Historia de Portugal

A Expansão para Sul: O Nascimento do Reino

Ourique: Quando uma Batalha Se Transformou no Mito Fundador de uma Nação

Existe uma diferença profunda entre os factos históricos que podemos documentar e os mitos que as nações constroem para dar sentido à sua existência. A Batalha de Ourique, travada em 25 de julho de 1139, encontra-se precisamente nessa fronteira fascinante onde a história militar se funde com a narrativa sagrada, onde uma vitória de um príncipe ambicioso se transforma numa missão divina para um povo escolhido. Para compreendermos verdadeiramente o significado de Ourique, precisamos de explorar tanto o que provavelmente aconteceu naquele dia quente de verão no Alentejo quanto, talvez mais importante ainda, o que gerações de portugueses acreditaram ter acontecido e como essa crença moldou a identidade nacional durante séculos.

O Fossado Audacioso: Quando a Ambição Encontrou a Oportunidade

Para entendermos o contexto militar de Ourique, precisamos primeiro de compreender o que era um "fossado" na terminologia militar medieval ibérica. Tratava-se de uma incursão ofensiva profunda em território inimigo, uma expedição de saque e pilhagem que tinha múltiplos objetivos estratégicos. Por um lado, permitia obter despojos valiosos, gado, prisioneiros para resgate, bens que enriqueciam quem participava na expedição. Por outro lado, demonstrava força militar, desmoralizava o inimigo ao mostrar que não conseguia proteger as suas próprias terras, e estabelecia domínio psicológico sobre um território mesmo sem o ocupar permanentemente.

Em 1139, D. Afonso Henriques, que governava o Condado Portucalense desde a sua vitória sobre a mãe em São Mamede onze anos antes, decidiu lançar um fossado particularmente audacioso. Penetrou profundamente no Baixo Alentejo, violando as fronteiras tradicionais que separavam os territórios cristãos e muçulmanos. O momento tinha sido escolhido com cuidado estratégico. As forças almorávidas, que controlavam grande parte do Al-Andalus incluindo o Gharb, estavam distraídas com conflitos noutras partes da península. O seu primo Afonso VII de Leão estava a cercar Oreja, o que desviava atenção e recursos militares muçulmanos para aquela região. Esta janela de oportunidade permitiu a Afonso Henriques avançar mais para sul do que seria normalmente prudente ou possível.

A expedição parece ter sido inicialmente bem-sucedida. As tropas portuguesas saquearam a região, acumularam despojos consideráveis e preparavam-se para regressar ao norte quando foram interceptadas por uma força militar muçulmana substancial. Esta força era comandada por um líder que as crónicas identificam como "Esmar", que os historiadores modernos acreditam ser Muhammad Zubayr Ibn Umar, o governador de Córdova. Mais importante ainda, este comandante tinha conseguido reunir contingentes de várias cidades importantes do Gharb, incluindo guarnições de Badajoz, Elvas, Évora, Beja e Sevilha. A desproporção de forças era significativa, com as tropas cristãas provavelmente em clara inferioridade numérica.

Contudo, aqui entra um fator que frequentemente decidia batalhas medievais: a composição e qualidade das tropas. A força de Afonso Henriques era composta principalmente de cavalaria pesada, cavaleiros bem armados e treinados que formavam a elite militar da época. A força muçulmana, embora maior, era provavelmente mais heterogénea, incluindo muitas tropas de infantaria ligeira berbere. Quando as duas forças se encontraram, a carga concentrada da cavalaria pesada portuguesa conseguiu desbaratar as formações inimigas, transformando o que poderia ter sido uma derrota desastrosa numa vitória retumbante. Foi esta vitória inesperada, conquistada contra probabilidades aparentemente desfavoráveis, que criou as condições perfeitas para a construção de uma narrativa mítica.

A Aclamação Real: Quando um Conde Se Tornou Rei

O resultado político imediato da batalha foi de importância histórica incalculável. No próprio campo de batalha, ou imediatamente após a vitória, D. Afonso Henriques foi aclamado rei pelas suas tropas. Este gesto evocava as antigas tradições germânicas onde os guerreiros elevavam o seu líder sobre um escudo como símbolo de reconhecimento da sua autoridade. Não era tecnicamente legal segundo a ordem feudal vigente, pois Afonso Henriques era vassalo do rei de Leão e não tinha autoridade para assumir um título real sem o consentimento do seu senhor. Mas naquele momento, com o sangue ainda fresco nos campos do Alentejo, com a euforia da vitória impossível, essas considerações legais pareciam irrelevantes aos guerreiros que tinham acabado de sobreviver a um combate desesperado.

A tradição historiográfica que se desenvolveu posteriormente fixou a ideia de que Afonso Henriques tinha derrotado cinco reis mouros em Ourique. Os historiadores modernos são céticos quanto a este número específico, suspeitando que pode ter sido uma elaboração posterior para explicar elementos da heráldica portuguesa. Contudo, independentemente da verdade factual, este número tornou-se central para a identidade simbólica de Portugal. As cinco quinas, os cinco escudetes azuis dispostos em cruz que formam o coração do brasão português, passaram a representar os cinco reis vencidos. Dentro de cada escudete, foram posteriormente inseridos besantes, pequenos círculos que segundo a interpretação religiosa representariam as cinco chagas de Cristo ou, noutra interpretação, os trinta dinheiros pelos quais Jesus foi vendido por Judas.

A partir de 1140, apenas um ano após Ourique, a chancelaria de Afonso Henriques começou a utilizar a intitulação "Rex Portugallensis", Rei dos Portugueses. Esta era uma declaração audaciosa de independência que rompia formalmente os laços de vassalagem com Afonso VII de Leão e Castela. O seu primo não tinha escolha senão responder a este desafio, e as relações entre os dois primos oscilaram entre conflito militar e negociação diplomática durante os anos seguintes, até que finalmente alcançaram um acordo no Tratado de Zamora em 1143, onde Afonso VII reconheceu o estatuto real do seu primo português.

O Milagre: Quando o Divino Validou o Terreno

Se a batalha de Ourique garantiu a independência de facto de Portugal, foi a narrativa do Milagre de Ourique que garantiu a sua legitimidade sagrada. Aqui precisamos de fazer uma distinção importante entre o que aconteceu em 1139 e como esse acontecimento foi narrado e elaborado nas décadas e séculos seguintes. As narrativas mais detalhadas e dramáticas do milagre aparecem em crónicas dos séculos XV e XVI, escritas por cronistas como Duarte Galvão e Frei António Brandão, centenas de anos após os eventos que descrevem. Isto não significa necessariamente que inventaram tudo do nada, mas sugere que a história foi sendo enriquecida, elaborada e dramatizada ao longo do tempo, incorporando elementos que serviam as necessidades políticas e ideológicas de cada época.

A narrativa do milagre, na sua forma mais desenvolvida, desenrola-se como um drama sagrado cuidadosamente estruturado. Na véspera da batalha, D. Afonso Henriques encontrava-se angustiado e receoso devido à enorme superioridade numérica do inimigo. Um eremita que vivia perto do local apareceu-lhe com uma profecia de vitória e instruiu-o para sair da sua tenda quando ouvisse a campainha da ermida. Na madrugada do dia 25 de julho, dia de São Tiago, o santo padroeiro da Reconquista, Afonso Henriques obedeceu à instrução. Ao sair, viu no céu um raio de luz resplandecente e, no meio dele, Jesus Cristo crucificado, rodeado por anjos em toda a sua glória celestial.

Cristo teria então falado diretamente ao príncipe, prometendo-lhe não apenas a vitória naquela batalha específica, mas algo muito maior: a fundação de um reino que serviria como instrumento para a dilatação da fé cristã. A frase latina associada a este momento, "Volo in te et in semine tuo imperium mihi stabilire", que significa "Quero em ti e na tua descendência estabelecer o meu império", selou um pacto direto entre Deus e Portugal. Este era um conceito teológico e político extraordinariamente poderoso. Significava que a autoridade de Afonso Henriques não derivava do rei de Leão, nem mesmo do Papa enquanto vigário de Cristo na terra, mas diretamente do próprio Cristo. Portugal tornava-se, segundo esta narrativa, um reino de fundação divina, com uma missão sagrada que transcendia as disputas políticas seculares da península.

O Poder Político de um Mito Sagrado

Para compreendermos verdadeiramente o impacto de Ourique, precisamos de entender como este mito funcionou enquanto ferramenta política e ideológica. Quando Afonso Henriques procurou o reconhecimento papal para o seu novo reino, a narrativa de intervenção divina foi crucial. Ao alegar que Cristo tinha aparecido pessoalmente para legitimar a sua causa, Afonso colocava a sua autoridade sob proteção divina imediata. Isto foi particularmente importante na sua estratégia de se tornar vassalo direto da Santa Sé, contornando completamente a suserania leonesa. Se Deus tinha escolhido Portugal para uma missão especial, quem eram os reis terrenos para contradizer essa escolha?

A longa negociação que culminou na Bula Manifestis Probatum de 1179, através da qual o Papa Alexandre III reconheceu formalmente Portugal como reino independente e Afonso Henriques como seu rei legítimo, foi grandemente facilitada por esta narrativa de fundação divina. Roma podia entender e aceitar a ideia de um reino com uma missão sagrada especial, particularmente num momento em que o movimento das Cruzadas tinha tornado central a ideia de guerra santa contra os muçulmanos.

Mas o impacto do mito de Ourique estendeu-se muito para além das negociações diplomáticas do século XII. Cimentou na consciência portuguesa a ideia de um destino messiânico, a noção de que Portugal não era apenas mais um reino europeu entre muitos, mas tinha um papel especial, quase providencial, na história da cristandade. Esta ideologia perdurou durante séculos, alimentando o Sebastianismo após o desaparecimento de D. Sebastião em Alcácer Quibir, sustentando ideologicamente a Restauração da Independência em 1640 quando Portugal se libertou do domínio espanhol, e inspirando as visões do Padre António Vieira sobre o Quinto Império, um império universal português que seria o culminar da história humana.

Mesmo os símbolos nacionais mais imediatos foram sacralizados por Ourique. A bandeira e o escudo de Portugal tornaram-se verdadeiramente hagiográficos, ou seja, objetos sagrados que contavam uma história religiosa. As quinas e os besantes não eram apenas elementos decorativos de heráldica, mas representações das chagas de Cristo e dos reis vencidos através de intervenção divina. Cada vez que um português olhava para a sua bandeira, estava a ser lembrado de que a sua nação tinha sido fundada por vontade de Deus.

Os historiadores modernos, começando com Alexandre Herculano no século XIX, questionaram sistematicamente tanto a escala militar da batalha quanto o caráter sobrenatural do milagre. Herculano, aplicando os métodos críticos da historiografia moderna, tratou o milagre como uma construção posterior, uma elaboração mítica criada para reforçar a identidade nacional e legitimar a monarquia. A sua análise crítica provocou na altura uma controvérsia enorme, sendo acusado de falta de patriotismo por questionar o mito fundador nacional. Contudo, para a cultura portuguesa ao longo dos séculos, independentemente das verdades factuais que os historiadores possam ou não estabelecer, Ourique permanece como aquilo que um historiador chamou de "Basílica dos Mitos", o momento espiritual em que o destino de Portugal foi traçado não apenas geograficamente dentro da península, mas como uma missão que se estenderia muito para além das fronteiras da Europa, através dos descobrimentos e do império que viria a ser construído nos séculos seguintes.

Assim, quando falamos de Ourique, não estamos apenas a discutir uma batalha medieval num canto remoto do Alentejo. Estamos a examinar como as nações constroem as narrativas que dão sentido à sua existência, como eventos militares são transformados em mitos sagrados, e como esses mitos, independentemente da sua veracidade factual, adquirem um poder real para moldar identidades, justificar políticas e inspirar ações ao longo de séculos. Ourique é o momento em que Portugal deixou de ser apenas um facto político para se tornar também uma ideia, uma missão, um destino. E são as ideias, mais do que os exércitos, que verdadeiramente fundam e sustentam as nações ao longo do tempo.

A Conquista de Santarém e Lisboa (1147): O Ano Decisivo da Reconquista Portuguesa 

Existe um momento na vida de qualquer nação emergente em que deixa de ser uma possibilidade frágil para se tornar uma realidade consolidada, quando a sua viabilidade deixa de ser questionável e passa a ser evidente para todos os observadores. Para Portugal, esse momento chegou em 1147, oito anos após a aclamação de Afonso Henriques como rei em Ourique. Foi neste ano extraordinário que o jovem reino conseguiu algo que transformou completamente a sua posição estratégica: fixou definitivamente a sua fronteira na linha do rio Tejo, conquistando numa única campanha militar mais território do que tinha conseguido em todas as décadas anteriores. Para compreendermos verdadeiramente a importância deste ano decisivo, precisamos de entender não apenas as duas conquistas espetaculares de Santarém e Lisboa, mas também como estas vitórias se inscreveram num movimento muito mais amplo da cristandade europeia e como transformaram um reino ainda precário numa entidade territorial viável e reconhecida.

O Contexto: Quando as Cruzadas Chegaram à Costa Portuguesa

O ano de 1147 não pode ser compreendido isoladamente do contexto mais amplo da Segunda Cruzada. Três anos antes, em 1144, a cidade de Edessa, um dos estados cruzados estabelecidos na Terra Santa após a Primeira Cruzada, tinha caído perante as forças muçulmanas. Esta derrota chocou a cristandade europeia e levou o Papa Eugénio III a convocar uma nova cruzada para recuperar o território perdido. A resposta foi impressionante, com reis e nobres de toda a Europa a organizarem exércitos para marchar para o Oriente. Contudo, alguns destes contingentes escolheram a rota marítima, navegando pela costa atlântica europeia antes de entrarem no Mediterrâneo.

D. Afonso Henriques, que demonstrava ao longo da sua governação uma notável capacidade para identificar e aproveitar oportunidades estratégicas, compreendeu imediatamente o potencial desta movimentação. O rei português vinha consolidando metodicamente o seu poder desde São Mamede e expandindo gradualmente o território para sul. Contudo, enfrentava um obstáculo fundamental que limitava seriamente as suas ambições: Lisboa. Esta cidade, situada estrategicamente na foz do Tejo, era não apenas uma fortaleza militar formidável mas também um rico empório comercial que controlava o acesso ao vale do Tejo e servia como base para incursões muçulmanas contra os territórios cristãos mais a norte. Santarém, situada rio acima, desempenhava um papel complementar, controlando o vale do Tejo e protegendo as abordagens a Coimbra e Leiria.

Afonso Henriques percebeu que a conquista destas duas cidades seria transformadora, mas também que Lisboa em particular estava além das suas capacidades militares isoladas. Conquistar uma cidade fortificada e bem defendida como Lisboa exigiria não apenas um exército terrestre substancial mas também capacidades navais para estabelecer um bloqueio marítimo eficaz e impedir o reabastecimento. Portugal simplesmente não possuía a frota necessária. A chegada das frotas cruzadas oferecia precisamente os recursos navais de que necessitava, mas transformar esta oportunidade em realidade exigiria primeiro diplomacia cuidadosa e depois uma demonstração convincente do valor militar português. Foi aqui que entrou a conquista de Santarém.

Santarém: A Arte do Golpe Audacioso

A tomada de Santarém em março de 1147 demonstra o lado mais astuto e calculista de Afonso Henriques. Ao contrário da conquista monumental de Lisboa que viria depois, Santarém foi conquistada através de um golpe de mão audacioso que privilegiou a surpresa e a furtividade sobre a força bruta. Esta escolha estratégica não foi acidental. Afonso Henriques compreendeu que precisava de uma vitória impressionante antes da chegada dos cruzados, tanto para demonstrar a sua capacidade militar quanto para eliminar uma ameaça que poderia comprometer a posterior campanha contra Lisboa.

A preparação da operação revela uma sofisticação notável em matéria de espionagem e planejamento militar. O rei enviou Mem Ramires, um dos seus homens que falava árabe fluentemente, à cidade a pretexto de negociar tréguas. Esta era uma prática comum na guerra medieval, onde períodos de trégua permitiam tanto o comércio quanto o descanso das hostilidades. Contudo, neste caso, a missão diplomática era uma cobertura para espionagem sistemática. Mem Ramires estudou as defesas da cidade, identificou pontos fracos nas muralhas, observou os padrões de guarda e recolheu informação detalhada sobre o número e a disposição das forças defensivas.

Baseando-se nesta inteligência, Afonso Henriques organizou uma força de assalto compacta de cerca de duzentos e cinquenta homens, escolhidos entre os seus melhores cavaleiros e soldados de infantaria. O número pequeno não era uma limitação mas uma escolha deliberada. Uma força maior seria mais difícil de movimentar silenciosamente e mais facilmente detectada. Na noite de catorze para quinze de março de 1147, aproveitando a escuridão e possivelmente também condições meteorológicas favoráveis que reduziam a visibilidade, as tropas portuguesas aproximaram-se das muralhas sem serem detectadas. Um grupo de assalto escalou as fortificações em silêncio, eliminou as sentinelas antes que pudessem dar o alarme, e abriu as portas da cidade ao exército principal que esperava do lado de fora.

A cidade foi tomada com relativa rapidez, embora certamente tenha havido combates ferozes nas ruas à medida que os defensores tentavam organizar uma resistência. A conquista de Santarém teve múltiplas consequências imediatas. Eliminou uma base que servia de plataforma para ataques constantes contra Coimbra e Leiria, libertando recursos militares que tinham de ser mantidos na defesa dessas cidades. Demonstrou a capacidade militar portuguesa de forma espetacular precisamente no momento em que os cruzados estavam a chegar à costa. E, talvez mais importante, deu a Afonso Henriques e ao seu exército uma injeção de confiança e moral que seria crucial para a campanha muito mais difícil que se avizinhava.

Lisboa: Quando a Diplomacia Encontrou o Cerco

Quando a grande frota cruzada, composta por cerca de cento e sessenta e quatro navios e milhares de guerreiros vindos da Inglaterra, Normandia, Flandres, Frísia e Alemanha, chegou ao Porto no verão de 1147, encontrou um rei português preparado e persuasivo. O Bispo do Porto, Pedro Pitões, desempenhou um papel crucial neste momento decisivo. Os cruzados tinham como objetivo declarado chegar à Terra Santa para combater pela reconquista de Edessa. Convencê-los a desviar-se deste objetivo sagrado para participar num cerco em Portugal exigia argumentos tanto espirituais quanto materiais extremamente convincentes.

Pedro Pitões apresentou o caso de forma brilhante. Em termos espirituais, argumentou que combater os muçulmanos em Portugal era tão meritório aos olhos de Deus quanto fazê-lo na Terra Santa. Afinal, o inimigo era o mesmo, a fé que defendiam era a mesma, e as indulgências papais concedidas aos cruzados aplicavam-se igualmente a qualquer combate contra os infiéis. Em termos materiais, ofereceu algo muito concreto e imediato: o direito ao saque de uma das cidades mais ricas da península, prisioneiros que podiam ser vendidos como escravos ou libertados mediante resgate, e privilégios comerciais futuros na cidade conquistada. Este pacto cuidadosamente negociado estabelecia que os cruzados teriam direito a tudo o que pudessem tomar como despojos móveis, enquanto a posse da cidade em si, com as suas estruturas, fortificações e propriedades imóveis, reverteria para o rei de Portugal.

A hoste de Afonso Henriques encontrou-se com os cruzados junto a Lisboa no final de junho, e o cerco começou formalmente pouco depois. Lisboa não era uma presa fácil. Era uma cidade rica e populosa, com muralhas substanciais e uma população determinada a defender o que era seu. O cerco que se seguiu durou dezassete semanas, cerca de quatro meses de combate contínuo que testou tanto a resistência dos defensores quanto a determinação dos atacantes. Foi um dos cercos mais longos e mais bem documentados da Reconquista, em parte porque um cruzado inglês chamado Osberno escreveu um relato detalhado que sobreviveu até aos nossos dias, dando-nos uma janela rara para os detalhes práticos e quotidianos de um cerco medieval.

A vitória final deveu-se a uma combinação de bloqueio naval rigoroso e engenharia militar sofisticada. As frotas cruzadas estabeleceram um bloqueio marítimo que impediu completamente o reabastecimento da cidade por mar. Simultaneamente, no lado terrestre, foram empregadas todas as tecnologias de cerco disponíveis na época. Construíram-se torres móveis, estruturas de madeira com múltiplos andares que podiam ser empurradas até junto das muralhas, permitindo aos atacantes alcançar o topo das fortificações e combater os defensores em igualdade. Catapultas e trabucos lançavam projéteis contra as muralhas e sobre elas, tanto para causar danos estruturais quanto para desmoralizar os defensores com o bombardeamento constante. Talvez mais eficazmente, foram cavadas minas subterrâneas que se estendiam por baixo das fundações das muralhas. Uma vez que estas galerias alcançavam pontos críticos sob as fortificações, eram preenchidas com madeira e outros materiais combustíveis que eram depois incendiados, fazendo com que as fundações colapsassem e levando consigo secções das muralhas acima.

Debilitados pela fome à medida que as reservas de alimentos se esgotavam, aterrorizados pela peste que começou a espalhar-se devido às condições sanitárias deterioradas dentro da cidade cercada, e desmoralizados pelos ataques constantes e pelo colapso progressivo das suas defesas, os muçulmanos finalmente capitularam em vinte de outubro. O rei entrou solenemente na cidade cinco dias depois, em vinte e cinco de outubro de 1147, num momento de triunfo que deve ter parecido quase miraculoso a quem tinha testemunhado os primeiros dias precários do seu reinado.

As Consequências: De Reino Precário a Potência Regional

A queda de Lisboa desencadeou uma reação em cadeia que transformou completamente a posição estratégica de Portugal. Com a capital regional nas mãos cristãs, os castelos menores da região perceberam que a sua posição tinha-se tornado insustentável. Sintra, Almada e Palmela renderam-se rapidamente, garantindo o controlo português de toda a margem sul do estuário do Tejo. Isto não era apenas uma questão de expansão territorial, embora o reino tivesse efetivamente duplicado o seu tamanho. Mais importante, a linha do Tejo oferecia uma fronteira natural defendível que transformou a viabilidade estratégica do reino. Já não era um pequeno território vulnerável espremido entre o mar e reinos muçulmanos poderosos, mas uma entidade territorial substancial com defesas naturais formidáveis e recursos económicos significativos.

A transformação da mesquita maior de Lisboa na Sé Catedral e a eleição do cruzado inglês Gilberto de Hastings como primeiro bispo da nova diocese simbolizaram a integração religiosa e administrativa da cidade conquistada. Muitos cruzados, impressionados com as oportunidades que viam ou simplesmente cansados da perspetiva de continuar a longa viagem até à Terra Santa, estabeleceram-se na cidade e nos arredores, contribuindo para o repovoamento com populações cristãs que consolidavam a conquista. A conquista de Lisboa, um dos portos comerciais mais importantes da costa atlântica, integrou Portugal nas rotas de comércio marítimo internacional que ligavam o Mediterrâneo ao Norte da Europa, trazendo não apenas riqueza mas também conexões políticas e culturais com o resto da Europa.

Em suma, mil cento e quarenta e sete foi o ano em que Portugal provou conclusivamente a sua viabilidade como reino independente. Através da combinação de audácia tática em Santarém, diplomacia hábil na negociação com os cruzados, e determinação implacável durante o longo cerco de Lisboa, Afonso Henriques transformou o seu reino de uma possibilidade contestável numa realidade que os seus vizinhos, tanto cristãos quanto muçulmanos, eram forçados a reconhecer e respeitar. O caminho desde a pequena vitória em São Mamede até à conquista de Lisboa tinha levado dezanove anos, mas no final desse percurso, Portugal tinha deixado de ser um condado rebelde para se tornar indubitavelmente um reino com futuro garantido.

Os Monges-Guerreiros que Construíram Portugal: Como as Ordens Militares Transformaram Conquista em Civilização

Quando imaginamos a Reconquista portuguesa, a nossa mente tende naturalmente para imagens de reis corajosos liderando exércitos em batalhas decisivas, de cavaleiros cristãos enfrentando guerreiros muçulmanos em combates épicos. Contudo, esta visão, embora dramática, captura apenas uma pequena parte da realidade muito mais complexa de como Portugal foi efectivamente construído. Para compreendermos verdadeiramente como um território conquistado se transformou num reino organizado e viável, precisamos de conhecer instituições únicas que combinavam de forma aparentemente paradoxal a vida religiosa com a profissão militar: as Ordens Religioso-Militares, e em particular os Templários e a Ordem de Santiago. Estes monges-guerreiros foram simultaneamente a muralha defensiva que protegeu o território conquistado, a força de ataque que empurrou a fronteira para sul, e os administradores pacientes que transformaram terras devastadas pela guerra em comunidades prósperas. A sua história é essencial para compreendermos como Portugal passou de um condado rebelde a um reino consolidado.

O Paradoxo dos Monges que Empunhavam Espadas

Antes de explorarmos o que as Ordens Militares fizeram em Portugal, precisamos de compreender o que eram estas instituições extraordinárias que pareciam unir dois mundos completamente opostos. Por um lado, eram ordens religiosas cujos membros faziam votos solenes de pobreza, castidade e obediência, comprometendo-se a viver segundo regras monásticas rigorosas que incluíam horas fixas de oração, jejuns regulares, e submissão completa à autoridade dos seus superiores. Por outro lado, eram organizações militares de elite cujos membros passavam anos a treinar nas artes da guerra, mantinham cavalos de combate caros, usavam armaduras e armas sofisticadas, e dedicavam as suas vidas a matar os inimigos da fé cristã em batalha.

Este aparente paradoxo nasceu no contexto específico das Cruzadas. Quando os cristãos europeus conquistaram Jerusalém em 1099 durante a Primeira Cruzada, enfrentaram um problema prático imenso: como defender os territórios conquistados e proteger os peregrinos que começaram a affluir à Terra Santa. Os exércitos cruzados voltavam para casa após cumprirem os seus votos, mas os territórios conquistados precisavam de defesa permanente. Foi desta necessidade que nasceram as primeiras ordens militares, combinando o compromisso permanente da vida monástica com as capacidades militares necessárias para uma guerra contínua.

Para o jovem reino de Portugal, lutando simultaneamente contra os muçulmanos a sul e enfrentando a pressão constante de Leão e Castela que nunca tinham verdadeiramente aceitado a independência portuguesa, estas ordens ofereciam uma solução para um problema fundamental. Um rei medieval não podia manter um exército permanente grande. Os custos seriam proibitivos, a base populacional simplesmente não existia, e o sistema feudal não funcionava dessa maneira. Os exércitos medievais eram geralmente convocados para campanhas específicas e depois desmobilizados. As Ordens Militares, porém, ofereciam algo diferente: uma força militar permanente, profissional, disciplinada, que não precisava de ser paga em moeda mas podia ser recompensada com doações de terras e privilégios, e que estava ligada por votos religiosos que garantiam lealdade muito além do que contratos feudais normais poderiam assegurar.

Os Templários: Arquitectos da Muralha do Tejo

A Ordem do Templo foi a primeira destas instituições extraordinárias a estabelecer-se em território português, chegando ainda durante o governo da Condessa D. Teresa, antes mesmo da independência formal. Esta chegada precoce demonstra algo importante sobre a sofisticação estratégica dos governantes portugueses desde o início: compreenderam que precisavam não apenas de vitórias militares pontuais mas de uma estrutura defensiva permanente que pudesse resistir à inevitável contra-ofensiva muçulmana que se seguiria a qualquer avanço territorial.

D. Afonso Henriques, percebendo imediatamente o valor estratégico destes guerreiros profissionais, doou-lhes o castelo de Soure em 1128, no mesmo ano da Batalha de São Mamede. Soure ocupava uma posição fronteiriça extremamente exposta, constantemente vulnerável a ataques muçulmanos, precisamente o tipo de posição que exigia uma guarnição permanente disposta a defender até à morte. Os Templários aceitaram este desafio e transformaram Soure num baluarte que protegeu Coimbra durante décadas de guerra intermitente.

Contudo, foi após as conquistas espectaculares de 1147, quando Santarém e Lisboa caíram e a fronteira portuguesa avançou subitamente para a linha do Tejo, que o papel dos Templários se tornou verdadeiramente transformador. Afonso Henriques confiou-lhes a defesa desta nova fronteira, doando-lhes territórios vastos e estratégicos. Os Templários responderam criando aquilo que os historiadores chamam de "Linha do Tejo", uma rede integrada de castelos que não eram apenas fortificações isoladas mas componentes de um sistema defensivo coordenado.

O centro desta rede tornou-se o Castelo de Tomar, fundado em 1160 e transformado na sede portuguesa da Ordem. Tomar não foi construído aleatoriamente, mas escolhido com cuidado geográfico preciso. Situava-se suficientemente perto do Tejo para coordenar a defesa da linha fluvial, mas suficientemente afastado para oferecer profundidade defensiva caso a primeira linha fosse penetrada. Em torno de Tomar, os Templários construíram ou reforçaram uma constelação de castelos: Almourol, erguido dramaticamente numa ilha rochosa no meio do Tejo onde ainda hoje impressiona os visitantes, Pombal controlando as rotas do norte, Zêzere e Idanha-a-Nova vigiando as abordagens orientais. Cada um destes castelos podia comunicar com os outros através de sinais visuais, permitindo alertas rápidos de qualquer ameaça e coordenação de respostas militares.

O que tornou estas fortificações templárias particularmente formidáveis foi a inovação tecnológica que trouxeram da Terra Santa. O mestre Gualdim Pais, que tinha combatido no Oriente e observado tanto as fortificações cruzadas quanto as muçulmanas, introduziu em Portugal avanços arquitectónicos militares que transformaram completamente a arte da fortificação. A torre de menagem, aquela estrutura imponente que se ergue no centro de castelos como Tomar, Pombal e Almourol, não era apenas um símbolo de poder mas uma inovação militar prática. Oferecia um último reduto defensivo caso as muralhas exteriores fossem penetradas, e a sua altura permitia observação de longa distância e comunicação com outras fortificações.

Os alambores, aquele espessamento característico da base das muralhas que faz com que pareçam inclinar-se para fora, eram uma resposta directa às tácticas de cerco da época. Tornavam extremamente difícil aproximar máquinas de assalto como torres móveis ou aríetes, porque os atacantes tinham de fazê-lo numa inclinação desfavorável. Além disso, projécteis lançados do alto ricocheteavam nesta superfície inclinada, criando um efeito devastador sobre tropas que tentassem aproximar-se da base da muralha. Os hurdícios, estruturas de madeira que se projectavam para fora do topo das muralhas, permitiam aos defensores lançar projécteis ou líquidos ferventes directamente sobre atacantes que conseguissem alcançar a base das fortificações. Estas inovações tornaram os castelos templários praticamente inexpugnáveis com a tecnologia militar disponível na época, transformando a Linha do Tejo numa barreira que os muçulmanos nunca conseguiram penetrar de forma sustentada.

A Ordem de Santiago: A Espada que Conquistou o Sul

Enquanto os Templários se estabeleciam como os guardiães do centro de Portugal, outra ordem militar estava destinada a desempenhar um papel igualmente crucial mas fundamentalmente diferente na construção do reino. A Ordem de Santiago, que tinha nascido em Espanha e cujo nome evocava o santo padroeiro da Reconquista ibérica, chegou a Portugal por volta de 1172 e rapidamente assumiu um carácter marcadamente ofensivo. Se os Templários eram a muralha defensiva, Santiago era a espada que empurrava para sul.

Inicialmente, a Ordem recebeu castelos como Monsanto e Abrantes, posições importantes mas que ainda se situavam relativamente perto do território já consolidado. Contudo, foi na década de 1180 que a vocação verdadeira da Ordem se definiu quando receberam Alcácer do Sal, Palmela e Almada, uma linha de fortalezas que controlava as abordagens ao Baixo Alentejo. Os cavaleiros de Santiago, conhecidos como "Espadatários" devido ao formato da cruz que ostentavam, revelaram-se particularmente adequados para a guerra ofensiva que caracterizou a fase final da Reconquista portuguesa.

A figura que personifica este período é D. Paio Peres Correia, mestre da Ordem de Santiago em Portugal durante meados do século XIII, um dos comandantes militares mais capazes da sua época. Sob a sua liderança estratégica, a Ordem coordenou as operações que levaram à conquista de praças-chave no Alentejo: Aljustrel em 1234, Mértola em 1238, Tavira em 1242. Cada uma destas conquistas não era apenas uma vitória militar isolada mas parte de uma estratégia cuidadosamente planeada para avançar sistematicamente para sul, consolidando cada ganho antes de avançar para o próximo objectivo. Quando D. Afonso III completou a conquista do Algarve em 1249 com a tomada de Faro, foi em grande medida dependente da estrutura logística e militar que Santiago tinha construído ao longo de décadas. As posses da Ordem formavam um corredor contínuo desde Palmela e Alcácer do Sal até ao Sotavento Algarvio, garantindo não apenas controlo militar mas também as linhas de comunicação e abastecimento essenciais para manter exércitos em campanha tão longe das bases do norte.

Da Conquista à Civilização: O Povoamento Como Estratégia de Guerra

Aqui chegamos a um aspecto das Ordens Militares que frequentemente é negligenciado mas que foi absolutamente crucial para o sucesso de Portugal: estas instituições não eram apenas exércitos, eram também administradores coloniais sofisticados que compreendiam que conquistar território era inútil se esse território não fosse eficazmente povoado, organizado e defendido por populações locais. Um castelo isolado numa paisagem deserta poderia ser defendido temporariamente por uma guarnição, mas eventualmente seria isolado e conquistado. O que tornava uma conquista permanente era a presença de comunidades inteiras de colonos que cultivavam as terras circundantes, pagavam impostos que sustentavam as guarnições, e forneciam recrutas para as milícias locais.

Para atrair colonos para estas zonas de fronteira extremamente perigosas, onde um ataque muçulmano podia chegar a qualquer momento, as Ordens Militares utilizaram uma ferramenta que já encontramos anteriormente: as Cartas de Foral. A Ordem do Templo, por exemplo, concedeu quase metade do total de forais emitidos por Ordens Militares entre os séculos XII e XIII, criando dezenas de comunidades em localidades como Castelo Branco, Tomar e Pombal. Estes forais ofereciam privilégios que tornavam o risco de viver na fronteira aceitável: isenções fiscais substanciais, autonomia administrativa que permitia aos colonos gerir os seus próprios assuntos sem interferência constante de senhores feudais, direitos de realizar mercados que criavam oportunidades económicas, e acesso a terras que seriam impossíveis de obter nas regiões mais estabelecidas do norte onde toda a terra já tinha donos antigos.

Estes forais também criaram uma classe social particular que foi essencial para a defesa do território: os cavaleiros-vilãos. Estes eram homens livres com posses suficientes para manter um cavalo e armas, formando uma elite militar local que não era nobre no sentido tradicional mas que tinha obrigações e privilégios militares. Quando as Ordens precisavam de organizar uma expedição ou defender um território contra um ataque, podiam convocar estes cavaleiros-vilãos que conheciam intimamente o terreno local e tinham um interesse directo na defesa das suas próprias comunidades e propriedades. As comendas, as unidades básicas de gestão territorial das Ordens, organizavam não apenas a defesa militar mas toda a economia local, desde a exploração agrícola de vinhas, olivais e campos de cereais até à pecuária, cobrando impostos e portagens que sustentavam as guarnições e a manutenção constante das fortificações.

O Legado Transformado: Da Reconquista aos Descobrimentos

Com o fim da Reconquista em 1249 e a estabilização definitiva das fronteiras através do Tratado de Alcanizes em 1297, a função militar imediata das Ordens alterou-se fundamentalmente. O rei D. Dinis, um dos monarcas mais astutos da história portuguesa, compreendeu que estas instituições poderosas, com os seus vastos territórios, fortalezas e exércitos privados, poderiam tornar-se problemáticas se continuassem a obedecer a autoridades estrangeiras como o Mestre internacional dos Templários ou o ramo castelhano de Santiago. Iniciou portanto um processo cuidadoso de nacionalização que transformou estas ordens internacionais em instituições verdadeiramente portuguesas.

Quando o Papa Clemente V suprimiu a Ordem do Templo em 1312, vítima de acusações políticas e da ganância do rei francês Filipe IV, D. Dinis agiu com rapidez e génio diplomático. Em vez de permitir que o imenso património templário em Portugal fosse confiscado pelo Papa ou reivindicado por Castela, conseguiu fundar em 1319 uma nova ordem, a Ordem de Cristo, que herdou todos os castelos, terras e recursos dos Templários portugueses mantendo-a firmemente sob tutela régia. Esta transformação não foi apenas uma questão de preservar recursos, mas de garantir que séculos de conhecimento militar, administrativo e organizacional não se perdessem.

O que talvez ninguém na época pudesse prever completamente era que esta Ordem de Cristo viria a desempenhar um papel absolutamente central na próxima grande aventura portuguesa: os Descobrimentos. Quando o Infante D. Henrique lançou o programa sistemático de exploração da costa africana no século XV, fê-lo como Mestre da Ordem de Cristo, utilizando os vastos recursos financeiros da Ordem para financiar expedições que de outra forma teriam sido impossíveis. A cruz vermelha que ondulava nas velas das caravelas portuguesas que exploraram a costa africana, dobraram o Cabo da Boa Esperança e finalmente chegaram à Índia, era a mesma cruz que os Templários tinham ostentado nos muros de Tomar e Almourol séculos antes, um símbolo de continuidade que ligava a Reconquista terrestre à expansão marítima de formas que os monges-guerreiros do século XII nunca poderiam ter imaginado mas que de certa forma tornaram possível através da sua paciente obra de construção de um reino viável e próspero.

O Tratado de Zamora 1143: O Dia em Que Portugal Deixou de Ser um Sonho para Se Tornar uma Realidade Diplomática

Imagine por um momento que construiu algo extraordinário com as suas próprias mãos, algo em que investiu anos de trabalho árduo, sangue e determinação. Agora imagine que, apesar de toda essa construção estar fisicamente presente e funcionar perfeitamente, ninguém à sua volta está disposto a reconhecer que aquilo é verdadeiramente seu. Esta era precisamente a situação de D. Afonso Henriques no início da década de 1140. Tinha derrotado a sua mãe em São Mamede, tinha conquistado vitórias militares impressionantes culminando em Ourique, tinha expandido o território até ao Tejo com as conquistas de Santarém e Lisboa, e tinha começado a usar o título de rei. Mas tudo isto, por mais impressionante que fosse, ainda era unilateral. Era uma declaração que Afonso fazia sobre si próprio, não um reconhecimento que outros lhe concediam. O Tratado de Zamora, assinado em cinco de outubro de 1143, foi o momento em que este reconhecimento finalmente chegou, transformando o que tinha sido essencialmente uma rebelião bem-sucedida numa realidade política aceite pelos outros reinos da península. Para compreendermos verdadeiramente a importância deste tratado, precisamos de entender não apenas o que foi acordado naquele dia em Zamora, mas também o caminho tortuoso que levou até lá e as consequências que se desdobraram nas décadas seguintes.

O Caminho Até Zamora: Como a Força Militar Criou Oportunidades Diplomáticas

A história que conduziu ao Tratado de Zamora é fundamentalmente sobre como Afonso Henriques usou vitórias militares para criar uma posição de negociação que tornava o reconhecimento diplomático não apenas desejável mas praticamente inevitável. Pensemos na lógica da situação do ponto de vista de Afonso VII de Leão e Castela, o primo de Afonso Henriques. Tecnicamente, o Condado Portucalense era vassalo do seu reino. Quando Afonso Henriques começou a agir como rei independente, especialmente após começar a usar o título Rex Portugallensis a partir de 1140, estava em rebelião aberta contra o seu senhor feudal. Na teoria feudal medieval, isto era inaceitável e exigia uma resposta militar para restaurar a ordem apropriada das coisas.

Contudo, a realidade militar no terreno tornava esta resposta teórica extremamente problemática na prática. Afonso Henriques tinha provado repetidamente que possuía capacidades militares formidáveis. A vitória em Ourique contra forças muçulmanas, embora os detalhes exactos permaneçam debatidos pelos historiadores, tinha sido suficientemente impressionante para permitir a aclamação como rei. As conquistas de Santarém e Lisboa em 1147 demonstraram não apenas coragem mas sofisticação estratégica e capacidade de mobilizar recursos substanciais. Mais importante ainda, Afonso Henriques tinha construído um reino com estruturas defensivas sólidas, lealdades consolidadas entre a nobreza e o clero portucalense, e uma identidade política distinta que significava que qualquer tentativa de reconquista militar não seria simplesmente uma questão de derrotar um exército rebelde mas de subjugar todo um território organizado e determinado a manter a sua autonomia.

Esta realidade foi dramaticamente confirmada no evento conhecido como o Torneio de Arcos de Valdevez em 1140 ou 1141. Embora a historiografia moderna questione alguns dos detalhes tradicionais desta confrontação, o essencial é claro: quando as forças de Afonso VII e Afonso Henriques se encontraram, as tropas portuguesas demonstraram paridade militar suficiente para convencer o monarca leonês de que submeter Portugal pela força seria, na melhor das hipóteses, uma operação militar prolongada e custosa com resultado incerto e, na pior das hipóteses, simplesmente impossível. Para um rei que tinha outros problemas prementes, incluindo a ameaça constante dos almorávidas ao sul e questões dinásticas e territoriais noutras partes dos seus vastos domínios, investir recursos enormes numa guerra contra o primo teimoso começava a parecer uma má alocação de recursos. Se Afonso Henriques não podia ser derrotado militarmente a um custo aceitável, então talvez fosse melhor reconhecer a realidade no terreno e procurar uma solução diplomática que pelo menos salvasse as aparências e estabelecesse algum tipo de relacionamento formal que não fosse de hostilidade aberta.

A Conferência na Catedral: Os Detalhes de um Acordo Complexo

Quando os dois Afonsos se encontraram na Catedral de Zamora, não estavam sozinhos. A presença de uma terceira figura foi absolutamente crucial para conferir legitimidade internacional ao que estava prestes a acontecer: o Cardeal Guido de Vico, legado papal. A presença de um representante directo do Papa transformava o encontro de uma negociação bilateral entre dois primos em conflito numa questão que envolvia a autoridade máxima da cristandade. Isto era importante porque qualquer acordo alcançado sob os olhos de Roma ganhava um peso moral e legal que seria muito mais difícil de desfazer posteriormente.

O papel de D. João Peculiar, o Arcebispo de Braga que tinha sido instrumental na negociação que levou a esta conferência, merece ser sublinhado aqui. Peculiar não estava a agir apenas como um mediador neutro interessado na paz pela paz. Como já vimos anteriormente, tinha motivações profundas relacionadas com a autonomia da sua arquidiocese face a Santiago de Compostela e Toledo. A independência política de Portugal e a autonomia eclesiástica de Braga estavam tão entrelaçadas que eram praticamente inseparáveis. Peculiar trabalhou incansavelmente nos bastidores para criar as condições que tornaram a conferência de Zamora possível, utilizando as suas conexões na corte papal e a sua compreensão sofisticada da política eclesiástica para preparar o terreno diplomático.

O tratado em si apresenta um desafio interessante para os historiadores porque não existe um documento único contemporâneo que contenha o texto integral do acordo. O que sabemos vem de consequências observáveis e de referências em documentos posteriores. Este facto em si nos diz algo importante sobre a diplomacia medieval: muitas vezes os acordos mais importantes não eram tanto textos legais detalhados no sentido moderno, mas compromissos orais testemunhados por figuras de autoridade cuja palavra e presença conferiam validade ao acordo.

O cerne do tratado era o reconhecimento por Afonso VII de que o Condado Portucalense tinha deixado de existir e tinha sido substituído por um Reino de Portugal, e que o seu primo tinha direito ao título de Rex. Este reconhecimento era o que Afonso Henriques tinha procurado durante anos, a validação externa que transformava a sua auto-proclamação numa realidade aceite. Contudo, Afonso VII não podia simplesmente conceder isto sem salvaguardar de alguma forma a sua própria dignidade e autoridade. Afinal, ele ostentava o título de "Imperador da Hispânia", uma reivindicação grandiosa de supremacia sobre todos os reinos cristãos da península. Se simplesmente reconhecesse Portugal como completamente independente sem qualquer laço formal consigo, estaria a admitir uma diminuição fundamental da sua autoridade imperial.

A solução encontrada foi simultaneamente engenhosa e ambígua, precisamente o tipo de compromisso que permite que ambas as partes declarem vitória. Afonso Henriques aceitou o senhorio de Astorga, uma cidade em território leonês, tornando-se vassalo de Afonso VII por essas terras específicas. Este arranjo permitia a Afonso VII afirmar que o rei português era seu vassalo, mantendo assim a ficção da sua autoridade imperial. Simultaneamente, o acordo deixava claro que esta vassalagem era pessoal e específica às terras de Astorga, não ao Reino de Portugal em si. Portugal era reconhecido como reino independente, com Afonso Henriques como seu rei soberano. A vassalagem por Astorga era uma concessão simbólica que permitia que ambos os primos salvassem a face.

O tratado também estabeleceu paz duradoura entre os dois reinos, um desenvolvimento de importância prática imensa para Afonso Henriques. Com a fronteira norte finalmente estabilizada e a ameaça de guerra com Leão removida, podia concentrar todos os seus recursos e atenção na Reconquista para sul, expandindo o território português às custas dos muçulmanos sem ter de se preocupar constantemente com a possibilidade de um ataque pelas costas vindo do seu primo leonês.

A Manobra Genial: Vassalagem a Roma Como Escudo Contra Interferência Secular

Contudo, Afonso Henriques compreendia algo fundamental que demonstra a sua sofisticação política: o reconhecimento concedido por Afonso VII, embora valioso, era em última análise revogável. Se as circunstâncias políticas mudassem, se um futuro rei de Leão fosse mais forte ou mais determinado, se Portugal enfrentasse um momento de fraqueza, esse reconhecimento podia ser retirado e a independência contestada novamente. Para garantir que Portugal fosse verdadeiramente seguro, precisava de algo mais permanente, mais fundamental na ordem internacional medieval. Precisava do reconhecimento da maior autoridade da cristandade: o Papa.

Imediatamente após Zamora, em dezembro de 1143, Afonso Henriques executou uma das manobras diplomáticas mais brilhantes da história medieval portuguesa. Enviou uma carta ao Papa Inocêncio II, documento conhecido como "Claves Regni Coelorum" ou "Chaves do Reino dos Céus", na qual se declarava "cavaleiro de São Pedro" e vassalo directo da Santa Sé. Oferecia o seu reino como feudo da Igreja e comprometia-se a pagar um tributo anual de quatro onças de ouro ao Papa e aos seus sucessores.

Para compreendermos o génio desta manobra, precisamos de entender a lógica do sistema feudal medieval. Na teoria feudal, uma pessoa não podia ser vassalo de dois senhores soberanos diferentes. Se Afonso Henriques era vassalo directo do Papa, a pessoa mais alta na hierarquia da cristandade, então não podia simultaneamente ser vassalo de Afonso VII em matéria de soberania fundamental. A vassalagem por Astorga podia permanecer como uma formalidade menor, mas a vassalagem à Santa Sé efectivamente blindava Portugal contra qualquer reivindicação leonesa de suserania sobre o reino português em si.

Além disso, esta manobra transformava Portugal num protetorado papal. Qualquer ataque a Portugal tornava-se, em teoria, um ataque aos interesses directos da Igreja, algo que deveria fazer qualquer monarca cristão pensar duas vezes. Colocava Portugal firmemente fora da esfera de influência política de Leão e Castela, criando uma relação directa com Roma que saltava completamente sobre quaisquer intermediários peninsulares.

O tributo anual que Afonso Henriques se comprometeu a pagar era modesto o suficiente para não constituir um fardo financeiro real, mas suficientemente substancial para tornar o compromisso significativo. Era um lembrete anual, renovado com cada pagamento, de que Portugal era vassalo de Roma e que Roma tinha um interesse material contínuo na sobrevivência e prosperidade do reino português.

O Longo Caminho Até ao Reconhecimento Definitivo

Contudo, e isto é importante compreender para termos uma visão realista da diplomacia medieval, o Papado não respondeu imediatamente a esta oferta com o reconhecimento pleno e entusiástico que Afonso Henriques esperava. A política papal era complexa e tinha de equilibrar múltiplos interesses concorrentes. Roma não queria hostilizar os poderosos reis de Leão e Castela, que também eram vassalos da Igreja e cujo apoio era valioso em múltiplas questões. Durante vários anos após Zamora, a correspondência papal continuou a tratar Afonso Henriques como Dux, Duque, ou Princeps, Príncipe, títulos que embora respeitáveis eram inequivocamente inferiores a Rex, Rei.

Esta ambiguidade papal foi frustrante para Afonso Henriques mas não mudou fundamentalmente a realidade no terreno. Portugal funcionava como reino independente, era tratado como tal pelos seus vizinhos após Zamora, e a falta de reconhecimento papal formal era mais uma questão de prestígio diplomático do que de substância política prática. Afonso Henriques continuou a governar como rei, a expandir o território, a consolidar instituições, e a construir um reino cada vez mais próspero e organizado.

O reconhecimento papal definitivo finalmente chegou em 1179, trinta e seis anos após Zamora, com a bula Manifestis Probatum do Papa Alexandre III. Esta bula reconhecia solenemente Afonso Henriques como rei legítimo e Portugal como reino independente, validando retroactivamente todas as conquistas e desenvolvimentos das décadas anteriores. Que este reconhecimento tenha demorado tanto tempo revela as complexidades da diplomacia internacional medieval, mas também demonstra a paciência estratégica de Afonso Henriques e dos seus conselheiros que compreenderam que o importante era construir factos consumados no terreno enquanto continuavam a trabalhar pacientemente pelos canais diplomáticos para obter os reconhecimentos formais que eventualmente viriam.

Quando olhamos para trás através dos séculos, cinco de outubro de 1143 permanece como a data verdadeiramente fundadora da soberania portuguesa. Foi o momento em que a ambição de um príncipe determinado e a aspiração de um povo que tinha desenvolvido uma identidade política distinta se transformaram numa realidade reconhecida entre as nações da Península Ibérica. Ourique pode ter sido o momento da aclamação, Lisboa o momento da consolidação territorial, e 1179 o momento do reconhecimento papal definitivo, mas foi Zamora que transformou Portugal de uma rebelião em curso numa entidade política aceite pelos poderes da época. Foi o dia em que Portugal deixou de ser apenas um facto militar para se tornar também um facto diplomático, o momento em que a força das armas finalmente se traduziu em reconhecimento legal, criando as fundações sobre as quais todas as gerações futuras de portugueses construiriam a sua história nacional.

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