Paisagens e Cidades históricas de Portugal

Aveiro

Aveiro: Um Legado de Fé, Sal e Mar


Aveiro, frequentemente apelidada de "Veneza de Portugal", é muito mais do que um conjunto pitoresco de canais e coloridos barcos moliceiros. A sua história é uma tapeçaria complexa, tecida entre a devoção real, a ambição marítima e uma luta implacável contra as areias movediças da costa atlântica.

A Santa no Convento: Ligações Reais e Religiosas

O coração espiritual de Aveiro reside no Mosteiro de Jesus. A identidade da cidade foi para sempre alterada em 1472, quando a Princesa Santa Joana, filha do Rei D. Afonso V, abandonou os esplendores da corte para ingressar na vida religiosa em Aveiro.

Ao escolher uma vida de humildade em vez de um casamento real estratégico, Joana viveu na cidade até à sua morte em 1490. A sua presença elevou o estatuto de Aveiro, atraindo a atenção da monarquia e transformando a região num local de peregrinação. Muito antes da sua beatificação oficial em 1693, a população já a venerava como santa. Hoje, o seu túmulo — uma obra-prima da talha de mármore barroca — é um dos monumentos mais belos de Portugal, preservado no atual Museu de Aveiro.

Mestres da "Terra Nova": O Poderio Marítimo

O pulsar económico de Aveiro esteve historicamente sincronizado com as marés do Atlântico. Durante a Era dos Descobrimentos e nos séculos seguintes, a cidade afirmou-se como uma potência na pesca do bacalhau.

A Ria de Aveiro serviu de base para grandes frotas que partiam rumo aos bancos da Terra Nova (Terranova). No seu apogeu, o porto era um centro de atividade frenética, com registos históricos que indicam anos em que cerca de 60 navios partiam apenas de Aveiro para as campanhas do bacalhau. Este sucesso marítimo foi potenciado pela geografia única da foz do Rio Vouga, que facilitava o comércio e a produção do "ouro branco" — o sal, essencial para a conservação do peixe.

Um Litoral em Mutação: Desafios e Evolução Geográfica

A mesma geografia que trouxe riqueza a Aveiro também lhe impôs os seus maiores desafios. A história da região é marcada por uma profunda instabilidade geológica. Ao longo dos séculos, a foz do Rio Vouga sofria constantes processos de assoreamento, criando uma barra de areia móvel que frequentemente impedia o acesso ao mar.

Esta mutação da linha costeira teve consequências drásticas:

  • Estagnação Económica: Sem uma saída livre para o oceano, as frotas ficavam retidas e o comércio morria.

  • Impacto Ambiental: Em zonas próximas como Ovar, o fecho da barra provocou a subida das águas, destruindo marinhas de sal e terras agrícolas.

  • Emigração em Massa: A perda de meios de subsistência forçou uma vaga massiva de emigração para o Brasil durante os séculos XVIII e XIX.

Apenas no início do século XIX, com a abertura artificial e definitiva da Barra, é que a região conseguiu estabilizar a sua ligação ao mar e recuperar a sua alma marítima.

Poder e Política: O Centro Administrativo

Para além das suas águas, Aveiro desempenhou um papel fundamental na organização política de Portugal. No século XIX, a cidade afirmou-se como um importante polo administrativo. Manuel Fernandes Tomás, o "Patriarca da Liberdade" e figura central da Revolução Liberal de 1820, foi superintendente das Alfândegas dos distritos de Aveiro, Coimbra e Leiria, o que demonstra a relevância logística da cidade.

No entanto, a história política local também conheceu episódios sombrios. O título de Duque de Aveiro pertenceu a uma das casas nobres mais poderosas do reino, mas a família teve um fim trágico no século XVIII. Implicados na conspiração contra o Rei D. José I (o célebre Processo dos Távoras), os Duques de Aveiro foram despojados de bens e executados em Belém, num dos momentos mais dramáticos da história jurídica portuguesa.

Cronologia da Ria e da Linha de Costa

Aqui tem uma cronologia focada na evolução geográfica e nas transformações da Ria de Aveiro, destacando os momentos em que a natureza e a engenharia humana moldaram o destino da região:

Cronologia da Ria e da Linha de Costa

  • Século X - XI: Aveiro começa a ganhar relevância, mas a costa é muito diferente. O mar entrava muito mais pelo interior, e a cidade era praticamente um porto de mar direto.

  • Séculos XIV - XV: Inicia-se a formação progressiva de um cordão de areia (restinga) de norte para sul. É a época de ouro de Aveiro, com o porto aberto e as frotas a partirem para a Terra Nova.

  • 1575: A Grande Tempestade. Uma tempestade catastrófica acelera o assoreamento da foz do Vouga. A comunicação com o mar torna-se difícil, as águas estagnam e a cidade começa a sofrer de insalubridade e declínio económico.

  • Século XVII: O cordão de areia fecha-se quase completamente. A "Barra" torna-se móvel, deslocando-se para sul em direção a Mira. A navegação torna-se perigosa e quase impossível para grandes navios.

  • 1750 - 1800: O período mais crítico. O fecho da barra causa inundações em Ovar e transforma a Ria num pântano de águas paradas. A malária propaga-se e a população de Aveiro diminui drasticamente devido à fome e à emigração para o Brasil.

  • 1802: O engenheiro militar Reinaldo Oudinot inicia os estudos para a abertura de um canal artificial.

  • 3 de Abril de 1808: O Renascimento. Após várias tentativas falhadas e com a ajuda de uma forte tempestade que rompeu a areia, a nova Barra (no local atual) é finalmente aberta com sucesso.

  • 1920 - 1930: Construção e reforço dos molhes de pedra modernos para garantir que a barra não voltasse a fechar, permitindo a entrada de navios de grande calado.

  • 1987: Criação da Reserva Natural das Dunas de São Jacinto, protegendo o ecossistema que resultou de séculos de sedimentação e separação entre a Ria e o Mar.

Curiosidade: O impacto em Ovar

Sabia que, antes do fecho da barra no século XVIII, Ovar era um porto extremamente ativo? Foi precisamente a subida das águas (devido à impossibilidade do Rio Vouga desaguar no mar) que destruiu as suas famosas salinas, mudando para sempre a economia daquela cidade vizinha.

Pilares Históricos

1. Fé e Realeza: O Mosteiro de Jesus

Aveiro transformou-se num centro de prestígio quando a Princesa Santa Joana escolheu a humildade monástica em vez das alianças dinásticas. O seu túmulo em mármore é um dos expoentes do barroco nacional e consolidou a cidade como um marco de peregrinação e influência real.

2. O Mar e o "Ouro Branco"

A economia aveirense foi o motor do centro do país durante séculos:

  • Bacalhau: Frotas de mais de 60 navios partiam para a Terra Nova, alimentando o reino e criando uma classe de mestres mareantes.

  • Salinas: O sal de Aveiro era o conservante essencial para as pescarias e um dos principais produtos de exportação para o norte da Europa.

3. A Luta contra a Natureza: A Barra

O assoreamento da foz do Vouga quase ditou o fim da cidade entre 1575 e 1808. O fecho da barra transformou a Ria num pântano insalubre, causando:

  • Crise de Ovar: A subida das águas destruiu terras agrícolas e marinhas de sal.

  • Emigração: A fome forçou a população a procurar refúgio no Brasil.

  • Engenharia: O "Renascimento" deu-se a 3 de abril de 1808, com a abertura do canal artificial que salvou a economia da região.

4. Sombras Políticas: O Processo dos Távoras

A história de Aveiro está também ligada ao Processo dos Távoras. O Ducado de Aveiro, um dos mais poderosos de Portugal, foi exterminado pelo Marquês de Pombal após o atentado contra D. José I, deixando um vácuo de poder na região.

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