude desta mudança, precisamos de reconhecer que Roma não trouxe consigo apenas soldados armados e administradores imperiais encarregados de manter a ordem. Trouxe fundamentalmente uma forma completamente nova de viver o quotidiano, uma língua que se tornaria a base do português moderno, e um sistema inteiro de organizar politicamente, economicamente e juridicamente o mundo que moldaria permanentemente o futuro do território. Esta transformação representou a ligação definitiva entre o nosso território, que durante milénios havia sido percebido como um remoto fim do mundo atlântico, e o coração vibrante e cosmopolita do Império que pulsava em Roma.
O Fim do Isolamento: Quando as Fronteiras do Mundo se Expandiram
Durante muitos milénios antes da conquista romana, a fachada atlântica ocidental da Península Ibérica era universalmente vista pelos povos mediterrânicos como o Finis Terrae, expressão latina que significa literalmente o fim das terras, o lugar geográfico preciso onde o mundo conhecido e habitável terminava abruptamente e onde começava o oceano misterioso e aterrorizador que se estendia infinitamente para ocidente em direcção ao desconhecido. Esta percepção geográfica criava naturalmente um isolamento cultural e económico profundo. As populações que viviam nesta periferia extrema do mundo conhecido mantinham contactos comerciais e culturais apenas esporádicos com as civilizações mediterrânicas mais desenvolvidas, permanecendo em grande medida isoladas e concentradas nas suas próprias tradições locais ancestrais.
Com a derrota militar definitiva da resistência lusitana organizada, simbolizada tragicamente pela morte de Viriato e pela subsequente fragmentação das tribos unificadas que ele havia conseguido criar, estas barreiras antigas do isolamento caíram dramaticamente. Portugal deixou definitivamente de estar isolado na periferia esquecida do mundo civilizado e foi forçosamente mas também progressivamente integrado numa vasta rede comercial, política e cultural verdadeiramente impressionante na sua extensão geográfica que se estendia desde a distante Mesopotâmia no Oriente, atravessando todo o Mediterrâneo, e alcançando até as brumosas ilhas da Britânia no extremo norte. Imagine a transformação psicológica que isto representava para populações que durante séculos haviam vivido essencialmente isoladas nas suas montanhas e vales, subitamente descobrindo que faziam agora parte de um mundo muito mais vasto e interconectado.
Pela primeira vez na longa história do território lusitano, mercadorias de luxo verdadeiramente exóticas começaram a circular regularmente através de rotas comerciais estabelecidas e protegidas pelas legiões romanas. Vinhos refinados produzidos nas encostas ensolaradas da Itália chegavam aos mercados de Lisboa transportados em ânforas de cerâmica cuidadosamente seladas. Cerâmicas finamente decoradas fabricadas nas melhores oficinas do Mediterrâneo oriental podiam ser adquiridas nas lojas das novas cidades lusitanas. Novas tecnologias agrícolas desenvolvidas ao longo de séculos nas regiões mais avançadas do império, incluindo técnicas melhoradas de irrigação, variedades mais produtivas de trigo e cevada, métodos aperfeiçoados de produção de azeite e vinho, eram introduzidas sistematicamente pelos agrimensores e técnicos romanos que chegavam ao território trazendo conhecimentos acumulados. Esta circulação constante e regular de bens materiais e de conhecimentos técnicos integrou progressivamente os lusitanos na economia mundial da época, transformando-os de comunidades autossuficientes e isoladas em participantes activos numa rede económica vastíssima.
A Província da Lusitânia: Criando Ordem no Território
Para gerir eficazmente este novo território conquistado que se estendia por uma área geográfica considerável e que continha populações diversas com tradições e línguas diferentes, o Imperador Augusto, o primeiro imperador de Roma que havia consolidado o poder após décadas de guerras civis devastadoras, tomou a decisão estratégica de criar uma unidade administrativa oficial e formalmente definida. Entre os anos dezasseis e treze antes de Cristo, estabeleceu oficialmente a Província da Lusitânia como uma das divisões administrativas fundamentais do império ocidental.
As fronteiras geográficas desta nova província foram cuidadosamente delimitadas pelos cartógrafos e agrimensores imperiais. A Lusitânia romana abrangia territorialmente a maior parte do actual Portugal continental, estendendo-se desde o rio Douro que servia como fronteira norte aproximada até ao extremo sul algarvio, e incluía também uma porção significativa do que é hoje o território espanhol, particularmente a região da Extremadura que fazia fronteira com a Lusitânia a leste. Esta delimitação administrativa não era arbitrária mas reflectia considerações tanto geográficas como culturais sobre quais os territórios que formavam uma unidade relativamente coerente.
Para servir como centro administrativo, jurídico e económico desta vasta província, Roma fundou deliberadamente uma cidade completamente nova construída segundo os mais avançados princípios urbanísticos romanos. Esta cidade chamava-se Augusta Emerita em honra do Imperador Augusto que havia autorizado a sua fundação, e corresponde à actual cidade espanhola de Mérida situada na Extremadura. Mérida foi concebida e construída desde o início como uma autêntica mini-Roma transplantada para o Ocidente peninsular. Foi equipada magnificamente com todos os edifícios públicos que caracterizavam uma cidade romana importante e próspera, incluindo teatros impressionantes onde se apresentavam peças dramáticas clássicas, anfiteatros grandiosos onde se realizavam combates de gladiadores e caçadas de animais exóticos, templos monumentais dedicados aos principais deuses do panteão romano, termas públicas elaboradíssimas com sistemas sofisticados de aquecimento, fóruns amplos onde se reunia a assembleia provincial, e aquedutos de engenharia notável que traziam água fresca de nascentes distantes. Mérida servia deliberadamente como modelo arquitectónico e cultural para todas as outras cidades menores que eram fundadas ou expandidas em toda a província lusitana.
No entanto, embora Mérida fosse oficialmente a capital administrativa da província onde residia o governador imperial e onde se encontravam os principais tribunais e arquivos, Lisboa, que os romanos designavam pelo nome de Olisipo, desempenhava um papel económico absolutamente crucial e complementar. A cidade situada no magnífico estuário do Tejo tornou-se o porto fundamental através do qual passavam praticamente todas as exportações que a província enviava para o resto do império. Funcionava como a verdadeira porta de saída marítima através da qual as riquezas minerais extraídas das minas lusitanas, os produtos agrícolas cultivados nos férteis campos do interior, e todas as outras mercadorias produzidas na província eram embarcadas em navios mercantes que navegavam em direcção a Roma, a Alexandria, a Atenas e a todos os outros grandes centros de consumo do império.
Romanização: A Transformação Cultural Profunda
Seria um erro histórico fundamental pensar que a romanização foi meramente uma ocupação militar imposta pela força das armas onde soldados romanos mantinham populações subjugadas sob controlo através da ameaça constante de violência. A realidade histórica foi muito mais complexa, muito mais subtil e, em última análise, muito mais profunda e duradoura. A romanização foi acima de tudo um processo cultural e social extraordinariamente transformador que decorreu ao longo de várias gerações e que mudou fundamentalmente a forma como as pessoas viviam, pensavam e se identificavam.
Tornar-se romano não significava simplesmente submeter-se a conquistadores estrangeiros mas implicava adoptar voluntariamente, embora certamente sob pressões sociais e económicas consideráveis, todo um modo de vida diferente. Os chefes das antigas tribos lusitanas, homens astutos e pragmáticos que compreendiam as realidades do poder no novo mundo romano, perceberam rapidamente que ao aprenderem a falar fluentemente o latim e ao seguirem escrupulosamente as leis codificadas de Roma, ao adoptarem os costumes romanos e ao educarem os seus filhos segundo princípios romanos, ganhavam acesso a prestígio social considerável e a poder político e económico real dentro da nova ordem estabelecida. Muitos destes chefes tribais transformaram-se progressivamente em magistrados municipais respeitados, em proprietários rurais prósperos que exploravam grandes propriedades agrícolas segundo métodos romanos avançados, e alguns até conseguiram alcançar a cidadania romana plena que era um privilégio extremamente valorizado que conferia direitos legais importantes.
Roma incentivou activamente e por vezes forçou a descida física das populações que ainda viviam nos antigos castros fortificados situados estrategicamente no topo dos montes para as novas cidades planeadas que eram construídas nos vales mais acessíveis e mais facilmente controláveis pelas autoridades romanas. Nestas cidades novas, os habitantes anteriormente habituados à vida austera e relativamente primitiva dos castros descobriam progressivamente todo um mundo de confortos civilizados e de entretenimentos urbanos que eram completamente desconhecidos nas suas aldeias montanhesas tradicionais. As termas públicas ofereciam banhos quentes e frios em ambientes magnificamente decorados onde as pessoas não apenas se lavavam mas também socializavam e discutiam negócios. Os teatros e anfiteatros proporcionavam entretenimento regular através de espectáculos dramáticos, competições atléticas e combates de gladiadores. As basílicas e os tribunais ofereciam a segurança e a previsibilidade das leis escritas e publicamente acessíveis que substituíam os costumes tribais tradicionais transmitidos apenas oralmente.
Em poucos séculos, a mistura inevitável entre os colonos vindos directamente de Itália e de outras províncias romanas e a população local indígena criou progressivamente uma identidade cultural completamente nova que não era nem puramente romana nem puramente lusitana mas representava uma síntese autêntica de ambas. O antigo guerreiro lusitano das montanhas, orgulhoso da sua austeridade e da sua independência tribal, deu gradualmente lugar ao cidadão lusitano-romano urbanizado que falava fluentemente a língua derivada do latim, que adorava simultaneamente os deuses do panteão romano oficial e algumas divindades locais ancestrais numa religiosidade sincrética, que apreciava os confortos da vida urbana civilizada, mas que mantinha ainda certas raízes e tradições ancestrais que ligavam as novas gerações ao passado pré-romano.
Este fim definitivo do isolamento milenar preparou fundamentalmente as bases profundas do que viria a ser Portugal muitos séculos mais tarde, criando um território unificado com um sistema de leis codificadas, com uma língua derivada directamente do latim vulgar falado quotidianamente, e com uma organização urbana e administrativa que ainda hoje, passados dois mil anos, continua a definir aspectos fundamentais do nosso território e da nossa identidade colectiva.
As Cidades Romanas: Os Pilares da Civilização na Lusitânia
Para gerir eficazmente a vasta província da Lusitânia, Roma compreendeu que não bastaria simplesmente enviar legiões de soldados para manter a ordem através da força militar. Era absolutamente necessário construir uma rede sólida e duradoura de cidades que funcionassem como verdadeiros espelhos em miniatura da própria capital imperial situada nas margens do Tibre. Estas cidades transformaram-se nos novos centros vitais onde se decidia a política local e provincial, onde comerciantes empreendedores faziam fortunas consideráveis através do comércio de produtos locais e importados, e onde as elites podiam desfrutar de um luxo e de um conforto material que eram completamente desconhecidos na região durante o período tribal anterior à conquista romana. Para compreendermos verdadeiramente como a romanização transformou profundamente o território lusitano, precisamos de explorar algumas destas cidades fundamentais que moldaram o destino da província.
Lisboa: Onde o Tejo Encontrava o Império
A cidade que os romanos designavam pelo nome de Olisipo, correspondente à actual Lisboa, foi desde muito cedo reconhecida como uma joia estratégica de valor inestimável para o império. O Imperador Augusto, demonstrando claramente a importância que atribuía a esta cidade magnificamente situada no estuário do grande rio Tejo, concedeu-lhe o título extremamente prestigioso de Município Romano. Esta distinção administrativa não era meramente honorífica mas possuía consequências jurídicas profundas e práticas. Significava concretamente que os habitantes de Olisipo eram reconhecidos como cidadãos romanos de pleno direito, desfrutando de todos os privilégios legais extraordinários que esse estatuto conferia, incluindo o direito de voto nas assembleias, a protecção completa da lei romana, e a possibilidade de ascenderem a cargos públicos importantes tanto a nível local como eventualmente a nível provincial ou mesmo imperial.
A importância económica fundamental de Olisipo derivava directamente da sua localização geográfica privilegiada. Graças ao magnífico estuário natural do Tejo, que oferecia um porto profundo e protegido capaz de acolher centenas de navios mercantes simultaneamente, a cidade transformou-se no porto de saída absolutamente crucial para praticamente todas as riquezas que a província da Lusitânia produzia e exportava para o resto do império. Imagine os cais movimentados da cidade onde se empilhavam ânforas contendo metais preciosos extraídos das minas do interior, barris de azeite de qualidade superior produzido nos olivais alentejanos, e jarros do famoso garum, aquele condimento elaborado de peixe fermentado que era extraordinariamente apreciado em todo o mundo romano e que alcançava preços elevadíssimos nos mercados de Roma, Alexandria e Cartago. Através deste porto dinâmico fluíam constantemente as exportações lusitanas em direcção aos grandes centros de consumo do império, tornando Olisipo numa cidade próspera e cosmopolita.
A monumentalidade romana de Olisipo não desapareceu completamente com a passagem dos séculos, embora muitos dos seus edifícios mais impressionantes tenham sido destruídos ou enterrados sob construções posteriores. Debaixo das ruas da actual Baixa pombalina, reconstruída após o devastador terramoto de mil setecentos e cinquenta e cinco, ainda existem vestígios arqueológicos fascinantes da cidade romana que ali existiu há dois mil anos. Os criptopórticos, que são essencialmente galerias subterrâneas impressionantes construídas com pedra cuidadosamente trabalhada e que podem ser visitados em locais como a Rua da Prata, serviam uma função de engenharia fundamental. Eram utilizados para nivelar artificialmente o terreno naturalmente irregular das colinas lisboetas e para criar plataformas estáveis capazes de sustentar os grandes edifícios públicos monumentais que eram construídos acima delas. No Chiado, os arqueólogos descobriram os restos substanciais de um teatro romano monumental que podia acolher milhares de espectadores, demonstrando claramente que a cidade vibrava com espectáculos dramáticos regulares e com uma vida cultural sofisticada que imitava a da própria Roma.
Conímbriga: O Luxo Preservado em Pedra e Mosaico
Se desejamos verdadeiramente compreender em detalhe concreto como vivia quotidianamente uma família rica e influente durante a época romana na Lusitânia, o local absolutamente essencial a visitar é Conímbriga, situada estrategicamente perto da actual cidade de Coimbra. Este sítio arqueológico extraordinário é sem dúvida o local romano mais extensamente escavado e mais bem preservado de todo o território português, oferecendo aos visitantes uma autêntica viagem fascinante através do tempo que nos transporta directamente para o mundo quotidiano dos romanos que ali viveram há tantos séculos.
Quando caminhamos hoje entre os muros parcialmente reconstruídos das casas senhoriais que pertenciam às famílias mais ricas e poderosas de Conímbriga, como a célebre Casa dos Repuxos cujo nome deriva das fontes decorativas que ainda podem ser vistas no seu jardim central, somos imediatamente impressionados pela sofisticação estética e pelo luxo material que estas residências demonstram. Os pavimentos de muitas destas salas estão cobertos por mosaicos policromados absolutamente deslumbrantes, criados meticulosamente através da colocação cuidadosa de milhares de pequenos cubos de pedra colorida que formam padrões geométricos complexos, representações mitológicas elaboradas, ou cenas quotidianas cheias de vida e movimento. Estes mosaicos parecem verdadeiros tapetes de pedra imperecíveis que mantêm as suas cores vibrantes após dois milénios.
O que talvez surpreenda ainda mais os visitantes modernos é descobrir o nível notável de conforto tecnológico que estas casas romanas ofereciam aos seus privilegiados habitantes. Muitas destas residências luxuosas possuíam jardins interiores cuidadosamente planeados onde fontes decorativas murmuravam constantemente, criando uma atmosfera de frescura e tranquilidade no clima quente do Verão mediterrânico. Mais impressionante ainda era o sistema de aquecimento central extremamente sofisticado conhecido tecnicamente como hypocaustum. Este sistema engenhoso funcionava através da criação de um espaço vazio por baixo do chão da casa, sustentado por pequenas colunas de tijolo ou pedra. Ar quente produzido por fornalhas situadas no exterior circulava através deste espaço, aquecendo uniformemente o pavimento acima e mantendo as salas confortavelmente quentes durante os meses frios do Inverno. Este ar quente era também canalizado através de condutas nas paredes até às termas privadas que muitas casas ricas possuíam, permitindo banhos quentes luxuosos sem necessidade de sair da própria residência.
Beja e Alcácer do Sal: Controlando o Celeiro Alentejano
No vasto território do Alentejo, caracterizado pelas suas extensas planícies férteis ideais para a agricultura de cereais em larga escala, Roma precisava urgentemente de estabelecer cidades que pudessem controlar eficientemente a produção agrícola massiva da região e que pudessem gerir as importantes rotas comerciais que atravessavam o território transportando mercadorias entre o interior e a costa.
Pax Julia, que corresponde à actual cidade de Beja, foi deliberadamente fundada para celebrar simbolicamente a paz finalmente alcançada nas terras que haviam sido conquistadas sob o comando de Júlio César. A cidade transformou-se rapidamente no centro administrativo absolutamente crucial de todo o sul lusitano. Era a partir daqui, dos seus edifícios governamentais e dos seus armazéns impressionantes, que se geria cuidadosamente a enorme produção de trigo e de outros cereais que alimentava não apenas a população local mas também as legiões romanas estacionadas em toda a Península Ibérica e que era exportada para outras províncias do império onde os solos menos férteis não permitiam cultivar excedentes suficientes.
Salácia, a actual Alcácer do Sal situada estrategicamente nas margens navegáveis do rio Sado, derivava o seu próprio nome de Sal, aquela mercadoria preciosa que funcionava praticamente como moeda na antiguidade devido ao seu valor universal como conservante indispensável de alimentos. A cidade era um porto absolutamente fundamental para toda a economia regional, especializada na exportação de sal extraído das salinas próximas e de peixe cuidadosamente salgado e conservado que podia ser transportado por longas distâncias sem se deteriorar. Salácia transformou-se numa das cidades mais prósperas e ricas de toda a província lusitana, funcionando como elo vital de ligação comercial entre o interior alentejano produtor de cereais e o vasto oceano atlântico que permitia o comércio com portos distantes.
Braga: A Capital que Dominava o Norte
Enquanto Mérida funcionava oficialmente como a capital administrativa de toda a província da Lusitânia onde residia o governador imperial, o norte do território, particularmente as regiões montanhosas que haviam sido o coração da antiga cultura castreja, era governado a partir de uma cidade especialmente fundada para esse fim. Bracara Augusta, a actual Braga, foi cuidadosamente planeada e fundada pessoalmente pelo Imperador Augusto para servir como o grande pólo administrativo, comercial e cultural de todo o Noroeste Peninsular, região que os romanos designavam como Galécia.
Braga ocupava uma posição estratégica fundamental na rede de comunicações do império. A cidade era o ponto crucial onde se cruzavam as principais vias romanas pavimentadas que ligavam o norte da Península Ibérica ao resto do império, permitindo a circulação rápida de tropas, de mercadorias e de informações. Este papel absolutamente central de capital do norte conferiu à cidade um prestígio religioso, político e cultural extraordinário que durou muito para além da queda do Império Romano no século quinto, transformando Braga num centro religioso cristão de primeira importância durante toda a Idade Média e até aos tempos modernos.
Esta rede complexa e bem planeada de cidades espalhadas estrategicamente por todo o território uniu definitivamente a Lusitânia de uma forma que nunca havia existido anteriormente durante o período tribal fragmentado. Pela primeira vez na longa história deste território, as populações que viviam desde Braga no extremo norte até Beja no profundo sul seguiam exactamente as mesmas leis codificadas, utilizavam a mesma moeda padronizada cunhada com a efígie do imperador, e partilhavam fundamentalmente o mesmo ideal de civilização urbana baseado em princípios romanos de ordem, racionalidade e progresso material.
As Estradas e Pontes: As Artérias que Unificaram a Lusitânia
Quando pensamos no legado duradouro que Roma deixou ao território lusitano, facilmente nos vêm à mente os templos majestosos, os teatros impressionantes ou os mosaicos coloridos que ainda podemos admirar em museus e sítios arqueológicos. No entanto, existe um legado romano muito mais quotidiano e funcional que moldou profundamente não apenas a paisagem antiga mas também a própria geografia moderna de Portugal: a extraordinária rede de estradas pavimentadas e de pontes de pedra que os engenheiros romanos construíram meticulosamente ao longo de séculos. Estas vias romanas, conhecidas tecnicamente como viae romanae, representavam muito mais do que simples caminhos para viajar. Funcionavam verdadeiramente como as artérias vitais através das quais circulava constantemente o sangue do império, permitindo o movimento rápido e seguro de exércitos, de mercadorias comerciais, de informações oficiais transportadas por correios imperiais, e de viajantes comuns que percorriam distâncias que anteriormente teriam sido praticamente impossíveis de atravessar com segurança e eficiência.
A Construção da Rede Viária: Ligando o Território
A construção desta rede viária impressionante que ligava sistematicamente todas as principais cidades da Lusitânia representou um empreendimento de engenharia civil verdadeiramente monumental que exigiu décadas de trabalho árduo e investimento considerável de recursos humanos e materiais. Imagine milhares de trabalhadores escavando o terreno irregular das montanhas lusitanas, nivelando cuidadosamente o solo, construindo aterros sólidos nos vales mais fundos, drenando pântanos que tornavam certas regiões intransitáveis durante os meses chuvosos, e finalmente pavimentando meticulosamente cada quilómetro de estrada com grandes lajes de pedra cuidadosamente encaixadas que criavam uma superfície durável capaz de resistir ao tráfego intenso durante séculos. As principais vias romanas na Lusitânia ligavam estrategicamente Lisboa no extremo sul da província através de Coimbra e do Porto até Braga no norte, conectando também todas estas cidades à capital provincial de Mérida situada no território que hoje é a Extremadura espanhola.
O que torna este legado romano particularmente notável e relevante para nós nos dias de hoje é o facto extraordinário de que muitas estradas modernas portuguesas ainda seguem exactamente o mesmo traçado geográfico que foi estabelecido originalmente pelos engenheiros romanos há dois mil anos. Quando viajamos de carro pelas estradas nacionais que atravessam o interior do país, estamos frequentemente a percorrer rotas que foram inicialmente planeadas e construídas durante o período romano, demonstrando de forma eloquente a sabedoria e a perícia técnica daqueles antigos engenheiros que souberam identificar os melhores caminhos através das montanhas e dos vales, escolhendo traçados que minimizavam as subidas íngremes e que evitavam obstáculos naturais significativos. Esta continuidade milenar entre passado romano e presente moderno revela-nos como as decisões de planeamento territorial tomadas há tantos séculos continuam a influenciar profundamente a nossa geografia quotidiana.
Os Marcos Miliários: O Sistema de Navegação da Antiguidade
Para que os viajantes antigos pudessem navegar eficazmente através desta vasta rede de estradas que se estendia por milhares de quilómetros atravessando toda a província, os romanos desenvolveram um sistema engenhoso de sinalização viária baseado em marcos miliários. Estes marcos eram essencialmente colunas cilíndricas de pedra sólida, geralmente com altura aproximada de um homem adulto, que eram estrategicamente colocadas ao longo das estradas a intervalos regulares correspondentes a uma milha romana, que equivalia a aproximadamente mil e quinhentos metros segundo as nossas medidas modernas. Cada marco miliário continha inscrições cuidadosamente gravadas na pedra que forneciam informações práticas essenciais aos viajantes: a distância percorrida desde a cidade de onde partira a estrada, a distância que ainda faltava percorrer até à próxima cidade importante ao longo do caminho, e frequentemente também o nome do imperador reinante sob cujo governo aquele troço específico da estrada havia sido construído ou reparado, transformando assim cada marco numa pequena declaração de propaganda imperial.
Podemos pensar nestes marcos miliários como funcionando de forma conceptualmente muito semelhante aos modernos sistemas de GPS que utilizamos hoje nos nossos telemóveis e automóveis para nos orientarmos durante as viagens, embora obviamente utilizando uma tecnologia infinitamente mais simples mas surpreendentemente eficaz. Um dos exemplos mais impressionantes e mais bem preservados deste sistema de marcos miliários pode ser admirado na Via Nova, conhecida popularmente como a Geira, que atravessa as paisagens montanhosas espectaculares do Parque Nacional da Peneda-Gerês ligando Braga à cidade galega de Astorga. Ao longo deste troço notavelmente bem conservado da antiga estrada romana, podemos ainda hoje observar dezenas de marcos miliários originais que permaneceram nos seus locais exactos durante quase dois mil anos, resistindo estoicamente às intempéries e ao passar inexorável do tempo, continuando a marcar silenciosamente as distâncias tal como faziam quando legionários romanos marchavam por este caminho ou quando mercadores transportavam as suas mercadorias entre as cidades do norte.
A Ponte de Chaves: Dois Milénios de Resistência Arquitectónica
Para além das estradas pavimentadas, os engenheiros romanos construíram também numerosas pontes de pedra que permitiam atravessar com segurança os rios que cortavam o território lusitano. Um dos exemplos mais extraordinários e mais impressionantes desta engenharia civil romana que sobreviveu magnificamente até aos nossos dias é a Ponte de Chaves, também conhecida como Ponte Trajana em honra do Imperador Trajano sob cujo reinado foi construída no início do século segundo depois de Cristo. Esta ponte monumental atravessa majestosamente o rio Tâmega utilizando uma série de arcos semicirculares perfeitos construídos com blocos de granito cuidadosamente trabalhados e encaixados sem qualquer argamassa, revelando o domínio absoluto que os romanos possuíam das leis da física aplicadas à construção em pedra.
O que torna a Ponte de Chaves verdadeiramente notável não é apenas a sua beleza arquitectónica evidente mas principalmente a sua resistência absolutamente extraordinária demonstrada ao longo de praticamente dois milénios completos de uso contínuo. Esta ponte tem suportado durante todo este período inimaginavelmente longo não apenas o tráfego de pedestres e de carroças puxadas por animais para o qual foi originalmente construída, mas também atravessou toda a Idade Média quando exércitos inteiros com equipamento pesado a cruzaram, resistiu às cheias devastadoras que periodicamente inundaram o rio Tâmega levando tudo à sua frente, e continua ainda hoje a ser utilizada quotidianamente por veículos automóveis modernos muito mais pesados do que qualquer coisa que os seus construtores romanos poderiam ter imaginado. Esta longevidade extraordinária não resulta de sorte ou acaso mas demonstra eloquentemente a qualidade superior dos materiais utilizados, a perícia técnica excepcional dos engenheiros que planearam cuidadosamente cada detalhe estrutural, e a execução meticulosa dos artesãos que transformaram os blocos de pedra bruta em componentes arquitectónicos perfeitamente ajustados.
A Máquina Económica Romana: Quando a Lusitânia Alimentou o Império
Sob o domínio progressivo de Roma, o território português que conhecemos hoje transformou-se radicalmente de uma região de economia tribal relativamente simples numa autêntica sala de máquinas económica de escala verdadeiramente impressionante. Para compreendermos a magnitude desta transformação, precisamos de contrastar claramente o antes e o depois da conquista romana. Se anteriormente a exploração dos recursos naturais lusitanos era realizada de forma essencialmente artesanal, com pequenos grupos familiares ou tribais extraindo metais em quantidades limitadas utilizando técnicas tradicionais transmitidas oralmente de geração em geração, os romanos trouxeram consigo algo completamente diferente: a escala industrial baseada em planeamento centralizado, em investimento massivo de capital e mão de obra, em técnicas de engenharia sofisticadas, e crucialmente, em leis rigorosamente codificadas que regulavam meticulosamente todos os aspectos da produção económica. Mais importante ainda, os romanos integraram definitivamente a economia lusitana numa vasta rede comercial de exportação que estendia tentáculos por todo o Mediterrâneo, levando os produtos extraídos ou fabricados no território português até aos confins mais distantes do Império, desde as frias províncias da Britânia até às cálidas costas do Egipto.
A Exploração Industrial dos Metais Preciosos
Roma possuía verdadeiramente uma sede absolutamente insaciável por metais preciosos e por minérios essenciais, necessários para sustentar constantemente as suas guerras de expansão e consolidação territorial que exigiam equipamento militar em quantidades enormes, para cunhar as moedas que lubrificavam a crescente economia monetária do império, e para satisfazer a demanda das elites urbanas por objectos de luxo fabricados em ouro e prata. A Lusitânia, com as suas riquíssimas jazidas minerais que já haviam atraído comerciantes fenícios e cartagineses séculos antes, revelou-se o destino absolutamente ideal para investimentos romanos massivos em infraestruturas mineiras.
A mina de Vipasca, situada na actual localidade de Aljustrel no Alentejo, fornece-nos um exemplo extraordinariamente bem documentado de como os romanos organizavam racionalmente e regulavam juridicamente a exploração mineira em escala industrial. Os arqueólogos que escavaram este sítio fizeram uma descoberta absolutamente preciosa que nos permite reconstruir com detalhe notável o funcionamento quotidiano de uma mina romana: as célebres Tábuas de Bronze de Aljustrel. Estas placas de bronze cuidadosamente gravadas com texto em latim contêm a Lex Metalli Vipascensis, que significa literalmente a Lei da Mina de Vipasca, um conjunto extraordinariamente completo e detalhado de regulamentos administrativos que governavam praticamente todos os aspectos imagináveis da vida e do trabalho naquela comunidade mineira.
Quando lemos atentamente estas leis preservadas no bronze, ficamos impressionados com o nível de detalhe burocrático e com a sofisticação administrativa que revelam. Os regulamentos especificavam precisamente quem tinha o direito legal de explorar determinados veios de minério e sob que condições contratuais essa exploração podia ser realizada. Estabeleciam os impostos que deviam ser pagos ao estado romano sobre os metais extraídos. Fixavam até aspectos aparentemente mundanos mas socialmente importantes como o preço máximo que podia ser cobrado pelos banhos públicos que serviam a comunidade mineira, reconhecendo implicitamente que manter os trabalhadores limpos e saudáveis era essencial para a produtividade. Estipulavam multas pesadas para quem danificasse deliberadamente ou por negligência os túneis subterrâneos, cuja integridade estrutural era obviamente crucial para a segurança de todos os trabalhadores. Esta legislação mineira extraordinariamente detalhada constitui prova inequívoca de uma administração pública altamente organizada, racional e burocratizada que aplicava princípios de gestão sofisticados mesmo em regiões remotas do império.
No Norte do território, especificamente na região montanhosa de Vila Pouca de Aguiar, os romanos realizaram aquilo que podemos considerar sem exagero uma das maiores e mais impressionantes obras de engenharia mineira de toda a Antiguidade. Em Tresminas, onde existiam riquíssimos depósitos auríferos, os engenheiros romanos não se contentaram com a extracção tradicional através de túneis subterrâneos. Pelo contrário, implementaram uma técnica muito mais radical e transformadora da paisagem: literalmente cortaram e removeram montanhas inteiras para extrair o ouro a céu aberto através de um método conhecido tecnicamente como ruina montium. Ainda hoje, quando visitamos este sítio arqueológico extraordinário, podemos observar directamente as chamadas cortas, que são fendas absolutamente gigantescas rasgadas nas rochas graníticas da serra, criando paisagens lunares que testemunham a escala colossal das operações mineiras romanas. Podemos também explorar os impressionantes túneis de escoamento de água que os engenheiros construíram para drenar as galerias subterrâneas e para utilizar a força hidráulica na lavagem do minério, demonstrando claramente a força organizacional e a persistência técnica notável deste povo que não recuava perante qualquer obstáculo natural quando recursos valiosos estavam em jogo.
O Oceano como Fábrica: A Indústria das Conservas de Peixe
O vasto Oceano Atlântico que banha toda a costa ocidental do território português não era apenas uma barreira geográfica ou uma via de comunicação marítima, mas funcionava literalmente como a grande despensa natural de Roma. As águas riquíssimas em peixe do Atlântico, especialmente quando comparadas com o Mediterrâneo onde a sobrepesca já começava a causar problemas, transformaram Portugal num dos principais centros industriais mundiais de conservação e processamento de peixe durante todo o período romano.
Ao longo de praticamente todo o litoral português, mas especialmente concentradas em locais estratégicos como a península de Tróia que se revelou o maior e mais importante centro industrial de salga de peixe de todo o Império Romano, e em Setúbal situada convenientemente perto de abundantes cardumes, surgiram verdadeiras fábricas de processamento equipadas com grandes tanques rectangulares de pedra chamados tecnicamente cetariae. Nestes tanques, que podemos ainda hoje observar nas ruínas arqueológicas de Tróia onde dezenas deles foram escavados e preservados, trabalhadores especializados fabricavam industrialmente o famosíssimo garum, um molho elaborado através da fermentação prolongada de vísceras de peixe misturadas com grande quantidade de sal sob o calor intenso do sol mediterrânico.
Este produto pode parecer-nos hoje pouco apetecível quando descrito nos seus ingredientes crus, mas era na realidade considerado um autêntico luxo gastronómico absolutamente indispensável nas mesas das elites de Roma e de todas as grandes cidades do império. O garum de alta qualidade produzido nas fábricas lusitanas, particularmente apreciado pela sua intensidade de sabor derivada da riqueza dos peixes atlânticos, alcançava preços extraordinariamente elevados nos mercados urbanos do Mediterrâneo. Era transportado em ânforas de barro cuidadosamente seladas que eram fabricadas localmente em oficinas cerâmicas especializadas como as que existiam em Alcochete, criando assim uma indústria secundária que suportava a principal. Este produto genuinamente lusitano era depois exportado por via marítima em navios mercantes que atravessavam constantemente o Mediterrâneo para alimentar literalmente as elites de todo o mundo romano desde a Hispânia até à Síria.
A Transformação da Paisagem Agrícola
Os romanos mudaram profunda e permanentemente a própria face da paisagem rural portuguesa através da introdução sistemática e em grande escala daquilo que os historiadores designam como a trilogia mediterrânica, os três cultivos fundamentais que definiram a agricultura mediterrânica durante milénios: o trigo para fazer o pão quotidiano, a vinha para produzir o vinho que era a bebida universal das refeições, e a oliveira para fornecer o azeite que era utilizado simultaneamente na alimentação, na iluminação das casas através de candeias de azeite, e na higiene corporal nas termas.
Roma introduziu deliberadamente o cultivo intensivo e altamente organizado do trigo, especialmente aproveitando as vastas planícies férteis do Alentejo que se transformaram rapidamente no verdadeiro celeiro da província, produzindo excedentes consideráveis que eram exportados para alimentar as legiões estacionadas noutras regiões menos produtivas da Hispânia e até para abastecer a própria cidade de Roma quando as colheitas falhavam noutras províncias. Simultaneamente, expandiram dramaticamente o cultivo da vinha, transformando o vinho de bebida ocasional e de luxo em bebida absolutamente quotidiana consumida por todas as classes sociais, e criando uma importante indústria de exportação de vinhos lusitanos que eram apreciados em mercados distantes.
Particularmente fascinante e duradoura foi a revolução que os romanos operaram na cultura da oliveira através da aplicação sistemática de uma técnica agrícola sofisticada: a enxertia. Quando os colonos romanos chegaram ao território lusitano, descobriram que cresciam naturalmente em muitas regiões vastas extensões de zambujeiros, que são essencialmente oliveiras bravas de crescimento selvagem que produzem apenas azeitonas minúsculas, amargas e praticamente inúteis para fins comerciais. Em vez de arrancarem simplesmente estas árvores selvagens e plantarem oliveiras domesticadas no seu lugar, o que teria exigido décadas de espera até que as novas árvores atingissem maturidade produtiva, os agricultores romanos aplicaram inteligentemente a técnica da enxertia. Cortavam cuidadosamente ramos de variedades produtivas de oliveira domesticada e inseriam-nos em cortes praticados nos troncos dos zambujeiros selvagens. Quando a enxertia era bem-sucedida, o sistema radicular já estabelecido e vigoroso do zambujeiro selvagem alimentava os ramos enxertados da variedade domesticada, que começavam a produzir azeitonas de qualidade comercial em apenas alguns anos. Esta técnica agrícola brilhante transformou literalmente uma árvore brava e economicamente inútil numa fonte abundante de riqueza líquida, criando os imensos olivais que ainda hoje cobrem vastas extensões do território português e que continuam a produzir o azeite de alta qualidade pelo qual Portugal é reconhecido internacionalmente.
A economia romana integrou definitiva e irreversivelmente Portugal no mundo comercial globalizado da Antiguidade. Pela primeira vez na longa história deste território, o ouro arduamente extraído das nossas serras graníticas, o peixe apanhado nas nossas águas atlânticas abundantes, e o azeite produzido nos nossos campos ensolarados tinham um mercado verdadeiramente global à sua espera, conectando este extremo ocidental da Europa com consumidores situados a milhares de quilómetros de distância.
Religião e Mentalidades: Quando os Deuses se Encontraram na Lusitânia
A conquista romana do território lusitano não trouxe apenas mudanças políticas e económicas, mas provocou também uma transformação profunda e fascinante no universo espiritual das populações que aqui viviam. Para compreendermos adequadamente este processo complexo, precisamos de abandonar a ideia simplista de que os romanos simplesmente impuseram os seus deuses às populações conquistadas através da força. A realidade histórica foi muito mais subtil, mais negociada e, em última análise, mais interessante do que qualquer imposição unilateral teria sido.
A Dança dos Deuses: O Sincretismo Religioso
Quando os romanos chegaram à Lusitânia, encontraram um panorama religioso rico e diversificado onde as populações indígenas veneravam numerosas divindades locais profundamente enraizadas nas tradições ancestrais e intimamente ligadas aos elementos naturais da paisagem. Divindades como Endovélico, adorado como deus da saúde, da cura de doenças e das profecias sobre o futuro, possuíam santuários importantes onde devotos acorriam em busca de cura e orientação. Ataegina era venerada como deusa poderosa do renascimento sazonal da natureza após o inverno e da fertilidade tanto da terra cultivada como das mulheres que desejavam conceber filhos.
Em vez de tentarem erradicar violentamente estas crenças profundamente enraizadas, o que inevitavelmente provocaria resistência feroz e tumultos religiosos perigosos para a estabilidade da província, os romanos adoptaram uma política notavelmente pragmática e flexível de absorção gradual. Permitiam deliberadamente que os deuses indígenas continuassem a ser adorados nos seus santuários tradicionais, mas incentivavam activamente um processo que os estudiosos modernos designam como sincretismo religioso, ou seja, a fusão ou identificação progressiva entre divindades de diferentes tradições que partilhassem características ou funções semelhantes.
Assim, Endovélico, que já era associado à cura, foi gradualmente identificado com o deus romano Esculápio, também ele patrono da medicina e da saúde. Ataegina, com as suas funções ligadas à fertilidade e ao renascimento cíclico, foi aproximada da deusa romana Prosérpina que desempenhava papéis conceptualmente semelhantes na mitologia romana. Esta fusão não aconteceu abruptamente num único momento mas desenrolou-se gradualmente ao longo de gerações, à medida que as populações se familiarizavam com ambas as tradições religiosas e começavam naturalmente a perceber correspondências e semelhanças entre deuses que anteriormente haviam considerado completamente distintos.
Com o passar do tempo, especialmente à medida que as novas gerações nascidas já sob domínio romano cresciam familiarizadas com ambas as tradições desde a infância, os lusitanos romanizados passaram também a venerar activamente as grandes divindades do panteão romano oficial. Júpiter, o rei dos deuses associado ao trovão e à justiça suprema, Vénus, a deusa do amor e da beleza, e Marte, o deus da guerra e protector dos soldados, tornaram-se figuras familiares nos templos urbanos que eram construídos segundo modelos arquitectónicos importados directamente de Roma.
O Culto Imperial: Religião e Política Entrelaçadas
Uma dimensão particularmente importante e politicamente significativa da vida religiosa na Lusitânia romana era o chamado culto imperial, ou seja, a veneração do imperador reinante como uma figura divina ou semi-divina merecedora de honras religiosas. Para compreendermos este fenómeno que pode parecer-nos hoje estranho ou mesmo incompreensível, precisamos de reconhecer que no mundo romano antigo não existia qualquer separação clara entre as esferas religiosa e política tal como existe nas sociedades modernas ocidentais. Pelo contrário, religião e política estavam profunda e inextricavelmente entrelaçadas.
A veneração ao imperador funcionava simultaneamente como expressão de piedade religiosa e como declaração pública de lealdade política ao regime imperial. Construir um templo dedicado ao culto do imperador numa cidade provincial constituía uma forma tangível de demonstrar que aquela comunidade era leal a Roma e reconhecia a autoridade suprema do imperador. Um dos exemplos mais impressionantes e mais bem preservados deste tipo de edifício religioso-político que sobreviveu em território português é o magnífico Templo Romano de Évora, frequentemente mas incorrectamente designado como Templo de Diana pela tradição popular.
Este templo monumental, com as suas colunas coríntias elegantes que ainda se erguem majestosamente no centro histórico de Évora quase dois mil anos após a sua construção original, foi muito provavelmente dedicado ao culto do imperador reinante na época da sua edificação, possivelmente Augusto que foi particularmente activo na reorganização administrativa da Lusitânia. A sua localização central na cidade, a sua escala monumental e a qualidade superior dos materiais utilizados na construção comunicavam claramente a importância política e religiosa do culto imperial na vida cívica da comunidade urbana.
As Sementes de Uma Nova Fé: O Cristianismo Chega à Lusitânia
Durante os primeiros séculos do domínio romano sobre a Lusitânia, uma nova religião que havia nascido numa província remota do Império no Mediterrâneo oriental começou lenta mas inexoravelmente a espalhar-se através das rotas comerciais e das redes urbanas que conectavam todas as províncias. O cristianismo, inicialmente uma seita minoritária e frequentemente perseguida dentro do judaísmo, começou a atrair convertidos entre as populações do império, incluindo gradualmente também habitantes da Lusitânia.
Este processo de cristianização inicial foi extremamente lento, gradual e inicialmente limitado principalmente aos centros urbanos onde circulavam comerciantes e viajantes que traziam consigo as novas ideias religiosas. Durante os primeiros três séculos após Cristo, a esmagadora maioria da população lusitana mantinha-se fiel às práticas religiosas tradicionais, venerando tanto os antigos deuses indígenas como as divindades romanas num sincretismo confortável. O cristianismo era apenas uma entre muitas religiões minoritárias que coexistiam no contexto do pluralismo religioso característico do império.
No entanto, tudo mudaria dramaticamente no século quarto quando o Imperador Constantino, por razões tanto de convicção pessoal como de cálculo político, primeiro legalizou o cristianismo através do Édito de Milão e depois começou activamente a favorecê-lo com apoio imperial. Esta transformação do estatuto oficial do cristianismo, de seita perseguida a religião favorecida pelo estado, acelerou enormemente o processo de conversão. Ao longo dos séculos quarto e quinto, o cristianismo espalhou-se progressivamente desde os centros urbanos para as zonas rurais, onde as velhas tradições religiosas pagãs mantinham-se mais resistentes à mudança.
Esta mudança espiritual profunda que gradualmente transformou a Lusitânia de uma província pagã numa região maioritariamente cristã começava assim a desenhar lentamente os contornos daquilo que viria a ser a Idade Média, período durante o qual a religião cristã se tornaria absolutamente central não apenas na vida espiritual mas em praticamente todos os aspectos da organização social, política e cultural das populações que habitavam o território que muito mais tarde se tornaria Portugal.
Como o Império Moldou Portugal para Sempre
O legado que Roma deixou no território português estende-se muito para além de uma simples coleção de ruínas arqueológicas impressionantes ou de monumentos antigos que visitamos como turistas curiosos. Este legado vive activamente e pulsa constantemente no nosso pensamento quotidiano, na forma como organizamos a nossa sociedade e as nossas instituições, e até literalmente na nossa boca através das palavras que pronunciamos todos os dias sem sequer nos apercebermos da sua origem milenar. Para compreendermos verdadeiramente quem somos como povo e como nação, precisamos de reconhecer que Portugal é, em aspectos fundamentais, filho directo de Roma tanto quanto é herdeiro dos bravos guerreiros lusitanos que resistiram à conquista.
A Língua que Falamos: Ecos Milenares de Roma
Quando Roma conquistou definitivamente a Lusitânia e começou o longo processo de romanização das populações indígenas, não trouxe consigo o latim clássico refinado e elaborado que os grandes poetas como Virgílio ou Ovídio utilizavam nas suas obras literárias imortais, nem a língua sofisticada e retoricamente complexa que os filósofos discutiam nas academias urbanas ou que os oradores empregavam nos tribunais. O que realmente se espalhou por todo o território e penetrou profundamente na vida quotidiana das populações comuns foi o chamado latim vulgar, que era essencialmente a língua prática, directa e em constante evolução falada naturalmente pelos soldados que guardavam as fronteiras, pelos mercadores que negociavam nos mercados urbanos, pelos artesãos que trabalhavam nas suas oficinas, e pelos colonos que cultivavam os campos. Este latim popular era uma língua viva e flexível que absorvia facilmente palavras das línguas locais pré-romanas e que se adaptava constantemente às necessidades comunicativas do dia a dia.
Durante os séculos em que o Império Romano manteve unida toda a vasta região mediterrânica e ocidental europeia através das suas estradas, do seu exército, da sua administração centralizada e do seu comércio intenso, este latim vulgar manteve-se relativamente uniforme em todas as províncias porque existiam contactos constantes que impediam uma divergência excessiva entre as diferentes regiões. No entanto, tudo mudou dramaticamente com a queda gradual do Império Romano no Ocidente durante o século quinto, quando as invasões bárbaras fragmentaram a unidade política que Roma havia criado e quando as rotas comerciais e as redes de comunicação que ligavam as diferentes províncias se desintegraram progressivamente. Com este isolamento crescente das diferentes regiões europeias umas em relação às outras, o latim vulgar que era falado em cada território começou naturalmente a transformar-se de forma independente, evoluindo em direcções divergentes. Em cada recanto geograficamente isolado da antiga Europa romana, este latim foi ganhando gradualmente o seu próprio sotaque distintivo, as suas próprias peculiaridades gramaticais, e foi incorporando palavras completamente novas derivadas tanto das línguas pré-romanas locais que nunca haviam desaparecido completamente como das línguas dos invasores germânicos que se estabeleceram em diferentes regiões.
Este processo lento mas inexorável de evolução linguística divergente ao longo de muitos séculos deu finalmente origem àquilo que os linguistas designam como as línguas românicas, ou seja, o vasto grupo de línguas que descendem directamente do latim vulgar e que incluem o português, o espanhol, o francês, o italiano, o romeno e várias outras línguas menores. Portugal é, quando analisamos cuidadosamente do ponto de vista linguístico, essencialmente uma terra onde as populações continuam ainda hoje a falar latim, embora seja um latim que sofreu uma evolução dramática e transformadora ao longo de mais de dois mil anos de mudanças fonéticas, gramaticais e lexicais. Quando dizemos quotidianamente palavras tão básicas e fundamentais como pai, que deriva directamente do latim pater, ou mãe, que vem de mater, ou até água, derivada de aqua, estamos literalmente a usar os ecos milenares da voz de Roma, mantendo viva uma ligação linguística ininterrupta que atravessa dois milénios de história.
O Direito Romano: Construindo a Ordem Social
Antes da chegada dos romanos ao território lusitano, a justiça entre as populações tribais era administrada essencialmente pela força bruta dos mais poderosos ou então seguindo os costumes ancestrais não escritos de cada tribo particular, tradições que eram transmitidas apenas oralmente de geração em geração e que variavam significativamente de uma comunidade para outra. Roma trouxe algo revolucionário e transformador que mudou fundamentalmente a forma como as sociedades se organizavam: a Lei Escrita, um sistema codificado e publicamente acessível de normas jurídicas que organizava racionalmente a sociedade de forma lógica, previsível e pretensamente universal, aplicável a todos os cidadãos independentemente da sua origem tribal ou do seu estatuto social particular.
A base fundamental das nossas leis actuais portuguesas e europeias, incluindo conceitos jurídicos absolutamente centrais como os direitos de propriedade privada que permitem aos indivíduos possuírem e transmitirem bens, a validade legal dos contratos vinculativos entre partes que criam obrigações exigíveis, e a própria noção abstracta mas fundamental de cidadania que define quem pertence à comunidade política e quais os direitos e deveres que essa pertença confere, deriva directa e inequivocamente do Direito Romano tal como foi desenvolvido e aperfeiçoado ao longo de muitos séculos pelos juristas romanos.
Igualmente importante e igualmente duradoura foi a invenção romana do conceito de município como unidade básica de governo local autónomo. Os romanos criaram deliberadamente uma forma sofisticada de gestão territorial descentralizada onde cada cidade possuía as suas próprias regras locais adaptadas às circunstâncias particulares da região e os seus próprios administradores locais eleitos ou nomeados que conheciam profundamente as necessidades específicas das suas comunidades. Esta semente fundamental da organização municipal que Roma plantou há dois mil anos germinou e cresceu ao longo dos séculos seguintes, transformando-se eventualmente na raiz directa das nossas actuais Câmaras Municipais e instituições de governo local que permitem que as populações decidam democraticamente sobre aspectos importantes dos seus próprios destinos locais em vez de serem governadas apenas por decretos centralizados vindos da capital distante.
A Fusão dos Povos: Criando uma Nova Identidade
Portugal, tal como o conhecemos hoje tanto geneticamente como culturalmente, é o resultado complexo e fascinante de uma mistura profunda e duradoura de diferentes populações que aconteceu gradualmente durante os cinco séculos longos de domínio romano sobre o território. As legiões romanas que ocuparam e pacificaram a Lusitânia não eram formadas apenas por soldados italianos vindos directamente da Península Itálica, mas constituíam um verdadeiro mosaico étnico composto por homens recrutados em todas as regiões do vasto Império, incluindo gauleses da actual França, germanos das regiões além do Reno, norte-africanos das províncias mediterrânicas, orientais da Síria e do Egipto, e muitos outros. Estes soldados de origens extremamente diversas, depois de completarem o seu serviço militar obrigatório que durava tipicamente vinte ou vinte e cinco anos, recebiam frequentemente terras na província onde haviam servido como recompensa pela sua lealdade, estabelecendo-se permanentemente como colonos agricultores. Estes veteranos militares reformados casavam naturalmente com mulheres das populações castrejas locais que habitavam o território desde tempos imemoriais, criando famílias mistas que incorporavam heranças genéticas e culturais de múltiplas origens.
Desta união prolongada ao longo de muitas gerações entre conquistadores romanos de origens diversas e populações indígenas lusitanas nasceu gradualmente uma identidade completamente nova que os historiadores designam como luso-romana. Precisamos de compreender que não somos simplesmente descendentes directos e puros dos bravos lusitanos guerreiros que seguiram Viriato na sua resistência heroica contra Roma, preservando intacta uma identidade tribal ancestral. Nem somos também apenas descendentes dos colonos romanos civilizados que trouxeram as cidades, as leis e a cultura mediterrânica para este extremo ocidental. Somos fundamentalmente a fusão complexa e equilibrada de ambas estas heranças, herdando simultaneamente características de ambos os nossos antepassados tribais e dos nossos antepassados imperiais.
Esta mistura extraordinária criou um povo simultaneamente mediterrânico e atlântico, uma combinação única que nos deu tanto a resiliência característica dos povos montanheses habituados a viver em condições difíceis e a sobreviver com recursos limitados, como o pragmatismo urbano e comercial típico das culturas mediterrânicas orientadas para o comércio marítimo e para as trocas culturais. Portugal herdou definitivamente de Roma a sua estrutura fundamental organizacional, a sua língua base, o seu sistema jurídico, a sua rede urbana e viária, mas manteve sempre aquela alma inquieta e irrequieta virada instintivamente para o mar desconhecido que já existia desde os tempos pré-romanos mais antigos e que eventualmente conduziria os portugueses aos Descobrimentos marítimos.
Roma deu essencialmente a Portugal tanto a cabeça pensante, fornecendo a organização racional e a língua comum que permitiram criar uma identidade unificada, como o corpo material, construindo as cidades monumentais e as estradas pavimentadas que ainda hoje estruturam o território, transformando assim este extremo ocidental remoto numa nação plenamente integrada no mundo europeu e mediterrânico.
O Crepúsculo de Roma e o Alvorecer da Idade Média
Esta fase da história lusitana marca simultaneamente o fim de uma era dourada de estabilidade e prosperidade e o início de uma época caracterizada por grande incerteza, transformação profunda e reestruturação completa da sociedade. O mundo romano, aquela civilização aparentemente eterna que havia dominado o Mediterrâneo e grande parte da Europa durante séculos e que parecia destinada a durar para sempre, começou gradualmente a desmoronar-se sob o peso das suas próprias contradições internas e da pressão externa de povos que buscavam entrar nas fronteiras imperiais. Este colapso não foi súbito nem uniforme, mas desenrolou-se ao longo de décadas e até séculos, dando lugar progressivamente a novas crenças religiosas que transformariam completamente a espiritualidade europeia e a novos senhores militares que vinham do Norte gelado e do Leste distante da Europa, trazendo consigo culturas, línguas e formas de organização social completamente diferentes das tradições romano-mediterrânicas que haviam prevalecido durante tanto tempo.
A Luz do Cristianismo Ilumina o Ocidente
Para compreendermos adequadamente a transformação religiosa que ocorreu durante este período crucial, precisamos de abandonar qualquer ideia de que o Cristianismo se impôs repentinamente através de um decreto imperial ou de uma conversão massiva instantânea. A realidade histórica foi muito mais gradual, muito mais complexa e muito mais interessante. Foi essencialmente um processo lento e irregular que começou modestamente nos centros urbanos mais cosmopolitas e que demorou literalmente séculos inteiros a penetrar nas aldeias remotas das montanhas onde as antigas tradições religiosas se mantinham profundamente enraizadas.
Inicialmente, durante os primeiros séculos após o nascimento de Cristo, a nova religião cristã espalhou-se principalmente através das rotas comerciais marítimas e terrestres que ligavam as diferentes partes do império, transportada por comerciantes, soldados e viajantes que haviam sido convertidos noutras regiões. As elites urbanas educadas, que mantinham contactos regulares com outras cidades do império e que estavam habituadas a absorver novas ideias filosóficas e religiosas vindas do Mediterrâneo oriental, foram geralmente as primeiras a adoptar o cristianismo. Cidades importantes do território lusitano como Olisipo que corresponde à actual Lisboa, Bracara Augusta que é a moderna Braga, e Évora transformaram-se em sedes de bispados cristãos muito precocemente, já durante o século terceiro ou quarto, tornando-se centros de irradiação da nova fé para as regiões circundantes.
No entanto, nas vastas zonas rurais que constituíam a esmagadora maioria do território e onde vivia a maior parte da população, as velhas crenças permaneceram extraordinariamente resistentes à mudança durante muito tempo. As pessoas do campo continuavam teimosamente a adorar as forças naturais da paisagem que os rodeava, venerando nascentes sagradas, árvores anciãs, rochas peculiares e montanhas imponentes, e mantendo o culto aos antigos deuses tanto lusitanos como romanos que haviam protegido as suas famílias e as suas colheitas durante gerações incontáveis. A própria palavra pagão, que os cristãos urbanos começaram a utilizar de forma depreciativa para designar aqueles que ainda não haviam adoptado a nova fé, deriva precisamente do termo latino paganus, que significa simplesmente habitante do campo, revelando claramente que a resistência à cristianização estava geograficamente concentrada nas zonas rurais.
Para convencer gradualmente estas populações rurais conservadoras a abandonarem as suas crenças ancestrais e a adoptarem o cristianismo, a Igreja desenvolveu uma estratégia extremamente pragmática e psicologicamente inteligente. Em vez de tentarem destruir completamente os lugares sagrados tradicionais e erradicar violentamente todos os vestígios das antigas religiões, o que provavelmente teria provocado resistência violenta, os missionários cristãos frequentemente construíam deliberadamente as suas capelas e igrejas exactamente em cima ou imediatamente ao lado dos antigos lugares sagrados que as populações lusitanas ou romanas haviam venerado durante séculos. Desta forma, as pessoas podiam continuar a visitar os mesmos locais que sempre haviam considerado especiais e poderosos, mas agora enquadrados num contexto cristão. A Igreja estava efectivamente a baptizar os velhos costumes, absorvendo-os e transformando-os em vez de os eliminar completamente.
O cristianismo acabou por revelar-se o grande herdeiro cultural e institucional de Roma. Quando a administração secular do Império começou a falhar dramaticamente durante os séculos quarto e quinto, incapaz de manter a ordem pública ou de fornecer serviços básicos às populações, foi precisamente a Igreja organizada hierarquicamente com os seus bispos, padres e mosteiros que conseguiu manter alguma coesão social nas comunidades locais e que preservou cuidadosamente a língua latina através da cópia de manuscritos nos scriptoria monásticos, garantindo assim que o conhecimento acumulado da civilização romana não desaparecesse completamente com o colapso político do império.
O Choque dos Mundos: Quando os Bárbaros Chegaram
No início do século quinto, especificamente no ano de quatrocentos e onze depois de Cristo, as fronteiras militares do Império Romano que haviam sido mantidas seguras durante séculos pelas poderosas legiões romperam-se finalmente de forma definitiva e catastrófica. Povos inteiros que os romanos designavam colectivamente e de forma depreciativa como bárbaros, uma palavra grega que originalmente se referia a qualquer pessoa que não falava grego e que os romanos adoptaram para designar aqueles que não falavam latim, não viviam em cidades organizadas segundo princípios urbanos mediterrânicos, e não partilhavam os valores da civilização romana, entraram em massa na Península Ibérica procurando desesperadamente novas terras cultiváveis onde pudessem estabelecer-se permanentemente e riquezas que pudessem saquear para sustentar as suas comunidades.
Entre estes povos invasores, três grupos tiveram impacto particularmente significativo no território que viria a tornar-se Portugal. Os Alanos, povo de origem iraniana que havia migrado desde as estepes asiáticas atravessando toda a Europa, ocuparam inicialmente partes consideráveis da Lusitânia através da força militar, mas acabaram relativamente rapidamente por serem derrotados militarmente ou simplesmente absorvidos culturalmente por outros grupos mais numerosos e mais organizados, desaparecendo efectivamente como entidade política distinta embora deixando alguns vestígios na toponímia regional.
Os Suevos, povo germânico originário das regiões correspondentes à actual Alemanha, fixaram-se estrategicamente no Noroeste do território, particularmente nas regiões férteis do Minho e da Galiza. Este grupo revelou-se notavelmente mais estável politicamente do que os outros invasores, conseguindo fundar um reino organizado e relativamente duradouro com a sua capital estabelecida significativamente em Braga, aproveitando deliberadamente o prestígio e a infraestrutura da antiga cidade romana. Os Suevos eram fundamentalmente agricultores experientes que trouxeram consigo técnicas de cultivo adaptadas aos climas mais húmidos e frios do Norte europeu, deixando marcas duradouras tanto na organização das propriedades rurais da região como na própria toponímia, sendo particularmente visível a sua influência em nomes de lugares terminados em sufixos germânicos característicos como menos mil ou menos riz.
Os Visigodos representavam o grupo invasor mais poderoso militarmente, mais numeroso demograficamente, e paradoxalmente mais romanizado culturalmente entre todos os povos bárbaros que entraram na península. Haviam mantido contactos prolongados com o Império Romano durante séculos, servindo frequentemente como tropas auxiliares nos exércitos imperiais e absorvendo gradualmente muitos aspectos da cultura romana. Após décadas de conflitos complexos tanto contra outros povos invasores como contra os restos da autoridade imperial romana na península, os Visigodos acabaram finalmente por conquistar militarmente todo o território ibérico, unificando-o sob uma única autoridade política centralizada, sob um único sistema jurídico codificado que combinava elementos do direito romano tradicional com costumes germânicos, e eventualmente, após a conversão do rei Recaredo no ano de quinhentos e oitenta e seis, sob a mesma religião católica ortodoxa que abandonava definitivamente o arianismo que os Visigodos haviam anteriormente professado.
O Legado Transformado
A chegada destes povos germânicos marcou inequivocamente o fim definitivo daquilo que os historiadores designam como a Pax Romana, aquele longo período de relativa paz, estabilidade política e prosperidade económica que o domínio romano havia garantido durante séculos. As magníficas estradas pavimentadas que haviam permitido viajar com segurança de uma ponta à outra do império deixaram progressivamente de ser seguras, tornando-se infestadas de bandidos e de grupos armados que atacavam viajantes indefesos. As cidades encolheram dramaticamente, com as populações urbanas diminuindo para fracções do que haviam sido no auge romano. O comércio de longa distância que havia ligado a Lusitânia aos mercados do Mediterrâneo oriental praticamente desapareceu, sendo substituído por economias muito mais localizadas e autossuficientes.
No entanto, embora o Império Romano tenha caído definitivamente enquanto estrutura política centralizada, os povos invasores que os romanos haviam desprezado como bárbaros incultos demonstraram surpreendentemente uma profunda admiração pela cultura romana que conquistaram. Adoptaram rapidamente a língua latina como língua administrativa e eventualmente até quotidiana, converteram-se ao cristianismo que havia sido a religião oficial do império tardio, e tentaram manter funcionando as instituições romanas que consideravam úteis. Esta fusão complexa entre elementos germânicos e romanos preparou culturalmente e institucionalmente o nascimento das futuras nações europeias medievais.
Portugal entrava assim definitivamente na época histórica designada como Idade Média, um período que seria caracterizado por castelos fortificados que dominavam a paisagem rural, por mosteiros poderosos que preservavam conhecimento e forneciam coesão espiritual, e por novas lutas constantes pela posse e controlo da terra, onde a herança de resistência e independência simbolizada por Viriato e a estrutura organizacional legada por Roma se misturariam criativamente com o vigor militar e as tradições comunitárias destes novos povos germânicos vindos do Norte.

.
