Historia de Portugal
Consolidação e Conquista Definitiva do Algarve
D. Sancho I, O Povoador: Como Transformar Conquistas Militares em Comunidades Vivas
Quando D. Sancho I subiu ao trono em 1185, herdou do seu pai, D. Afonso Henriques, algo simultaneamente impressionante e profundamente problemático. O primeiro rei tinha conquistado um território que se estendia desde o Minho até ao Tejo, tinha derrotado exércitos muçulmanos em batalhas memoráveis, tinha forçado o reconhecimento da independência portuguesa pelos reinos vizinhos e pelo Papa. Era uma herança gloriosa de que qualquer filho se orgulharia. Contudo, quando olhamos mais de perto para este reino que Sancho I herdou, descobrimos uma verdade desconfortável que os cronistas medievais, obcecados com batalhas e heróis, frequentemente negligenciavam: vastas extensões deste território conquistado estavam praticamente desertas ou eram habitadas por populações tão esparsas e desorganizadas que dificilmente podiam defender ou cultivar eficazmente a terra.
Pensemos no desafio fundamental que Sancho I enfrentava. O seu pai tinha sido essencialmente um rei guerreiro, alguém cuja energia e génio se focavam na conquista militar e na diplomacia internacional necessária para legitimar essas conquistas. Estas eram competências absolutamente vitais para criar o reino, mas criar um reino e consolidar um reino são tarefas muito diferentes que exigem talentos distintos. Sancho I compreendeu algo que muitos governantes ao longo da história falharam em perceber: conquistar território é relativamente fácil quando se tem um exército suficientemente forte, mas transformar esse território conquistado numa parte genuína e permanente do reino, povoada por pessoas leais que o cultivam, defendem e consideram seu lar, isso é infinitamente mais difícil e, em última análise, muito mais importante. É por esta compreensão profunda e pela forma brilhante como a pôs em prática que a História o conhece não como "O Conquistador" ou "O Guerreiro", mas como "O Povoador", um título que capta a essência do seu verdadeiro génio político.
A Ferramenta Revolucionária: As Cartas de Foral Como Contratos Sociais
Para compreendermos a estratégia de D. Sancho I, precisamos primeiro de entender a ferramenta jurídica central que utilizou: as Cartas de Foral. Já encontrámos forais anteriormente nesta narrativa, mas vale a pena examinarmos mais detalhadamente como Sancho I os transformou num instrumento sistemático de construção nacional. Um foral era, na sua essência, um contrato formal entre o rei e uma comunidade. Imaginemos que estamos no século XII e o rei acaba de conquistar ou quer povoar uma região na fronteira com Leão ou numa zona recentemente tomada aos muçulmanos. Esta região está praticamente deserta, talvez porque a população anterior fugiu durante a guerra, talvez porque nunca foi densamente povoada para começar. O rei precisa de atrair pessoas para lá viverem, mas enfrenta um problema fundamental: por que razão alguém escolheria voluntariamente mudar-se para uma zona perigosa, constantemente ameaçada por ataques militares, quando podia permanecer em segurança nas regiões já consolidadas do norte?
A resposta de Sancho I foi oferecer algo que tornasse o risco aceitável e até atraente: privilégios substanciais que transformassem completamente as condições de vida. Um foral típico concedido por Sancho I oferecia terras para cultivar, algo que era precioso numa sociedade agrícola onde a maior parte das terras já tinha donos estabelecidos há gerações. Oferecia isenções fiscais ou reduções significativas nos impostos que teriam de pagar, tornando a vida economicamente mais viável. Oferecia autonomia administrativa, o direito de a comunidade eleger os seus próprios magistrados e resolver as suas próprias disputas menores sem ter de recorrer constantemente à autoridade de um senhor feudal distante. Oferecia o direito de realizar mercados, criando oportunidades económicas que podiam enriquecer toda a comunidade. E oferecia protecção legal contra a exploração arbitrária por parte da nobreza local.
Em troca destes privilégios extraordinários, os habitantes comprometiam-se a cumprir certas obrigações fundamentais. Tinham de cultivar a terra efectivamente, não podiam simplesmente reclamá-la e deixá-la improdutiva. Tinham de manter as fortificações em bom estado, contribuindo com o seu trabalho para reparar muralhas e torres. E, crucialmente, tinham de defender o território quando atacado, pegando em armas e lutando como parte das milícias locais. Esta última obrigação criava algo notável: uma população que não era apenas economicamente produtiva mas também militarmente útil, cidadãos-soldados que tinham um interesse pessoal directo na defesa do território porque era genuinamente o seu território, não apenas terras de um senhor distante que lhes ordenava lutar.
D. Sancho I aplicou esta estratégia com particular intensidade nas regiões da Beira e de Trás-os-Montes, precisamente as áreas que enfrentavam a maior pressão do Reino de Leão e onde a necessidade de consolidar a fronteira oriental era mais urgente. Entre 1186 e 1199, concedeu ou confirmou dezenas de forais. Gouveia e Covilhã receberam forais em 1186, Viseu e Bragança em 1187, seguidos por Folgosinho e Valhelhas em 1188, São Vicente da Beira em 1195, e Belmonte em 1199. Esta não era uma política errática ou oportunista mas uma campanha sistemática e planeada para criar uma rede integrada de concelhos que cobrisse toda a região fronteiriça vulnerável.
Construir Cidades Para Guardar o Reino: Bragança e a Guarda
Dois casos específicos ilustram particularmente bem o pensamento estratégico de Sancho I. Quando concedeu o foral a Bragança em 1187, não escolheu este local aleatoriamente. A antiga "Quintã da Benquerença" oferecia condições topográficas ideais, situada numa posição que permitia controlar as rotas de invasão vindas de leste. O rei explicitamente escolheu este local para servir de "cabeça de um grande termo povoado", para usar as palavras dos documentos da época. Bragança deveria funcionar como o centro administrativo, económico e militar de toda uma região circundante, irradiando autoridade real e organização para o território em redor. Era um baluarte estratégico na fronteira nordeste, um ponto a partir do qual o poder real podia projectar-se e a partir do qual invasões podiam ser detectadas e confrontadas antes de penetrarem profundamente no reino.
Ainda mais emblemático foi a fundação da Guarda em 1199, um dos actos mais cuidadosamente planeados de todo o reinado de Sancho I. O próprio nome da cidade revela a sua função: guardar. Situada deliberadamente num local de difícil acesso, numa altitude que tornava qualquer ataque custoso e que simultaneamente oferecia visibilidade extraordinária sobre o território circundante, a Guarda permitia vigiar a região num raio de até vinte léguas, cerca de cem quilómetros. Era um ponto nevrálgico para a defesa da Beira Interior contra investidas leonesas, mas era também muito mais do que isso. Era uma declaração visual e psicológica de soberania portuguesa, uma cidade que afirmava que este território estava permanentemente ocupado, organizado e defendido. Qualquer exército invasor vindo de leste teria de confrontar não apenas as suas formidáveis fortificações mas toda a rede de povoações circundantes que a Guarda coordenava e protegia.
Parceria Estratégica: As Ordens Militares Como Instrumento de Povoamento
D. Sancho I era suficientemente realista para compreender que a Coroa, por si só, não tinha os recursos humanos ou financeiros para povoar e defender todo o território conquistado. A solução que adoptou foi confiar vastos domínios às Ordens Militares, aquelas instituições de monges-guerreiros que já conhecemos, mas agora utilizando-as especificamente como instrumentos de colonização interna e não apenas de conquista externa. Quando concedeu o Castelo de Alcanede à Ordem de Calatrava em 1187, estava efectivamente a subcontratar a defesa e o povoamento daquela região a uma organização que tinha a disciplina, os recursos e a motivação ideológica para cumprir a tarefa.
Particularmente reveladora foi a doação em 1194 da herdade de Guidintesta aos Hospitalários, outra ordem militar importante. Esta doação vinha com uma condição específica e estratégica: a construção de um castelo que vigiasse a margem norte do Tejo. O resultado foi o Castelo de Belver, que se tornou essencial para a defesa da linha do Tejo contra as incursões dos Almóadas, a nova dinastia berbere que tinha substituído os Almorávidas e que representava uma ameaça militar ainda mais formidável. Sancho I estava efectivamente a usar as Ordens Militares como uma extensão do poder real, confiando-lhes não apenas a defesa militar mas toda a tarefa de organizar, povoar e desenvolver economicamente regiões inteiras. As Ordens, por sua vez, beneficiavam de vastos domínios territoriais que lhes forneciam as receitas necessárias para manter os seus exércitos e fortificações.
No estuário do Tejo, então a fronteira sul do reino, Sancho I concedeu forais a localidades como Almada em 1190, criando uma rede de comunidades que estabilizavam esta fronteira crítica e que, crucialmente, podiam fornecer bases e recursos para futuras expedições mais para sul quando a oportunidade surgisse.
Visão Cosmopolita: Atrair Imigrantes Para Acelerar o Desenvolvimento
Um aspecto particularmente inovador da política de Sancho I, e que demonstra uma visão notavelmente cosmopolita para a época, foi o seu esforço activo para atrair colonos estrangeiros. O rei procurou especificamente imigrantes da Flandres e da Borgonha, regiões do norte da Europa conhecidas pela sua perícia em agricultura intensiva, técnicas de drenagem de terras alagadas, e habilidades comerciais. Estes colonos traziam consigo não apenas mais corpos para povoar o reino mas conhecimento técnico, práticas agrícolas avançadas e conexões comerciais internacionais que beneficiariam enormemente a economia portuguesa.
Esta política de imigração dirigida revela que Sancho I compreendia algo fundamental sobre o desenvolvimento económico: não é apenas uma questão de números de pessoas mas também de competências e conhecimentos que essas pessoas trazem. Um agricultor flamengo que conhecia técnicas avançadas de rotação de culturas ou de gestão de gado podia ensinar essas técnicas aos portugueses locais, multiplicando o impacto da sua presença muito além da sua própria produção individual. Um comerciante borgonhês com conexões às redes comerciais internacionais podia integrar Portugal nesses circuitos de comércio de longa distância, trazendo riqueza que de outra forma nunca chegaria ao reino.
Sancho I também acumulou um tesouro real substancial e incentivou activamente a criação de indústrias e o fortalecimento de uma classe média de comerciantes e mercadores. Compreendeu que a fixação permanente da população dependia fundamentalmente da viabilidade económica das comunidades. As pessoas podiam ser atraídas por privilégios fiscais e promessas de terras, mas só permaneceriam se conseguissem realmente ganhar a vida, alimentar as suas famílias, e até prosperar economicamente. Um concelho que oferecia apenas subsistência precária eventualmente seria abandonado na primeira oportunidade, mas um concelho com mercados activos, artesãos qualificados, e oportunidades de mobilidade social ascendente tornava-se uma comunidade genuína com raízes profundas e lealdade duradoura.
O Guerreiro Que Nunca Deixou de Ser: Silves e as Ambições do Sul
Seria errado pensar em Sancho I apenas como um administrador paciente focado exclusivamente em questões de povoamento e organização interna. Permaneceu um guerreiro capaz e ambicioso, como demonstrou espectacularmente com a conquista de Silves em 1189. Silves era nessa altura uma das cidades mais ricas e mais formidavelmente fortificadas de todo o sul da Península Ibérica, o coração cultural e económico do Gharb al-Andalus. A sua conquista exigiu a colaboração com cruzados que passavam pela costa portuguesa a caminho da Terra Santa, ecoando a estratégia que o seu pai tinha usado em Lisboa décadas antes. O cerco foi longo e custoso, mas eventualmente a cidade caiu, numa vitória que parecia coroar as ambições portuguesas de expansão para sul.
Contudo, Silves foi perdida novamente para os muçulmanos poucos anos depois, uma reversão que deve ter sido amarga para Sancho I. Mas mesmo esta derrota temporária serviu propósitos estratégicos importantes. A ocupação, ainda que breve, desorganizou profundamente as defesas muçulmanas na região, demonstrou que nenhuma cidade do Gharb estava verdadeiramente segura do poder português, e preparou psicológica e logisticamente o caminho para a conquista definitiva do Algarve que viria décadas mais tarde sob os seus sucessores.
O Legado Duradouro: Construir a Estrada Que o Pai Tinha Aberto
Quando D. Sancho I morreu em 1211, após vinte e seis anos de reinado, deixou um reino transformado de formas que eram menos visivelmente dramáticas do que as conquistas militares do seu pai mas que eram, em última análise, mais fundamentais para a sobrevivência a longo prazo de Portugal. O território não era apenas maior mas estava efectivamente povoado por comunidades organizadas que tinham raízes no solo e lealdade à coroa. A administração tinha sido transformada de uma estrutura improvisada e ad hoc numa rede sistemática de concelhos com direitos, obrigações e procedimentos claramente definidos. As bases económicas tinham sido lançadas para transformar Portugal de um reino guerreiro pobre numa nação economicamente viável com comércio, agricultura produtiva e indústrias nascentes.
O seu foco no municipalismo, no poder local das vilas e cidades organizadas através de forais, tornou-se um dos traços mais profundos e duradouros da identidade política portuguesa. Provou algo que muitos governantes ao longo da história falharam em compreender: a força verdadeira de um país não reside apenas nas espadas dos seus cavaleiros ou na astúcia dos seus diplomatas, mas fundamentalmente na vontade das pessoas comuns que cultivam a terra, criam os seus filhos, constroem as suas casas e chamam a esse território o seu lar. Estas são as pessoas que, quando o momento de perigo chega, pegam em armas não porque são ordenadas mas porque estão a defender o que é genuinamente deles. D. Sancho I, O Povoador, compreendeu esta verdade e dedicou o seu reinado a criar as condições que transformaram súbditos relutantes em cidadãos comprometidos, e foi esta transformação silenciosa e paciente, mais do que qualquer batalha, que garantiu que Portugal não seria apenas uma criação temporária mas uma nação duradoura.
D. Afonso III e o Reino do Algarve
1249: O Ano em Que Portugal Alcançou a Sua Forma Definitiva
Existe um momento na vida de qualquer nação em que a sua geografia deixa de ser uma questão aberta, em constante mudança através de guerras e negociações, e se torna algo fixo e permanente que define a identidade nacional para os séculos que se seguem. Para Portugal, esse momento chegou em 1249, quando as forças comandadas por D. Afonso III tomaram a cidade de Faro e os últimos redutos muçulmanos no Algarve, encerrando finalmente um processo que tinha começado mais de cinco séculos antes nas montanhas das Astúrias. Para compreendermos verdadeiramente o significado desta conquista final, precisamos de entender não apenas os eventos militares do ano de 1249, mas também o contexto político complexo que a precedeu, a forma como foi alcançada através de uma colaboração cuidadosa entre a Coroa e as Ordens Militares, e as consequências diplomáticas inesperadas que quase transformaram uma vitória militar numa crise internacional. Esta é a história de como Portugal se tornou o primeiro reino da Península Ibérica a completar a sua Reconquista, estabelecendo fronteiras que, com pequenas exceções, perduram até aos dias de hoje.
O Rei que Chegou do Exílio e Precisava de Uma Vitória Legitimadora
Antes de explorarmos a conquista do Algarve propriamente dita, precisamos de compreender a posição peculiar e delicada de D. Afonso III quando assumiu o trono. Afonso não era o herdeiro natural. Esse papel pertencia ao seu irmão mais velho, D. Sancho II, que tinha herdado o reino do pai, D. Afonso II. Contudo, o reinado de Sancho II tinha sido desastroso em múltiplos aspectos. O rei envolveu-se em conflitos constantes com o clero português, que se queixou repetidamente ao Papa sobre o que viam como usurpações dos direitos e propriedades da Igreja. A nobreza também estava profundamente insatisfeita com o que percebiam como fraqueza e incapacidade do rei em governar eficazmente. A situação deteriorou-se tanto que o Papa Inocêncio IV tomou a medida extraordinária de declarar Sancho II incapaz de governar e de autorizar o seu irmão mais novo, Afonso, que vivia no estrangeiro após ter casado com a Condessa de Bolonha, a regressar a Portugal e assumir o governo do reino.
O que se seguiu foi essencialmente uma guerra civil, embora velada. D. Afonso, conhecido como "o Bolonhês" devido ao seu casamento e à sua longa residência em Bolonha, regressou a Portugal em 1246 e foi progressivamente assumindo o controlo do reino, apoiado pela Igreja e por grande parte da nobreza que tinha abandonado Sancho II. O irmão deposto refugiou-se em Toledo, onde morreu em 1248, permitindo finalmente que Afonso III se tornasse rei sem ambiguidade. Contudo, a forma como tinha chegado ao trono deixava uma mancha na sua legitimidade. Tinha essencialmente usurpado o trono do seu próprio irmão, mesmo que com autorização papal e apoio nobiliárquico. Para um monarca medieval, cuja autoridade dependia fundamentalmente de conceitos de legitimidade dinástica e direito hereditário, esta origem manchada era profundamente problemática.
Afonso III precisava desesperadamente de algo que unisse o reino em torno da sua liderança, que demonstrasse que o seu reinado traria benefícios tangíveis que justificariam a forma irregular como tinha alcançado o poder. A situação geopolítica ofereceu-lhe precisamente a oportunidade que necessitava. O poder almóada, aquela formidável dinastia berbere que tinha dominado o Al-Andalus durante décadas, estava em colapso terminal. A sua derrota catastrófica na Batalha de Las Navas de Tolosa em 1212 perante uma coligação de reinos cristãos tinha quebrado irreversivelmente o seu poder militar. Nas décadas que se seguiram, o Al-Andalus fragmentou-se novamente em reinos de taifas pequenos e fracos, constantemente em conflito uns com os outros e incapazes de apresentar resistência coordenada à pressão cristã que vinha do norte. O Algarve, a última região de Portugal ainda sob domínio muçulmano, estava particularmente vulnerável. Concluir a Reconquista portuguesa apresentava-se como a oportunidade perfeita para Afonso III legitimar o seu reinado através de uma vitória militar espetacular que ampliaria o reino e unificaria a nobreza em torno de um objetivo comum.
A Campanha de 1249: Quando a Preparação Cuidadosa Encontrou a Oportunidade
Na primavera de 1249, D. Afonso III lançou a expedição final para sul, atravessando a serra algarvia com um exército que representava um esforço conjunto de múltiplas forças. Esta não foi uma aventura improvisada ou oportunista, mas o culminar de anos de preparação cuidadosa e de conquistas graduais que tinham isolado progressivamente os últimos redutos muçulmanos. O apoio das Ordens Militares foi absolutamente crucial. A Ordem de Santiago, liderada pelo célebre Paio Peres Correia, um dos comandantes militares mais capazes e experientes da península, tinha estado a pressionar sistematicamente os muçulmanos no Algarve durante toda a década de 1240. A Ordem de Avis também contribuiu com forças substanciais. Estas ordens não estavam simplesmente a obedecer a ordens régias, mas tinham os seus próprios interesses profundos na conquista, pois esperavam receber vastos domínios territoriais no Algarve como recompensa pela sua participação.
O principal objetivo da campanha era Faro, a antiga Ossonoba romana que tinha florescido sob domínio islâmico como Shantamariyyat al-Gharb. Faro era o centro urbano mais importante que restava sob controlo muçulmano, um porto próspero com conexões comerciais que se estendiam pelo Mediterrâneo e até ao Norte de África. A sua conquista não seria apenas simbólica mas eliminaria o último núcleo significativo de resistência organizada na região. D. Afonso III montou o cerco à cidade em março de 1249, demonstrando imediatamente que tinha aprendido as lições de cercos anteriores como o de Lisboa um século antes. A operação combinou um bloqueio terrestre rigoroso com o apoio de uma frota naval que bloqueou o porto. Este bloqueio marítimo era absolutamente crucial porque impedia que a cidade recebesse reforços ou abastecimentos vindos do Norte de África. Sem a possibilidade de ajuda externa, os defensores de Faro enfrentavam uma escolha simples mas terrível: resistir até à exaustão completa dos seus recursos e enfrentar um assalto final que resultaria quase certamente num massacre, ou negociar uma rendição em termos favoráveis enquanto ainda tinham alguma capacidade de barganha.
O alcaide de Faro, um homem chamado Alboambre pelas fontes cristãs, percebeu que a situação era insustentável. Confrontado com a superioridade militar cristã evidente e sem perspectiva realista de reforços, optou pela negociação em vez da resistência suicida. Esta decisão salvou inúmeras vidas em ambos os lados e permitiu uma transição relativamente ordeira do poder. A cidade foi formalmente entregue ao monarca português, com garantias aos habitantes muçulmanos de que não seriam massacrados ou forçados à conversão imediata, um estatuto relativamente favorável considerando os padrões da guerra medieval. Esta rendição negociada estabeleceu um precedente importante para as restantes localidades muçulmanas da região. Imediatamente após a queda de Faro, Loulé, Porches, Albufeira e Aljezur renderam-se sem resistência significativa, reconhecendo que a continuação da luta era fútil agora que o principal centro de resistência tinha caído.
O Trabalho Paciente das Ordens Militares: A Década que Preparou 1249
Contudo, seria profundamente enganador apresentar a conquista do Algarve como obra exclusiva da campanha de 1249. A verdade é que esta campanha foi apenas o golpe final num processo gradual que tinha estado a desenrolar-se durante toda a década anterior, impulsionado fundamentalmente pelas Ordens Militares operando com considerável autonomia. Tavira, frequentemente mencionada no contexto da conquista final do Algarve, tinha na realidade sido conquistada por volta de 1242, numa operação liderada por Paio Peres Correia e pela Ordem de Santiago. Esta conquista tinha ocorrido tecnicamente durante o reinado do enfraquecido D. Sancho II, mas num período em que o poder régio estava tão debilitado pela crise que conduziria à sua deposição que as Ordens Militares operavam essencialmente de forma independente, conduzindo as suas próprias campanhas e estabelecendo o seu próprio controlo sobre territórios conquistados.
Esta fase de conquista conduzida pelas Ordens criou uma situação interessante e potencialmente problemática. Vastas extensões do Algarve estavam sob controlo cristão, mas esse controlo era exercido pelas Ordens Militares e não diretamente pela Coroa. Parte do significado da campanha de 1249 foi precisamente consolidar estas conquistas dispersas e fragmentadas sob autoridade régia unificada, eliminando os últimos enclaves independentes e integrando todo o território conquistado numa estrutura administrativa coerente sob o comando direto do rei. Afonso III estava, em certo sentido, a afirmar autoridade real sobre conquistas que outros tinham realizado, transformando uma colcha de retalhos de domínios militares em território real propriamente dito.
Conflitos de Fronteira com Castela: A disputa pela posse do Algarve e o posterior Tratado de Badajoz
A Crise Diplomática Inesperada: Quando Castela Reclamou o Algarve
A conquista militar do Algarve em 1249 parecia ter encerrado a questão da Reconquista portuguesa, mas surpreendentemente desencadeou uma crise diplomática grave que ameaçou transformar a vitória em desastre. O problema vinha de uma direção inesperada: Castela. Afonso X de Castela, conhecido como "o Sábio" pela sua erudição e patronagem cultural mas não necessariamente pela sua sabedoria política, avançou com uma reivindicação extraordinária sobre o Algarve. O seu argumento baseava-se numa subtileza do direito feudal: o último rei da taifa de Niebla, que mantinha uma autoridade nominal sobre o Algarve muçulmano, tinha-se declarado vassalo de Castela antes da conquista portuguesa. Segundo a lógica feudal de Afonso X, quando Portugal conquistou o Algarve, estava a conquistar território que pertencia a um vassalo castelhano e portanto estava tecnicamente sob suserania castelhana.
Esta reivindicação era obviamente absurda do ponto de vista português. As forças portuguesas tinham conquistado o Algarve com o seu próprio sangue e tesouro, sem qualquer participação castelhana. A alegada vassalagem de um rei muçulmano derrotado a Castela não podia possivelmente transferir soberania sobre território conquistado por Portugal. Contudo, no complicado mundo da diplomacia medieval, argumentos legais aparentemente absurdos podiam ter consequências políticas muito reais. Afonso X era rei de um reino muito mais poderoso do que Portugal, e a sua reivindicação, se persistisse, podia resultar em guerra ou, no mínimo, numa crise diplomática prolongada que minaria a posição internacional de Portugal.
A resposta imediata de D. Afonso III foi simultaneamente defensiva e assertiva. Para deixar absolutamente claro que Portugal considerava o Algarve como território plenamente português e não como algum tipo de conquista ambígua cuja soberania estava em disputa, começou a usar uma intitulação nova e deliberadamente enfática: não apenas "Rei de Portugal" mas "Rei de Portugal e do Algarve". Esta formulação dual sublinhava que o Algarve era uma entidade distinta cuja posse pelo rei português era suficientemente importante para merecer menção explícita no título real. Era uma declaração política clara de que o Algarve era português e que qualquer contestação desta realidade seria confrontada.
O Tratado de Badajoz: Quando a Diplomacia Confirmou a Conquista Militar
A disputa entre Portugal e Castela sobre o Algarve arrastou-se penosamente durante quase duas décadas, envolvendo não apenas negociações bilaterais mas também apelos ao Papa como árbitro supremo da cristandade. A situação era profundamente frustrante para Portugal porque, no terreno, o Algarve estava indiscutivelmente sob controlo português, mas diplomaticamente a questão permanecia oficialmente não resolvida. A resolução definitiva chegou finalmente em 1267 com a assinatura do Tratado de Badajoz, um acordo que demonstrou tanto a persistência diplomática portuguesa quanto a disposição eventual de Castela em aceitar a realidade no terreno.
No tratado, Afonso X de Castela renunciou formalmente aos seus direitos alegados sobre o Algarve. Contudo, a solução encontrada tinha um elemento engenhoso que permitia ao rei castelhano salvar a face. A renúncia foi feita em favor do neto de Afonso X, que era o príncipe D. Dinis, filho de Afonso III e da segunda esposa deste, Beatriz de Castela, que era precisamente filha de Afonso X. Assim, tecnicamente, o Algarve permaneceria "na família" castelhana através desta linha feminina, mesmo estando sob soberania portuguesa. Era o tipo de compromisso criativo que a diplomacia medieval frequentemente produzia, permitindo que ambas as partes declarassem alguma forma de vitória enquanto a substância favorecia claramente uma delas.
Mais importante do que estes detalhes dinásticos era a definição clara da fronteira entre Portugal e Castela ao longo do rio Guadiana. Esta demarcação territorial não era apenas uma linha no mapa mas uma declaração de que Portugal tinha alcançado a sua forma geográfica definitiva. Com o Tratado de Badajoz, Portugal tornou-se o primeiro reino da Península Ibérica a concluir completamente a sua Reconquista e a definir as suas fronteiras continentais de forma permanente. Enquanto Castela e Aragão continuariam a lutar durante mais dois séculos e meio até à queda de Granada em 1492, Portugal tinha alcançado a estabilidade territorial que lhe permitiria dirigir as suas energias e recursos noutras direções.
Esta estabilidade de fronteiras que foi estabelecida em 1267 revelou-se extraordinariamente duradoura. Salvo pequenos ajustes posteriores e a perda contestada de Olivença para Espanha no início do século XIX, as fronteiras continentais de Portugal permaneceram essencialmente inalteradas durante mais de sete séculos e meio. Esta é uma estabilidade territorial quase sem paralelo na história europeia, onde a maioria das fronteiras foram repetidamente redesenhadas através de guerras, tratados e mudanças dinásticas. O facto de Portugal ter mantido fronteiras tão estáveis por tanto tempo é em si mesmo notável e permitiu o desenvolvimento de uma identidade nacional excepcionalmente forte e coerente. Quando os portugueses olhavam para o seu território, viam não algo temporário que podia ser perdido na próxima guerra, mas algo permanente que definia quem eram. Esta certeza geográfica, estabelecida definitivamente em 1249 e confirmada diplomaticamente em 1267, seria fundamental para permitir que Portugal se lançasse com confiança na extraordinária aventura dos Descobrimentos que transformaria uma pequena nação periférica num império global.

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