Historia de Portugal

Reconquista - A Expansão Territorial 

1147: O Ano em que Portugal Conquistou o Seu Coração

Há anos na história que são verdadeiros pontos de viragem, momentos em que tudo muda de forma irreversível. Para Portugal, 1147 foi um desses anos. Não foi o ano em que o reino nasceu oficialmente, isso tinha acontecido quatro anos antes em Zamora. Mas foi o ano em que Portugal conquistou o seu verdadeiro coração geográfico e económico: Lisboa.

Para compreender porque é que este ano foi tão crucial, precisamos de entender algo fundamental. Um reino não é apenas um título ou um reconhecimento diplomático. Um reino precisa de território viável, de fronteiras defensáveis, de recursos económicos. E em 1147, Portugal ainda não tinha nenhuma destas coisas de forma segura.

Pensemos na situação: a capital estava em Coimbra, mas a sul, a apenas algumas dezenas de quilómetros, começava território muçulmano. Santarém, uma fortaleza islâmica poderosa, ficava perigosamente perto e servia de base para ataques constantes. Mais a sul estava Lisboa, uma das cidades mais ricas da Península Ibérica, controlando a foz do Tejo. Enquanto estas cidades permanecessem em mãos muçulmanas, Portugal seria sempre um reino frágil e ameaçado.

O Contexto: Uma Oportunidade de Ouro

No mundo islâmico peninsular estava a acontecer algo crucial. O Império Almorávida, que tinha dominado o sul durante décadas, estava em colapso. O que tinha sido um império unificado estava a fragmentar-se nos chamados "Segundos Reinos de Taifa", pequenos reinos muçulmanos independentes, muitas vezes em conflito uns com os outros.

Esta fragmentação era, do ponto de vista dos reinos cristãos, uma oportunidade extraordinária. Afonso Henriques percebeu que tinha uma janela de oportunidade, talvez breve, para empurrar a fronteira para sul enquanto o adversário estava fraco e dividido.

Santarém: A Conquista pela Astúcia

A primeira conquista do ano foi Santarém, em março. E a forma como foi conquistada revela muito sobre Afonso Henriques como líder militar. Santarém não foi tomada através de um longo cerco. Foi tomada através daquilo que hoje chamaríamos uma operação de comandos, um ataque surpresa executado com precisão.

Afonso Henriques partiu de Coimbra com uma força surpreendentemente pequena, apenas cerca de duzentos e cinquenta homens. Esta pequena força marchou de noite, usando caminhos secundários para evitar ser detectada. O objetivo era chegar às muralhas de Santarém sem que os defensores soubessem.

Na noite de catorze para quinze de março, quando a cidade dormia, um grupo liderado por Mem Ramires escalou os muros, matou as sentinelas silenciosamente, e abriu as portas da cidade por dentro. Quando a guarnição muçulmana percebeu o que estava a acontecer, já era tarde demais. A cidade foi tomada rapidamente, com relativamente pouco derramamento de sangue.

Esta conquista revela algo importante: Afonso Henriques não era apenas um guerreiro corajoso, era um comandante inteligente que sabia quando usar a astúcia. A queda de Santarém eliminava a principal base de ataques muçulmanos contra Coimbra e abria o caminho para o verdadeiro prémio: Lisboa.

A Sorte que Bate à Porta

Mas Lisboa era um desafio completamente diferente. Era uma das cidades mais ricas e poderosas de toda a Península Ibérica, com muralhas formidáveis. Afonso Henriques já tinha tentado conquistá-la em 1142 e tinha fracassado. Para tomar Lisboa, precisava de força militar significativa e de tecnologia de cerco que não tinha.

Até que a sorte, ou a Providência, bateu à porta. Em junho de 1147, uma enorme frota de cruzados estava a caminho da Terra Santa para participar na Segunda Cruzada. Eram cerca de cento e sessenta e quatro navios com entre dez mil e treze mil homens vindos da Inglaterra, da Normandia, de Flandres e da Alemanha.

Os cruzados tinham parado no Porto devido ao mau tempo. O Bispo do Porto, Pedro Pitões, convenceu-os a ajudar o rei português a conquistar Lisboa antes de continuarem viagem. Argumentou que combater os infiéis na Península era tão meritório aos olhos de Deus como combatê-los na Terra Santa, e que além disso teriam direito ao saque da cidade.

Era uma mistura de apelos religiosos e incentivos materiais muito práticos. E funcionou. Os cruzados concordaram em ajudar, desde que ficassem com o saque. A cidade e o território reverteriam para Portugal.

O Cerco: Quatro Meses que Mudaram Tudo

O cerco a Lisboa começou no final de junho e durou quase quatro meses. Era uma operação militar complexa que envolvia múltiplas táticas simultâneas. Os navios cruzados cercaram o porto, impedindo que chegassem mantimentos por mar. Trabucos e catapultas bombardeavam as muralhas. Equipas de mineiros cavavam túneis sob as muralhas para as fazer colapsar. Os cruzados construíram grandes torres móveis de madeira, tão altas como as muralhas, para permitir assaltos directos.

Construir estas máquinas exigia engenheiros qualificados e muita madeira, e os cruzados do norte da Europa trouxeram precisamente isso. Tinham experiência em cercos, tinham conhecimento técnico, tinham os recursos para o trabalho pesado.

Mas talvez o factor mais decisivo foi simplesmente o tempo e a fome. Lisboa tinha recebido refugiados de Santarém, e a população estava inchada. À medida que as semanas se transformavam em meses, a situação deteriorava-se. A fome espalhava-se, as doenças começavam a aparecer, a moral dos defensores quebrava-se.

A vinte de outubro, após quase quatro meses de cerco, os defensores capitularam. Perceberam que não havia esperança de socorro. O império Almorávida estava em colapso, ninguém viria salvá-los. A entrada solene de Afonso Henriques na cidade aconteceu cinco dias depois.

As Consequências: Como Duas Cidades Transformaram Um Reino

As conquistas de Santarém e Lisboa transformaram Portugal de forma fundamental em três dimensões principais.

Do ponto de vista militar, a linha do Tejo estava agora consolidada. Antes de 1147, a fronteira estava algures entre Coimbra e Santarém, uma linha indefinida impossível de defender. Depois de 1147, a fronteira estava no Tejo, uma barreira natural clara. Coimbra já não estava perigosamente perto da zona de guerra. Isto permitiu a Afonso Henriques começar a pensar na expansão ainda mais para sul, e de facto logo após conquistou Almada, Palmela e Sintra.

Do ponto de vista económico, a transformação foi ainda mais dramática. Antes de 1147, Portugal era essencialmente um reino rural pobre. Lisboa mudou tudo isto. Era um dos grandes portos do Mediterrâneo Ocidental, com ligações comerciais ao Norte de África, ao Mediterrâneo, e ao Norte da Europa. Tinha uma comunidade mercantil experiente, artesãos qualificados, infraestruturas portuárias.

De repente, o reino tinha acesso a receitas alfandegárias significativas, um centro urbano rico que podia taxar, contactos comerciais que podiam ser desenvolvidos. A conquista de Lisboa transformou a viabilidade económica de Portugal. Já não era apenas um pequeno reino pobre, era um reino com um grande porto atlântico, com potencial comercial significativo. Não é coincidência que Lisboa tenha gradualmente substituído Coimbra como centro económico e político.

Do ponto de vista geopolítico, o cerco de Lisboa criou laços importantes. A presença de milhares de cruzados do norte da Europa, a sua colaboração bem-sucedida com Portugal, criou conexões que não existiam antes. O primeiro bispo da Lisboa reconquistada foi um inglês, Gilberto de Hastings, um dos cruzados. Esta escolha sinalizava a abertura de Portugal ao norte da Europa e criava laços institucionais com a Inglaterra. Estes laços, criados em 1147, são por vezes vistos como precursores da aliança luso-britânica que seria formalizada séculos mais tarde.

O Timing Perfeito

Há algo quase poético no timing de 1147. Em 1143, Portugal tinha obtido reconhecimento diplomático através do Tratado de Zamora, mas era um reino pequeno, pobre e vulnerável. Em 1147, através destas conquistas, ganhou território defensável, recursos económicos e prestígio militar. Provou que era viável, que podia não apenas sobreviver mas expandir-se. Em 1179, obteria o reconhecimento papal definitivo, mas parte do que convenceu o Papa foi precisamente o que Portugal tinha conquistado, incluindo crucialmente Lisboa.

Se Zamora deu a Portugal o título de reino, e se Manifestis Probatum deu a certidão legal, então as conquistas de 1147 deram-lhe o corpo físico: o território, os recursos, a base material sem a qual os títulos são apenas papel.

Seria fácil atribuir o sucesso de 1147 simplesmente à sorte, afinal os cruzados apareceram por acaso e a desintegração Almorávida não foi obra de Afonso Henriques. Mas isto seria injusto. A sorte favorece os preparados. Quando a oportunidade de conquistar Santarém surgiu, ele tinha a capacidade e coragem para a aproveitar. Quando os cruzados apareceram, tinha a visão para perceber o que aquilo significava. Quando Lisboa caiu, tinha a sabedoria para consolidar a conquista.

Hoje, quase novecentos anos depois, as conquistas de 1147 continuam a moldar Portugal. Lisboa é a capital há séculos. O Tejo continua a ser uma das características geográficas definidoras. As estruturas económicas estabelecidas com a conquista moldaram o desenvolvimento do país. Foi o ano em que Portugal conquistou o seu coração, e esse coração continua a bater até hoje.

As Ordens Militares: Os Monges-Guerreiros que Construíram Portugal


Quando pensamos em monges medievais, normalmente imaginamos homens de hábito a rezar em mosteiros silenciosos, copiando manuscritos à luz de velas. Quando pensamos em cavaleiros, imaginamos guerreiros seculares lutando por honra e riqueza. Mas houve uma época em que estas duas vocações aparentemente contraditórias se fundiram numa instituição única e fascinante: as Ordens Militares, monges que eram também guerreiros profissionais.

Em Portugal, estas ordens não foram apenas um pormenor curioso da história medieval. Foram absolutamente fundamentais para a própria sobrevivência e consolidação do reino. Sem os Templários, sem a Ordem de Santiago, sem a Ordem de Avis, é muito provável que Portugal não tivesse conseguido defender e povoar o território conquistado. Estas instituições foram simultaneamente a espada que defendeu as fronteiras e a cruz que organizou e civilizou as terras conquistadas.

O Problema que as Ordens Resolviam

Para compreender porque é que as Ordens Militares foram tão importantes, precisamos primeiro de entender o problema fundamental que Portugal enfrentava no século XII. Imaginemos a situação: Afonso Henriques e os seus sucessores estavam constantemente a conquistar território aos mouros, empurrando a fronteira cada vez mais para sul. Mas conquistar território é apenas metade do problema. A outra metade, igualmente difícil, é mantê-lo e povoá-lo.

Portugal era, na época, um país com população reduzidíssima. Estima-se que no século XII toda a população do reino não ultrapassasse os cem mil habitantes. Quando se conquistava uma cidade como Santarém ou Lisboa, ou quando se empurrava a fronteira para o Alentejo, surgiam imediatamente dois desafios cruciais.

O primeiro desafio era militar: como defender aquele território recém-conquistado? Os mouros não simplesmente desapareciam após uma derrota. Organizavam contra-ataques, tentavam recuperar o que tinham perdido. As fronteiras eram zonas de conflito permanente, onde qualquer momento de fraqueza podia significar a perda do território conquistado. Era preciso ter forças militares permanentemente estacionadas nestas regiões perigosas, sempre prontas a defender-se.

O segundo desafio era demográfico e económico: como povoar aquelas terras? De pouco servia conquistar um castelo se depois este ficava vazio ou mal defendido. Era preciso atrair pessoas para viverem nestas zonas de fronteira, cultivarem a terra, criarem comunidades estáveis. Mas como convencer alguém a mudar-se para uma região onde podia ser atacado a qualquer momento?

As Ordens Militares resolviam ambos os problemas simultaneamente de uma forma que nenhuma outra instituição medieval conseguia. Eram exércitos permanentes e profissionais que viviam nas regiões de fronteira, sempre prontos a combater. E ao mesmo tempo eram organizações com recursos, conhecimentos administrativos e capacidade para atrair e organizar populações civis. Eram simultaneamente a guarnição militar e o motor do povoamento.

Os Templários: A Vanguarda da Defesa

A primeira Ordem Militar a estabelecer-se em Portugal foi a Ordem do Templo, mais conhecida por Templários. Chegaram ainda durante o governo de D. Teresa, mãe de Afonso Henriques, recebendo o Castelo de Soure em 1128 para defender a região de Coimbra que estava constantemente sob ameaça de ataques mouros.

Mas foi sob a liderança de um homem extraordinário chamado Gualdim Pais que os Templários se tornaram verdadeiramente fundamentais para Portugal. Gualdim Pais era um cavaleiro português que tinha ido à Terra Santa, participado nas Cruzadas, combatido no Oriente. E quando regressou, trouxe consigo conhecimentos militares que transformariam a forma como Portugal defendia as suas fronteiras.

Em 1159, Afonso Henriques deu aos Templários o território de Ceras, e ali, em 1160, Gualdim Pais fundou aquele que se tornaria um dos castelos mais importantes da história portuguesa: o Castelo de Tomar. Este não era um castelo qualquer. Incorporava inovações arquitetónicas que Gualdim Pais tinha visto no Oriente e que eram revolucionárias para a Europa Ocidental da época.

Deixem-me explicar algumas destas inovações, porque são fascinantes do ponto de vista da engenharia militar. A torre de menagem, por exemplo, era uma estrutura central extremamente fortificada que servia como último reduto de defesa. Mesmo que os atacantes conseguissem entrar no castelo, ainda teriam de conquistar a torre de menagem, que era praticamente uma fortaleza dentro da fortaleza.

Outra inovação era o alambor, um espessamento da base das muralhas. Isto pode parecer um pormenor técnico, mas tinha consequências práticas enormes. Os exércitos medievais usavam máquinas de cerco como aríetes para tentar derrubar muralhas. O alambor tornava impossível aproximar estas máquinas da base da muralha, e criava um ângulo que fazia ricochetearem os projéteis lançados contra ela.

A eficácia destas fortificações foi provada de forma dramática em 1190. Nesse ano, o poderoso califa almóada Iacube Almançor invadiu Portugal com um exército enorme. Tinha já destruído Torres Novas e avançava imparável pelo vale do Tejo. Quando chegou a Tomar, esperava conquistá-la facilmente. Mas os Templários, comandados por Gualdim Pais, resistiram. O cerco prolongou-se, as defesas aguentaram, e eventualmente o califa foi forçado a desistir e retirar.

Este episódio foi absolutamente crucial para a sobrevivência de Portugal. Se Tomar tivesse caído, o caminho para Coimbra e para o coração do reino estaria aberto. A resistência dos Templários salvou literalmente o país de uma invasão que podia ter sido catastrófica.

Há ainda um epílogo fascinante à história dos Templários em Portugal. Em 1312, o Papa Clemente V, sob pressão do rei de França, suprimiu a Ordem do Templo em toda a Europa. As suas propriedades deviam ser confiscadas, os seus membros dispersos ou presos. Mas o rei de Portugal, D. Dinis, recusou-se a cumprir totalmente estas ordens. Em vez disso, com notável habilidade diplomática, criou em 1319 uma nova ordem, a Ordem de Cristo, e transferiu para ela todo o património templário, incluindo Tomar, Almourol e Pombal.

Esta foi uma manobra genial. Nacionalizou efetivamente a ordem, garantindo que os seus recursos e conhecimentos militares permaneceriam ao serviço de Portugal. A Ordem de Cristo viria mais tarde a desempenhar um papel crucial nos Descobrimentos, financiando expedições marítimas, mas isso é já outra história.

A Ordem de Santiago: Os Conquistadores do Sul

Enquanto os Templários seguravam a linha do Tejo, outra ordem militar estava a preparar-se para empurrar a fronteira ainda mais para sul. A Ordem de Santiago tinha origem leonesa, tinha sido fundada em Cáceres em 1170, mas entrou em Portugal apenas dois anos depois, em 1172, a convite de Afonso Henriques.

Se os Templários eram especialistas em defesa, a Ordem de Santiago tinha uma vocação mais ofensiva. Os seus membros, conhecidos como Espadatários por causa da espada em forma de cruz que usavam como símbolo, especializaram-se na conquista de novo território. O seu raio de ação foi principalmente a sul do Tejo, no Alentejo e eventualmente no Algarve.

D. Sancho I, filho de Afonso Henriques, doou-lhes os castelos de Palmela e Alcácer do Sal. Palmela, em particular, tornou-se a sua sede e o centro das suas operações na região do Sado e do Alentejo Litoral. A partir dali, organizavam expedições militares, administravam o território conquistado, atraíam povoadores.

A conquista definitiva de Alcácer do Sal em 1217 foi um momento crucial. Os freires de Santiago, liderados por Martim Pais Barregão, tiveram papel de destaque nesta operação que abriu literalmente as portas para a reconquista de todo o baixo Alentejo. Alcácer controlava o rio Sado e as rotas terrestres para sul. Com a sua queda, todo o caminho até ao Algarve ficava mais acessível.

Mas foi sob o comando de um mestre extraordinário chamado Paio Peres Correia que a Ordem de Santiago alcançou os seus maiores triunfos. Durante as décadas de 1230 e 1240, Paio Peres Correia liderou a campanha final da Reconquista portuguesa. As forças da ordem conquistaram praças fundamentais como Aljustrel, Mértola, Tavira e Cacela, muitas vezes atuando de forma autónoma ou como vanguarda do exército real.

É importante compreender o que isto significava na prática. A Ordem de Santiago funcionava quase como um Estado dentro do Estado, com os seus próprios recursos militares e financeiros, a sua própria estrutura de comando, as suas próprias ambições territoriais. Claro que eram leais ao rei de Portugal, mas tinham também uma autonomia considerável. Quando decidiam conquistar uma praça, organizavam a expedição, executavam-na, e depois administravam o território conquistado.

A Ordem de Avis: A Sentinela do Interior

A Ordem de Avis teve uma origem diferente e mais genuinamente portuguesa. Nasceu como a Milícia dos Cavaleiros de Évora por volta de 1175 ou 1176, criada especificamente para defender aquela cidade que tinha sido conquistada por Geraldo Sem Pavor. Inicialmente estava ligada à Ordem espanhola de Calatrava, mas foi-se autonomizando progressivamente até se tornar uma ordem genuinamente nacional.

Em 1211, D. Afonso II deu aos freires de Évora a herdade de Avis, com a condição de ali construírem um castelo e estabelecerem a sua sede. Este movimento estratégico, concretizado por volta de 1214, definiu a vocação da ordem. A Ordem de Avis assumiu a responsabilidade pela defesa e povoamento do Alto Alentejo interior, uma região que era particularmente difícil de defender e povoar.

O Alto Alentejo interior era, de certa forma, o território mais ingrato. Não tinha as ligações marítimas de Lisboa, não tinha os rios navegáveis do vale do Tejo, não tinha a riqueza agrícola de certas zonas costeiras. Era um interior quente, seco, vulnerável a incursões tanto de mouros como de forças castelhanas. Mas era também estrategicamente importante precisamente por isso, porque protegia o coração do reino.

A Ordem de Avis transformou aquela região. Construiu castelos, atraiu povoadores, organizou a agricultura, criou uma rede defensiva que tornava muito mais difícil qualquer invasão pelo interior. Foi um trabalho menos espetacular que as grandes conquistas da Ordem de Santiago, mas igualmente fundamental.

O Povoamento: A Outra Face da Conquista

Até agora falámos principalmente do papel militar das Ordens, mas como mencionei no início, a sua importância ia muito além da guerra. Estas ordens foram os grandes agentes do povoamento das zonas de fronteira, e fizeram-no através de métodos bastante sofisticados.

O instrumento principal eram as cartas de foral. Um foral era essencialmente um contrato entre a autoridade que controlava o território e os povoadores que se dispunham a viver ali. O foral especificava os direitos e obrigações de ambas as partes: quanto de imposto os povoadores teriam de pagar, que privilégios teriam, que serviços militares deviam prestar, como seria administrada a justiça local.

Os Mestres das ordens concediam forais generosos para atrair pessoas. Por exemplo, o foral de Tomar de 1162 ou o de Pombal de 1174 ofereciam condições bastante favoráveis. Isto fazia sentido do ponto de vista estratégico: era melhor ter uma população pagando impostos moderados do que não ter população nenhuma. E uma população local significava também mais homens disponíveis para defender o território em caso de ataque.

As ordens organizavam o território em comendas, unidades administrativas cada uma chefiada por um comendador. Estes comendadores eram simultaneamente comandantes militares e administradores civis. Introduziam métodos avançados de produção agrícola, vinhas, olivais, cereais. Construíam infraestruturas como moinhos e pontes. Criavam mercados. Gradualmente, transformavam terras de guerra em zonas produtivas e prósperas.

Este trabalho de povoamento e organização territorial foi absolutamente fundamental para a consolidação de Portugal. De pouco serviria conquistar território se depois este ficasse deserto e improdutivo. As Ordens Militares garantiram que as conquistas se transformavam em território realmente integrado no reino, com população estável e economia funcional.

A Divisão Estratégica do Território

Olhando em retrospetiva, podemos ver que as três principais Ordens Militares acabaram por dividir entre si a responsabilidade por diferentes zonas de Portugal de uma forma que fazia muito sentido estratégico.

Os Templários, e depois a Ordem de Cristo, seguraram o Centro e a linha do Tejo. Esta era talvez a região mais crucial, porque protegia Coimbra e depois Lisboa. Era a linha de frente durante o século XII e início do XIII.

A Ordem de Avis blindou o Alto Alentejo interior. Esta região protegia o flanco oriental do reino e garantia que não havia um corredor vulnerável pelo qual inimigos pudessem penetrar no coração do país.

A Ordem de Santiago liderou o avanço para sul, conquistando o baixo Alentejo e o Algarve. Eram a ponta de lança da expansão portuguesa.

Juntas, estas três ordens criaram uma rede de defesa e povoamento que cobria todo o território português a sul do Douro. E fizeram-no de uma forma que permitiu a Portugal completar a sua Reconquista em 1249, décadas antes de Castela terminar a sua. As fronteiras de Portugal ficaram consolidadas mais cedo do que as de qualquer outro reino peninsular, e as Ordens Militares foram fundamentais para que isto acontecesse.

Eram verdadeiramente a espada e a cruz que construíram Portugal: a espada que defendeu e conquistou, a cruz que organizou e povoou. Sem elas, a história do país teria sido muito diferente.

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