Historia de Portugal
O Condado Portucalense
A História de Como um Condado se Tornou Nação
Quando pensamos em Portugal, imaginamos um país com fronteiras bem definidas, uma língua própria e uma identidade nacional forte. Mas nem sempre foi assim. Há quase mil anos, aquilo que hoje chamamos Portugal era apenas um território periférico de um reino maior, governado por um nobre estrangeiro que jurou lealdade a outro rei. Como é que este pequeno condado na costa atlântica se transformou no primeiro Estado-nação da Europa? A resposta está numa história repleta de ambição, conflitos familiares e decisões estratégicas brilhantes.
As Origens: Um Presente com Segundas Intenções
No final do século XI, a Península Ibérica estava dividida entre reinos cristãos no norte e territórios muçulmanos no sul. O rei Afonso VI de Leão e Castela enfrentava um problema sério: os Almorávidas, um poderoso movimento militar muçulmano vindo do Norte de África, ameaçavam conquistar os territórios cristãos que ele havia ganho.
Precisando desesperadamente de ajuda militar, Afonso VI fez o que muitos reis medievais faziam: pediu auxílio a cavaleiros estrangeiros. Entre os que responderam ao chamado estava D. Henrique de Borgonha, um nobre francês com excelentes ligações políticas – era sobrinho-neto de Hugo de Cluny, um dos homens mais influentes da Europa cristã da época.
Como recompensa pelos seus serviços militares, e aproveitando para selar uma aliança política, Afonso VI ofereceu a D. Henrique dois presentes: a mão da sua filha D. Teresa em casamento e o governo de um território entre os rios Minho e Douro – o Condado Portucalense. Era o ano de 1096.
À primeira vista, parecia um acordo feudal normal: D. Henrique tornava-se vassalo do rei de Leão, comprometendo-se a defendê-lo e a pagar-lhe tributos. Mas havia um detalhe crucial: este condado era hereditário, passaria para os filhos de Henrique, e gozava de uma autonomia administrativa invulgarmente ampla. D. Henrique podia criar leis locais, organizar a defesa do território e governar com uma independência considerável.
A Ambição de um Conde que Sonhava Ser Rei
D. Henrique não era homem de se contentar com pouco. Rapidamente percebeu que aquele canto remoto da Península podia ser o início de algo maior. A sua estratégia foi jogar nas divisões e crises da corte leonesa, tentando sempre expandir o seu poder e autonomia.
Chegou mesmo a fazer um pacto secreto com o seu primo D. Raimundo, que governava a Galiza: quando o velho rei Afonso VI morresse, dividiriam a herança entre si. D. Henrique esperava ficar com territórios importantes como Toledo ou, pelo menos, anexar a Galiza ao seu condado.
A morte prematura de Raimundo e do herdeiro legítimo de Afonso VI baralhou os planos, mas D. Henrique manteve a sua política de alianças cambiantes, apoiando ora uma facção, ora outra, sempre com o objetivo de fortalecer a sua posição. Quando morreu em 1112, não tinha conseguido tornar-se rei, mas deixou um legado importante: um território cada vez mais autónomo e uma corte local que começava a ver os seus interesses como distintos dos de Leão.
D. Teresa: A Rainha que Nunca Foi
Com a morte de D. Henrique, a sua viúva D. Teresa assumiu a regência, já que o filho de ambos, Afonso Henriques, era ainda uma criança. Teresa era, pelos relatos da época, uma mulher de "ânimo varonil e arguta inteligência" – elogios significativos numa época em que as mulheres raramente governavam.
Inicialmente, Teresa continuou a política do marido, chegando mesmo a intitular-se "Rainha" em documentos oficiais – um título ousado para quem era, tecnicamente, apenas regente de um condado vassalo. Mas cometeu um erro estratégico fatal: aproximou-se demasiado da nobreza galega, especialmente do poderoso conde Fernão Peres de Trava, que se tornou não apenas o seu conselheiro político, mas também, segundo as crónicas, o seu companheiro sentimental.
Esta aproximação alarmou profundamente a nobreza portucalense. Os barões locais e o clero de Braga, liderado pelo arcebispo D. Paio Mendes, começaram a temer que o condado perdesse a autonomia conquistada por D. Henrique e fosse reabsorvido pela Galiza. Os interesses das famílias nobres de Entre-Douro-e-Minho estavam em jogo, e estas não estavam dispostas a aceitar a influência galega.
São Mamede: A Tarde em que Portugal Nasceu
O descontentamento com o governo de D. Teresa cristalizou-se em torno do seu próprio filho. Afonso Henriques, educado por nobres locais, armou-se cavaleiro em 1125 e rapidamente se tornou o líder da oposição à política da mãe.
A 24 de junho de 1128, mãe e filho enfrentaram-se no campo de batalha, perto de Guimarães, num lugar chamado São Mamede. De um lado, as tropas de D. Teresa e do conde galego Fernão Peres de Trava. Do outro, Afonso Henriques apoiado pelos barões portucalenses e pelo arcebispo de Braga.
A vitória de Afonso Henriques foi decisiva. D. Teresa foi afastada do poder (acabaria por morrer exilada na Galiza anos depois) e o jovem príncipe assumiu o controlo total do condado. Os historiadores chamam frequentemente a este momento "a primeira tarde portuguesa" – o dia em que o poder político do território passou definitivamente para mãos locais, afastando o perigo da influência galega.
De Conde a Rei: A Dupla Batalha pela Independência
Mas vencer a mãe era apenas o começo. Afonso Henriques tinha agora de enfrentar dois desafios simultaneos: conquistar território aos muçulmanos no sul e convencer o seu primo, Afonso VII de Leão e Castela, a reconhecer a independência de Portugal.
A vitória militar veio em 1139, na Batalha de Ourique, onde as tropas de Afonso Henriques derrotaram esmagadoramente um exército muçulmano. Este triunfo deu-lhe o prestígio necessário para um passo revolucionário: as suas tropas aclamaram-no rei, não apenas conde. A partir de 1140, Afonso Henriques começou a usar o título de "Rei de Portugal", declarando-se independente de Leão.
O problema é que Afonso VII não via as coisas da mesma maneira. Considerava-se "Imperador de toda a Hispânia" e exigia que o primo continuasse a ser seu vassalo. Seguiram-se anos de tensão militar, incluindo escaramuças fronteiriças e demonstrações de força.
A Genialidade Diplomática de Zamora
Em 1143, na cidade de Zamora, na presença de um cardeal papal, os dois primos chegaram finalmente a um acordo. Afonso VII reconheceu o título real do primo, aceitando a independência de Portugal. Mas Afonso Henriques fez algo brilhante do ponto de vista diplomático: declarou-se vassalo não de Leão, mas diretamente do Papa, comprometendo-se a pagar um tributo anual à Santa Sé.
Esta manobra era genial por várias razões. Primeiro, colocava Portugal sob a proteção da Igreja, a instituição mais poderosa da Europa medieval. Segundo, evitava qualquer subordinação política a Leão – afinal, ser vassalo do Papa era uma honra, não uma humilhação. Terceiro, inseria Portugal no mapa político europeu como um reino cristão independente, com reconhecimento internacional.
O reconhecimento formal e definitivo chegaria apenas em 1179, quando o Papa Alexandre III emitiu a bula "Manifestis Probatum", que reconhecia solenemente o Reino de Portugal e o direito de Afonso Henriques e seus descendentes à coroa.
Uma Nação Nascida da Ambição e da Oportunidade
A história da independência de Portugal mostra-nos que as nações não nascem por acaso. Portugal tornou-se independente porque uma família estrangeira ambiciosa (os Borgonha) aproveitou as oportunidades que lhe foram dadas, porque uma nobreza local defendeu os seus interesses, e porque um jovem rei teve a visão, a coragem e a inteligência para transformar um condado periférico num reino soberano.
O que D. Henrique começou como um projeto de engrandecimento pessoal, o seu filho transformou numa nação. E essa nação, nascida há quase 900 anos, continua até hoje com as fronteiras praticamente inalteradas – um feito único na Europa.
D. Teresa: A Rainha que Quase Impediu Portugal
Na galeria dos heróis fundadores de Portugal, há um nome que raramente recebe o destaque que merece – ou talvez receba demasiada culpa pelo que poderia ter corrido mal. D. Teresa de Leão, mãe de D. Afonso Henriques, é frequentemente retratada como a vilã da história: a governante que traiu os interesses portugueses em favor dos galegos, a mãe que teve de ser derrotada pelo próprio filho para que Portugal pudesse nascer. Mas será esta visão justa? A história de D. Teresa é bem mais complexa e fascinante do que os manuais escolares sugerem.
A Filha Ilegítima que se Tornou Condessa
Para compreender D. Teresa, precisamos começar pela sua origem. Nascida filha ilegítima de Afonso VI, um dos reis mais poderosos da Península Ibérica, Teresa cresceu num mundo onde o seu estatuto era simultaneamente privilegiado e precário. Era filha de rei, sim, mas não tinha direito automático à sucessão. O seu futuro dependia inteiramente da vontade paterna e das alianças políticas que ele decidisse fazer.
Em 1096, quando o pai lhe arranjou casamento com D. Henrique de Borgonha – um cavaleiro francês que viera ajudar na luta contra os muçulmanos – Teresa recebeu também uma espécie de dote territorial: o Condado Portucalense. Era um território periférico, na fronteira com os mouros, longe dos centros de poder de Leão e Castela. Para muitos nobres, teria sido quase um exílio dourado. Mas para Teresa e Henrique, revelou-se uma oportunidade.
Durante os dezasseis anos em que foi casada com D. Henrique, Teresa assistiu aos esforços do marido para transformar aquele condado vassalo numa entidade cada vez mais autónoma. Aprendeu as artes da política medieval: como jogar com as rivalidades entre os reinos cristãos, como construir alianças, como aproveitar momentos de fraqueza alheia para fortalecer a própria posição.
Uma Regente Inesperadamente Ambiciosa
Quando D. Henrique morreu em 1112, Teresa tinha cerca de trinta anos e um filho ainda criança. O esperado seria que ela governasse discretamente até o filho atingir a maioridade, mantendo o território e evitando conflitos. Mas Teresa tinha outras ideias.
As crónicas descrevem-na como mulher de "ânimo varonil e arguta inteligência" – elogios raros numa época em que as mulheres governantes eram vistas com desconfiança. E Teresa provou que esses elogios não eram imerecidos. Aproveitando a confusão política em Leão e Castela após a morte do pai, ela não apenas manteve o condado, como procurou ativamente expandir o seu poder e influência.
O gesto mais audacioso foi começar, a partir de 1116-1117, a intitular-se "Rainha" em documentos oficiais. Não "condessa", não "regente" – rainha. Assinava como "Eu, rainha Teresa de Portugal, filha do rei Afonso". Era uma declaração política ousada: Teresa estava a reivindicar um estatuto que, tecnicamente, não lhe pertencia. O Condado Portucalense era vassalo de Leão; ela não tinha direito ao título real. Mas ao usá-lo, estava a sinalizar as suas ambições: transformar aquele condado numa entidade soberana, com ela própria como monarca.
Durante os primeiros anos da sua regência, Teresa conseguiu manter um equilíbrio delicado. Expandiu o território, fortaleceu alianças, governou com uma firmeza que surpreendeu os contemporâneos. Se a história tivesse terminado ali, Teresa seria hoje lembrada como uma das grandes governantes medievais portuguesas.
A Aliança Fatal com a Galiza
Mas então veio a decisão que mudaria tudo: a aproximação ao conde Fernão Peres de Trava.
Os Trava eram uma das famílias mais poderosas da Galiza, o território vizinho a norte. Fernão Peres era um nobre influente, bem relacionado, com recursos militares consideráveis. Do ponto de vista estratégico, uma aliança com ele fazia sentido: dava a Teresa um aliado poderoso contra as ameaças externas e fortalecia a sua posição face aos outros reinos peninsulares.
Mas esta aliança tinha um custo político elevado. Fernão Peres não era apenas um conselheiro distante; tornou-se, segundo as crónicas, companheiro sentimental de Teresa. Mais importante ainda, ela começou a dar-lhe poder real sobre o condado. Fernão Peres passou a controlar cidades-chave como o Porto e Coimbra. Outros nobres galegos foram trazidos para ocupar posições importantes na administração do território.
Para Teresa, isto podia parecer uma estratégia inteligente: estava a usar os recursos galegos para fortalecer a sua própria posição. Mas para a nobreza local portucalense, parecia algo muito diferente: uma traição.
O Despertar da Consciência "Nacional"
Aqui chegamos a um dos aspetos mais fascinantes desta história: o nascimento de algo que poderíamos chamar uma identidade portucalense.
Os nobres de Entre-Douro-e-Minho – famílias como os Sousa, os Maia, os Ribadouro – tinham prosperado sob o governo de D. Henrique e nos primeiros anos de Teresa. Tinham recebido terras, privilégios, posições de poder. Tinham interesses económicos ligados ao território portucalense: controlavam a cobrança de impostos, a justiça local, as fortunas construídas na região.
Quando viram Teresa entregar cargos importantes a nobres galegos, sentiram-se não apenas preteridos, mas ameaçados. Se o condado fosse reabsorvido pela Galiza, perderiam a sua autonomia, as suas terras, o seu poder. Os galegos tomariam o seu lugar.
O Arcebispo de Braga, D. Paio Mendes, tinha preocupações semelhantes do ponto de vista eclesiástico. A Igreja de Braga tinha ambições de primazia sobre toda a região. Uma subordinação à Galiza significaria subordinação ao Arcebispo de Santiago de Compostela – algo inaceitável.
Assim nasceu algo novo: um sentimento de que existia uma "terra de Portugal" com interesses próprios, distintos dos da Galiza, que precisava de ser defendida contra os "estrangeiros". Não era ainda um nacionalismo no sentido moderno, mas era o embrião de uma identidade política separada.
O Filho contra a Mãe
E foi em torno do filho de Teresa que esta oposição se cristalizou.
Afonso Henriques, educado por nobres locais (tradicionalmente identifica-se o seu aio como Egas Moniz), cresceu ouvindo as queixas da nobreza portucalense. Cresceu num ambiente que lhe incutiu a ideia de que o condado tinha um destino próprio, separado de Leão e da Galiza.
Em 1125, quando tinha cerca de dezasseis anos, Afonso armou-se cavaleiro num ato carregado de simbolismo político. Não pediu autorização à mãe. Não fez a cerimónia no condado. Foi à Catedral de Zamora, em território leonês, declarando assim a sua maioridade e emancipação da tutela materna.
A partir desse momento, mãe e filho estavam em rota de colisão. Afonso começou a governar por conta própria, emitindo documentos, tomando decisões, criando uma dualidade de poderes no condado. A nobreza portucalense tinha agora um líder alternativo – e apoiava-o entusiasticamente.
São Mamede: Quando a Família se Esfacela
A 24 de junho de 1128, perto de Guimarães, num lugar chamado São Mamede, a tensão transformou-se em violência aberta. Mãe e filho enfrentaram-se no campo de batalha.
É difícil imaginar o que Teresa sentiu naquele dia. Tinha governado durante dezasseis anos, enfrentado ameaças externas, construído alianças, tentado preservar e expandir o legado que o marido lhe deixara. E agora via-se obrigada a lutar contra o próprio filho, apoiado pelos mesmos nobres que ela pensara estar a servir.
A batalha foi rápida e decisiva. As forças de Afonso Henriques, apoiadas pelos barões locais e pelo Arcebispo de Braga, derrotaram as tropas de Teresa e Fernão Peres de Trava. O "partido galego" foi expulso. A influência dos Trava sobre o condado terminou abruptamente.
O Destino de uma Rainha Derrotada
Após a derrota, D. Teresa desaparece quase por completo dos registos históricos portugueses. Algumas crónicas sugerem que foi aprisionada no Castelo de Lanhoso. Outras indicam que ela e Fernão Peres fugiram para a Galiza, onde Teresa faleceu em 1130, apenas dois anos após a batalha.
A historiografia portuguesa tradicional não foi gentil com Teresa. Durante séculos, ela foi retratada como a governante fraca que se deixou dominar pelas paixões, que traiu os interesses portugueses, que teve de ser afastada para que Portugal pudesse nascer. Era o perfeito contraste para o herói viril e nacional que era o seu filho.
Uma Reavaliação Necessária
Mas será esta visão justa? Olhando com mais atenção, percebemos que a história é mais complexa.
Teresa não traiu Portugal por fraqueza ou paixão. Fez escolhas estratégicas que, no contexto da época, faziam sentido: procurou alianças poderosas para fortalecer a sua posição. O seu erro foi não perceber – ou não dar importância suficiente – ao facto de que estava a criar uma classe local de barões com interesses próprios, que não aceitariam ser marginalizados.
Por outro lado, não podemos romantizar excessivamente Teresa. Ela governou de forma autoritária, privilegiou aliados externos em detrimento dos locais, e aparentemente não compreendeu a profundidade do descontentamento que estava a gerar. Quando finalmente percebeu o perigo, já era tarde demais.
O que São Mamede representa não é simplesmente a vitória do "bem" sobre o "mal", mas o triunfo de um projeto político específico – a autonomia portucalense – sobre outro projeto – a integração numa esfera galego-leonesa mais ampla. Teresa perdeu porque apostou no projeto errado, ou porque não conseguiu gerir as forças políticas locais. Afonso Henriques venceu porque soube aliar-se a quem tinha poder real no território.
O Legado Contraditório
A ironia é que Teresa contribuiu, mesmo sem querer, para a independência de Portugal. Ao intitular-se rainha, ao tentar expandir a autonomia do condado, ao governar com firmeza durante dezasseis anos, ela manteve vivo o projeto iniciado por D. Henrique. Criou as condições para que o filho pudesse, mais tarde, transformar o condado em reino.
Se Teresa tivesse sido uma regente passiva e submissa, se tivesse aceite docilmente a reintegração do condado em Leão, talvez Portugal nunca tivesse existido. Foi precisamente a sua ambição – e o conflito que essa ambição gerou – que forçou a definição de uma identidade portucalense distinta.
Hoje, quase novecentos anos depois, talvez seja tempo de olhar para D. Teresa não como a vilã que quase destruiu Portugal, nem como a heroína incompreendida, mas como uma figura histórica complexa: uma governante medieval inteligente e ambiciosa que fez escolhas estratégicas que acabaram por se revelar erradas, mas que, paradoxalmente, contribuiu para criar a nação que o filho fundaria.
A história raramente é tão simples quanto os heróis e vilões dos manuais escolares. E D. Teresa é a prova perfeita disso.
São Mamede: O Dia em que Portugal Decidiu o Seu Próprio Destino
Imagine a cena: é 24 de junho de 1128, dia de São João, e nos campos perto de Guimarães prepara-se um confronto que parece, à primeira vista, uma tragédia familiar. De um lado, uma mãe que governou durante dezasseis anos. Do outro, o seu filho de dezanove anos, apoiado por nobres e clérigos insatisfeitos. Mas o que está prestes a acontecer naquele campo de São Mamede transcende em muito uma disputa entre mãe e filho. É, na verdade, o momento em que Portugal decidiu que caminho seguir: integração numa Galiza e Leão maiores, ou autonomia como entidade política separada.
A batalha que se travou naquele dia de verão é hoje conhecida como a Batalha de São Mamede, e os historiadores portugueses gostam de a chamar "a primeira tarde portuguesa". É um nome bonito e poético, mas o que significa realmente? Significa que foi naquela tarde que o território que viria a ser Portugal tomou, pela primeira vez, as suas próprias decisões, sem interferência externa. Foi quando os interesses locais triunfaram sobre as ambições de integração numa esfera política mais ampla.
O Conflito que Vinha de Longe
Para compreender porque é que mãe e filho chegaram a este ponto de rutura violenta, precisamos de recuar alguns anos. Quando D. Henrique de Borgonha morreu em 1112, deixou uma viúva, D. Teresa, e um filho pequeno, Afonso Henriques. Teresa podia ter optado por um governo discreto, mantendo as coisas como estavam até o filho crescer. Mas não era essa a sua natureza.
Teresa era ambiciosa e inteligente. Durante os primeiros anos da regência, até governou bastante bem, chegando ao ponto de se intitular "Rainha" - um título tecnicamente ousado para alguém que governava apenas um condado vassalo. Mas então tomou uma decisão que viria a revelar-se fatal: aproximou-se da alta nobreza galega, especialmente do poderoso conde Fernão Peres de Trava.
Do ponto de vista estratégico, a decisão fazia algum sentido. Os Trava eram uma das famílias mais influentes da região, com recursos militares consideráveis e boas conexões políticas. Uma aliança com eles poderia proteger o condado de ameaças externas. O problema é que Teresa não se limitou a uma aliança diplomática. Deu a Fernão Peres e aos seus aliados galegos posições de poder real dentro do condado: controlo de cidades importantes como o Porto e Coimbra, cargos na administração, influência nas decisões políticas.
Para a nobreza local portucalense, isto não era apenas uma questão de orgulho ferido. Era uma ameaça existencial aos seus interesses. Pensemos nisto de forma prática: estas famílias nobres - os Sousa, os Maia, os Ribadouro e outros - tinham passado décadas a construir o seu poder no território. Controlavam terras, cobravam impostos, administravam justiça, construíram fortunas locais. Se o condado fosse reabsorvido pela Galiza, tudo isto estaria em risco. Os galegos tomariam os seus lugares, as suas terras, o seu poder.
O Arcebispo de Braga, D. Paio Mendes, tinha preocupações semelhantes do ponto de vista eclesiástico. A Igreja de Braga tinha ambições de primazia religiosa sobre toda a região. Uma subordinação à Galiza significaria subordinação ao poderoso Arcebispo de Santiago de Compostela - algo que Braga não estava disposta a aceitar.
Assim nasceu algo que podemos chamar de partido "nacional" - um grupo de nobres e clérigos que defendia que o Condado Portucalense tinha interesses próprios, distintos dos da Galiza, e que precisava de uma liderança que defendesse esses interesses. E encontraram o líder perfeito: o próprio filho de Teresa.
O Rapaz que se Fez Homem
Afonso Henriques não cresceu no vácuo. Foi educado por nobres locais, tradicionalmente identifica-se o seu aio como Egas Moniz, e cresceu ouvindo as queixas contra a política da mãe. Cresceu num ambiente que lhe incutiu a ideia de que aquele território tinha um destino separado, de que era uma "terra de Portugal" que precisava de ser defendida.
O primeiro sinal claro de que Afonso não ia aceitar passivamente a tutela materna veio em 1125, quando tinha cerca de dezasseis ou dezassete anos. Nesse ano, tomou uma decisão carregada de simbolismo: armou-se cavaleiro. Mas não fez a cerimónia no condado, sob os olhos da mãe. Foi à Catedral de Zamora, em território leonês, e fez-se cavaleiro por sua própria iniciativa.
Este gesto pode parecer-nos hoje um simples ritual de passagem à idade adulta, mas na Idade Média tinha um significado político profundo. Armar-se cavaleiro era declarar a maioridade, a capacidade de governar, a emancipação da tutela de outros. Afonso estava a dizer ao mundo: já não sou criança, não preciso de regente, estou pronto para governar por direito próprio.
A partir desse momento, a tensão entre mãe e filho tornou-se pública e incontornável. Afonso começou a emitir documentos oficiais por conta própria, a tomar decisões governativas, a reunir-se com nobres e a construir a sua própria base de apoio. Na prática, criou-se uma situação de duplo poder no condado: de um lado Teresa e os galegos, do outro Afonso e os barões portucalenses.
Esta situação não podia durar. Em política medieval, como em muitas outras épocas, os conflitos de poder raramente se resolvem pacificamente. E em 1128, a tensão atingiu o ponto de rutura.
O Confronto Decisivo
O episódio que precipitou o confronto final envolveu, curiosamente, o rei de Leão. Em 1127, Afonso VII de Leão e Castela - primo de Afonso Henriques - veio até Guimarães e cercou a cidade, exigindo que o jovem infante lhe prestasse vassalagem. Era uma forma de pressão: Afonso VII queria deixar claro quem mandava realmente na Península.
Egas Moniz, o aio de Afonso Henriques, conseguiu resolver a situação prometendo que o infante seria fiel ao rei leonês. Mas o episódio deixou claro uma coisa: o Condado Portucalense precisava de uma liderança forte e unida. Não podia continuar dividido entre duas fações rivais.
Foi neste contexto que, no verão de 1128, os dois partidos decidiram resolver a questão pela força das armas. A 24 de junho, dia de São João - uma escolha de data que provavelmente não foi acidental, dado o simbolismo religioso - os exércitos encontraram-se no campo de São Mamede, perto de Guimarães.
De um lado, as forças de D. Teresa e Fernão Peres de Trava, apoiadas por nobres galegos e por aqueles barões portucalenses que ainda lhe eram leais. Do outro, Afonso Henriques com o grosso da nobreza local de Entre-Douro-e-Minho e o apoio crucial do Arcebispo de Braga e do clero.
Não temos descrições detalhadas de como decorreu a batalha - as crónicas medievais raramente nos dão esse tipo de detalhe tático. Mas sabemos o resultado: a vitória foi clara e decisiva para as forças de Afonso Henriques. As tropas de Teresa e dos galegos foram derrotadas e obrigadas a retirar.
Mais que uma Batalha: Uma Escolha de Destino
O que torna São Mamede tão importante não é a dimensão da batalha - provavelmente não foi um confronto de grandes dimensões, comparado com outras batalhas medievais - mas sim o seu significado político. Foi o momento em que o Condado Portucalense fez uma escolha coletiva sobre o seu futuro.
Pensemos no que estava realmente em jogo naquele campo. Não era apenas uma questão de quem governaria - se Teresa ou Afonso. Era uma questão de identidade política. Se Teresa tivesse vencido, o condado teria provavelmente continuado a sua aproximação à Galiza, talvez acabando por se integrar nessa esfera política maior. As elites galegas teriam consolidado o seu poder no território. A história teria seguido um rumo completamente diferente.
Mas Teresa perdeu. E com a sua derrota, perdeu também o projeto de integração galega. A vitória de Afonso Henriques foi a vitória de um projeto político específico: a autonomia do território, a defesa dos interesses locais, a criação de um espaço político separado com a sua própria identidade.
É por isso que os historiadores gostam de chamar a este momento "a primeira tarde portuguesa". Não porque Portugal tenha nascido naquele dia - isso viria mais tarde, com a proclamação da independência após a Batalha de Ourique em 1139 e com o reconhecimento formal no Tratado de Zamora em 1143. Mas porque foi em São Mamede que o território começou verdadeiramente a caminhar sozinho, a tomar as suas próprias decisões, a definir-se contra a integração numa entidade política maior.
As Consequências Imediatas
A vitória em São Mamede teve efeitos imediatos e profundos. D. Teresa foi afastada do poder. As fontes não são totalmente claras sobre o que lhe aconteceu exatamente - algumas sugerem que foi aprisionada, outras que fugiu para a Galiza - mas sabemos que morreu apenas dois anos depois, em 1130, longe do condado que governara durante dezasseis anos.
Fernão Peres de Trava e os outros nobres galegos que tinham ocupado posições de poder no condado foram expulsos. A influência galega sobre o território terminou abruptamente. Os barões portucalenses que tinham apoiado Afonso Henriques foram recompensados com terras e privilégios, consolidando a sua lealdade ao novo líder.
Afonso Henriques, com apenas dezanove anos, assumiu o controlo total do condado. Mas, e isto é importante, ainda não se intitulava rei. Isso só viria onze anos mais tarde, após a grande vitória militar sobre os muçulmanos em Ourique. Por enquanto, era o conde de Portugal - mas um conde que governava com independência cada vez maior de Leão.
Uma das suas primeiras decisões estratégicas foi mudar a capital de Guimarães para Coimbra em 1131. Esta mudança não foi acidental ou caprichosa. Coimbra estava mais a sul, mais perto da fronteira com os territórios muçulmanos. Ao mover a capital para ali, Afonso estava a sinalizar as suas intenções: o futuro de Portugal estava na expansão para sul, na Reconquista, não em disputas com os reinos cristãos do norte.
O Legado de uma Tarde de Verão
Hoje, quase novecentos anos depois, a Batalha de São Mamede continua a ocupar um lugar especial na memória histórica portuguesa. Não foi a batalha mais sangrenta, nem a mais espetacular, nem aquela que teve as consequências militares mais imediatas. Mas foi, sem dúvida, a mais decisiva para o destino de Portugal.
Foi em São Mamede que se decidiu que aquele pequeno território na costa atlântica não seria absorvido pela Galiza ou por Leão. Foi ali que se definiu que existiria uma entidade política separada, com interesses próprios, que seguiria o seu próprio caminho. Foi o momento em que uma elite local - nobres e clérigos - decidiu defender a sua autonomia contra uma integração maior que ameaçava os seus interesses.
Podemos argumentar sobre se isto foi bom ou mau, se Teresa tinha ou não razão na sua estratégia, se Afonso Henriques foi herói ou apenas um jovem ambicioso manipulado pela nobreza local. Mas o que não podemos negar é que aquela tarde de junho de 1128 mudou o curso da história peninsular. Sem São Mamede, Portugal tal como o conhecemos provavelmente nunca teria existido.
E é por isso que, quase um milénio depois, continuamos a lembrar aquele campo perto de Guimarães, onde mãe e filho se enfrentaram e onde se decidiu, numa tarde de verão, o destino de uma nação.
Zamora 1143: O Dia em que Portugal se Tornou Reino (Mas Ainda Não Completamente)
Há datas na história que parecem simples à primeira vista, mas que escondem camadas de complexidade fascinantes quando olhamos mais de perto. O dia 5 de outubro de 1143 é uma dessas datas. Nesse dia, na cidade de Zamora, um jovem rei português conseguiu finalmente o reconhecimento que procurava: o seu primo, o poderoso rei de Leão e Castela, aceitou chamá-lo "rei" e reconheceu a independência de Portugal. Parece simples, não é? Um rei reconhece outro rei, um país torna-se independente, fim da história.
Mas a verdade é bem mais interessante e complexa. O que aconteceu em Zamora foi um exercício brilhante de diplomacia medieval, onde ambos os lados conseguiram o que queriam através de compromissos engenhosos, onde a vassalagem foi usada como arma política, e onde um jovem rei demonstrou uma maturidade estratégica notável. E, talvez mais surpreendentemente, este dia que celebramos como o nascimento oficial de Portugal foi apenas o primeiro passo de um processo que levaria ainda quase quarenta anos a completar-se totalmente.
O Caminho até Zamora: Quando a Espada Falha, Vem a Diplomacia
Para compreender o que aconteceu em Zamora, precisamos primeiro de entender como se chegou ali. Depois de derrotar a mãe em São Mamede em 1128, Afonso Henriques tinha assumido o controlo total do Condado Portucalense. Mas controlar o território não era suficiente. Ele queria mais: queria ser rei de um reino independente, não apenas conde de um condado vassalo.
O problema é que existia alguém que discordava veementemente desta ambição: o seu primo Afonso VII de Leão e Castela. Afonso VII não era apenas um rei qualquer. Tinha-se autoproclamado "Imperador de toda a Hispânia", uma forma grandiosa de dizer que se considerava o senhor supremo de todos os reinos cristãos da Península Ibérica. Para ele, o território que o primo governava era e devia continuar a ser uma parte do seu império, e Afonso Henriques devia ser seu vassalo obediente.
Mas Afonso Henriques tinha outras ideias. E tinha também, felizmente, a capacidade militar para as defender. Em 1139, na Batalha de Ourique, as suas tropas conseguiram uma vitória esmagadora sobre um exército muçulmano. As crónicas descrevem esta batalha em termos quase míticos - dizem que Cristo apareceu a Afonso antes da batalha, prometendo-lhe a vitória. Verdade ou lenda construída mais tarde, o facto é que a vitória foi real e impressionante.
E foi ali, no campo de batalha, ainda coberto do pó do combate, que aconteceu algo revolucionário: as tropas de Afonso Henriques aclamaram-no rei. Não pediram autorização a Afonso VII. Não esperaram por reconhecimento formal. Simplesmente declararam que o seu comandante era agora Rex, rei. A partir de 1140, Afonso Henriques começou a assinar documentos como "Rei dos Portugueses", rompendo na prática os laços de vassalagem que teoricamente o ligavam a Leão.
Isto era, obviamente, uma provocação direta ao primo "imperador". E Afonso VII não ficou nada contente. A tensão entre os dois escalou rapidamente, culminando naquilo que as crónicas chamam o "Torneio de Arcos de Valdevez" em 1140 ou 1141. Não sabemos exatamente o que aconteceu - algumas fontes sugerem que foi um confronto militar limitado, outras que foi uma espécie de demonstração de força combinada com negociações. Mas o resultado ficou claro: Afonso VII percebeu que submeter Portugal pela força seria extremamente difícil e custoso. As tropas portuguesas tinham provado que sabiam lutar.
E assim, relutantemente, o imperador leonês aceitou sentar-se à mesa de negociações. Se não podia conquistar Portugal pela espada, talvez pudesse pelo menos salvar a face através da diplomacia.
A Reunião na Catedral: Três Homens e o Futuro de Uma Nação
A conferência de Zamora realizou-se na catedral da cidade, um cenário apropriadamente solene para o que estava em jogo. Estavam presentes três figuras principais, cada uma com os seus próprios interesses e objetivos.
Primeiro, obviamente, estava Afonso Henriques, agora com cerca de trinta e três anos. Vinha procurar o reconhecimento formal do seu título real e da independência do seu reino. Tinha a força militar do seu lado, mas sabia que precisava também de legitimidade política e diplomática.
Segundo, Afonso VII, o imperador de Leão e Castela, um homem poderoso que via o primo como um vassalo rebelde, mas que tinha sido forçado pelas circunstâncias a negociar. Não podia permitir-se parecer fraco, mas também não podia ignorar a realidade militar no terreno.
Terceiro, e talvez surpreendentemente importante, estava o Cardeal Guido de Vico, representante do Papa. A sua presença transformava aquilo que poderia ter sido apenas uma negociação bilateral entre dois primos em algo com dimensão internacional. A Igreja era a instituição mais poderosa da Europa medieval, e ter o seu representante presente conferia legitimidade ao acordo, fossem quais fossem os seus termos.
Nos bastidores, desempenhando um papel crucial nas negociações, estava também o Arcebispo de Braga, D. João Peculiar. Era do interesse da Igreja portuguesa que existisse um reino independente, pois isso elevaria o estatuto da hierarquia eclesiástica local. Um arcebispo de um reino tinha muito mais prestígio e poder que um arcebispo de um mero condado.
O Acordo: Uma Obra-Prima de Ambiguidade Diplomática
Aqui chegamos a um ponto fascinante: não existe nenhum documento da época intitulado "Tratado de Zamora". Não há um pergaminho assinado e selado que possamos apontar e dizer "aqui está, estes são os termos exatos". O que existe são referências posteriores, documentos subsequentes que mencionam o acordo, e a prática política que se seguiu.
Mas das fontes que temos, conseguimos reconstruir o essencial do que foi acordado. E é um exercício brilhante de diplomacia medieval, onde ambos os lados conseguiram declarar vitória.
O ponto central era este: Afonso VII concordou em reconhecer o primo como Rex, como rei. Concordou que o Condado Portucalense era agora o Reino de Portugal. Esta era a grande vitória de Afonso Henriques - obtinha finalmente o reconhecimento que procurava.
Mas havia um pormenor engenhoso que permitia a Afonso VII salvar a face. Afonso Henriques recebeu o senhorio de Astorga, um território em Leão. E por esse território específico, prestava vassalagem ao primo. Deixem-me explicar o que isto significa na prática política medieval.
Na Idade Média, a vassalagem não era necessariamente uma relação de subordinação total. Um nobre podia ser vassalo de um rei por certas terras, mas soberano noutras. O que este acordo dizia, de forma engenhosa, era isto: Afonso Henriques é vassalo de Afonso VII por Astorga (território leonês), mas é rei soberano de Portugal. Assim, Afonso VII podia continuar a afirmar que era "imperador" e que o primo lhe prestava vassalagem (tecnicamente verdade, por causa de Astorga), enquanto Afonso Henriques podia afirmar que era rei independente (também verdade, em relação a Portugal).
Era uma ficção legal elegante que permitia a ambos declarar vitória. E em política, especialmente política medieval onde a honra e o prestígio eram cruciais, estas ficções elegantes eram muitas vezes a única forma de resolver conflitos sem mais derramamento de sangue.
Os dois primos também prometeram paz duradoura entre os seus reinos. Tinham lutado o suficiente um contra o outro. Havia muçulmanos a sul para conquistar, territórios para expandir. Fazia mais sentido cooperar, ou pelo menos não hostilizar-se mutuamente.
A Jogada de Mestre: Tornar-se Vassalo do Papa
Mas Afonso Henriques não se contentou com o reconhecimento do primo. Era um jovem rei inteligente e sabia que os acordos entre primos podiam ser revertidos. Precisava de algo mais sólido, mais permanente, mais internacional. Precisava do reconhecimento da maior autoridade da Cristandade: o Papa.
E foi aqui que demonstrou verdadeiro génio político. Apenas dois meses após Zamora, em dezembro de 1143, enviou ao Papa Inocêncio II uma carta extraordinária, conhecida como "As Chaves do Reino dos Céus". Nesta carta, Afonso Henriques declarava-se "cavaleiro de São Pedro" e oferecia o Reino de Portugal como feudo da Santa Sé. Comprometia-se a pagar um tributo anual ao Papa - quatro onças de ouro.
À primeira vista, isto pode parecer estranho. Afonso Henriques tinha acabado de conseguir a independência face a Leão, e agora declarava-se vassalo do Papa? Não estava a trocar uma sujeição por outra?
Na verdade, não. E é aqui que vemos a brilhante compreensão que Afonso Henriques tinha do sistema político medieval. Vejamos os benefícios desta manobra.
Primeiro, ser vassalo do Papa era uma honra, não uma humilhação. Muitos reis europeus tinham relações semelhantes com a Santa Sé. Colocava Portugal no mapa como um reino cristão reconhecido internacionalmente, sob a proteção da Igreja.
Segundo, e isto era crucial, segundo as leis feudais da época, um vassalo não podia servir dois senhores ao mesmo tempo quando esses senhores eram de nível soberano equivalente. Ao tornar-se vassalo direto do Papa, Afonso Henriques criava um obstáculo legal a qualquer tentativa futura de Afonso VII de reclamar vassalagem plena sobre Portugal. Como podia o rei de Leão exigir que Portugal fosse seu vassalo, se Portugal já era vassalo do Papa?
Terceiro, dava a Portugal a proteção política da Igreja. Se alguém atacasse Portugal, estaria a atacar um reino protegido pela Santa Sé. Isso dava ao pequeno reino uma camada extra de segurança diplomática.
Era, em suma, uma jogada brilhante. Afonso Henriques usou a vassalagem - normalmente vista como sinal de fraqueza ou subordinação - como uma arma para garantir e proteger a sua independência.
O Reconhecimento que Demorou Quarenta Anos
Mas aqui chegamos a um ponto que pode surpreender muitos portugueses que aprenderam na escola que Portugal nasceu em 1143. A verdade é que o reconhecimento papal que Afonso Henriques procurava não veio imediatamente.
O Papado era uma instituição política complexa, que tinha de equilibrar múltiplos interesses. Os Papas não queriam hostilizar Afonso VII, que era um rei poderoso e importante aliado da Igreja. Durante anos, continuaram a tratar Afonso Henriques de forma ambígua, chamando-lhe às vezes "Dux" (duque) em vez de "Rex" (rei).
Foi preciso esperar até 1179 - trinta e seis anos após Zamora - para que chegasse finalmente o reconhecimento formal e completo. Nesse ano, o Papa Alexandre III emitiu a bula "Manifestis Probatum", que reconhecia solenemente Afonso Henriques como rei e Portugal como reino independente, com direito a conquistar terras aos mouros.
Isto significa que Portugal não nasceu em 1143? Não exatamente. O que isto mostra é que o nascimento de uma nação é um processo, não um evento único. Em 1128, em São Mamede, Portugal conseguiu autonomia política de facto. Em 1143, em Zamora, conseguiu reconhecimento diplomático do seu vizinho mais poderoso. Em 1179, conseguiu finalmente o reconhecimento jurídico pleno da Santa Sé.
Cada um destes momentos foi crucial. Cada um foi um passo necessário. Mas se tivéssemos de escolher uma data para o "nascimento oficial" de Portugal, 1143 faz sentido porque foi quando o reino foi reconhecido como tal por outro reino, quando deixou de ser teoricamente um condado vassalo e passou a ser tratado como entidade soberana.
O Legado de Zamora
O que aconteceu em Zamora há quase 900 anos continua a ter eco até hoje. Portugal celebra o 5 de outubro como data da sua fundação. E com razão, porque foi nesse dia que a ambição de um jovem príncipe, apoiado por nobres locais e validada por vitórias militares, se transformou em realidade política reconhecida.
Mas a história de Zamora ensina-nos também lições mais subtis sobre como os Estados nascem e se consolidam. Mostra-nos que a independência nacional não é apenas uma questão de declarações unilaterais ou de vitórias militares, por mais importantes que estas sejam. É também uma questão de reconhecimento diplomático, de manobras políticas inteligentes, de compromissos pragmáticos.
Afonso Henriques podia ter insistido em termos mais puros, recusando qualquer tipo de vassalagem a Afonso VII, rejeitando compromissos. Mas provavelmente teria condenado Portugal a mais anos de guerra. Em vez disso, aceitou uma ficção legal elegante que permitia ao primo salvar a face, e usou depois essa paz para construir uma relação ainda mais vantajosa com o Papado.
Mostra-nos também que mesmo uma data tão celebrada como 1143 é, na verdade, parte de um processo mais longo. O reconhecimento papal de 1179 foi, de certa forma, tão importante quanto o acordo de Zamora. Mas 1143 tem o simbolismo de ser o primeiro reconhecimento formal, o momento em que Portugal deixou de ser apenas uma realidade militar e política local para se tornar um reino reconhecido entre os outros reinos peninsulares.
E talvez a lição mais importante seja esta: a criação de Portugal foi obra não de um único herói ou de um único momento, mas de um processo complexo que envolveu batalhas sim, mas também diplomacia, compromissos inteligentes, e uma compreensão sofisticada de como funcionava o sistema político medieval. Afonso Henriques foi sem dúvida um grande guerreiro, mas foi também um diplomata astuto. E foi precisamente essa combinação que transformou um condado periférico num reino que dura até hoje.
Manifestis Probatum: Quando o Papa Finalmente Disse "Sim" a Portugal
Imagine que acabou de comprar uma casa. Tem as chaves, mora lá há anos, pagou tudo o que devia, os vizinhos reconhecem que é sua. Mas falta um último documento crucial: a escritura oficial registada em cartório. Sem esse papel, juridicamente a casa ainda não é totalmente, inequivocamente sua. Alguém poderia, em teoria, contestar a propriedade. Essa escritura que falta é o que dá segurança legal definitiva.
Foi precisamente isto que aconteceu com Portugal. Em 1179, trinta e seis anos depois do acordo de Zamora, o Papa Alexandre III emitiu finalmente a bula "Manifestis Probatum" - a escritura oficial, por assim dizer, que transformava Portugal de um facto político e militar numa realidade jurídica internacional plena e inquestionável. Mas porque é que demorou tanto? E porque é que este documento papal era assim tão importante? A resposta revela-nos muito sobre como funcionava a política internacional na Idade Média.
O Problema dos Trinta e Seis Anos
Vamos recapitular rapidamente onde estávamos. Afonso Henriques tinha assumido o poder em 1128 após derrotar a mãe em São Mamede. Em 1139, após a vitória em Ourique, tinha sido aclamado rei pelas suas tropas e começara a usar esse título. Em 1143, em Zamora, o seu primo Afonso VII de Leão e Castela tinha reconhecido esse título e a independência de Portugal.
Parecia tudo resolvido, não era? Portugal era independente, tinha um rei reconhecido pelo vizinho mais poderoso, tinha até declarado vassalagem ao Papa para se proteger de futuras reclamações leonesas. O que mais faltava?
Faltava o reconhecimento formal da Santa Sé. E aqui chegamos a uma realidade fundamental da política medieval: o Papa era a autoridade suprema da Cristandade. Um reino que não fosse reconhecido por Roma era, aos olhos da Europa cristã, juridicamente questionável. Podia existir de facto, mas não de direito.
E o Papa, simplesmente, não estava com pressa de reconhecer Portugal. Porquê? Porque o Papado era uma instituição política complexa que tinha de equilibrar múltiplos interesses. Os reis de Leão e Castela eram importantes aliados da Igreja, contribuintes generosos, defensores da fé na Reconquista. Hostilizá-los reconhecendo formalmente a independência daquele território que eles consideravam parte dos seus domínios não era uma decisão que os Papas tomassem de ânimo leve.
Por isso, durante décadas, a correspondência oficial de Roma tratava Afonso Henriques de formas diplomaticamente ambíguas. Chamavam-lhe "Dux" (duque), ou "Princeps Portucalensium" (príncipe dos portucalenses), ou usavam formulações vagas que evitavam cuidadosamente a palavra "Rex" (rei). Era uma forma elegante de não se comprometer, de manter as opções em aberto, de não antagonizar ninguém.
Para Afonso Henriques, isto deve ter sido extremamente frustrante. Tinha conquistado a independência pela espada, obtido reconhecimento diplomático do primo, oferecido o reino como feudo da Santa Sé. E ainda assim, o Papa recusava-se a chamá-lo oficialmente rei. Era como se todo o seu esforço ficasse incompleto, como se faltasse a validação final e definitiva.
O Que Mudou em 1179?
Então porque é que, em 1179, o Papa Alexandre III decidiu finalmente emitir a bula que reconhecia formalmente Portugal? Várias coisas tinham mudado no contexto peninsular e europeu.
Primeiro, e talvez mais importante, Afonso Henriques tinha provado, ao longo de décadas, que Portugal não era uma aventura passageira ou uma rebelião temporária. Era uma realidade política consolidada, com território expandido (a fronteira tinha avançado de Coimbra até ao Alentejo), com instituições funcionais, com uma identidade própria cada vez mais definida. Não ia desaparecer, gostassem ou não os reis de Leão.
Segundo, os próprios reinos de Leão e Castela tinham passado por transformações. As suas atenções estavam cada vez mais voltadas para as próprias conquistas no sul. A questão de Portugal, embora ainda sensível, já não era a prioridade máxima que fora décadas antes.
Terceiro, Afonso Henriques tinha sido um aliado fiel e útil da Igreja. Tinha conquistado território aos muçulmanos, fundado mosteiros, apoiado a hierarquia eclesiástica portuguesa. Era um rei cristão exemplar, do ponto de vista papal. E a Igreja valorizava esses aliados.
Quarto, havia a questão pragmática da vassalagem. Portugal já se tinha declarado vassalo da Santa Sé em 1143 e comprometido a pagar um tributo anual. Reconhecer formalmente o reino significava aceitar oficialmente essa vassalagem e os benefícios financeiros e políticos que dela decorriam.
Por fim, havia também a hábil diplomacia do Arcebispo de Braga, D. João Peculiar, que tinha atuado durante anos como embaixador informal junto da Cúria Romana, construindo alianças, fazendo pressão nos momentos certos, mantendo a questão portuguesa sempre presente nas discussões em Roma.
Todos estes fatores convergiram em 1179, criando finalmente as condições para que o Papa desse o passo que Afonso Henriques esperava há décadas.
O Conteúdo da Bula: Três Pilares Fundamentais
A bula "Manifestis Probatum" - que significa "manifestamente provado" - começa precisamente por isso: reconhecendo que está provado o esforço de Afonso Henriques na defesa da fé cristã e no combate aos inimigos da Igreja. É uma validação não apenas do título real, mas de toda a ação política e militar do monarca português.
O documento estabelece depois três pilares fundamentais, cada um crucial para compreender o que estava realmente em jogo.
O primeiro pilar é o reconhecimento do título real. O Papa confirma a Afonso Henriques o título de Rex e reconhece o Reino de Portugal com todas as honras e dignidades inerentes. Parece simples, mas tem um significado enorme. A partir daquele momento, qualquer correspondência oficial de Roma trataria Afonso Henriques como rei. Não haveria mais ambiguidades diplomáticas, não haveria mais títulos inferiores. Era o reconhecimento formal, inequívoco, definitivo.
Mas o segundo pilar é, de certa forma, ainda mais importante para o futuro de Portugal: o direito de conquista. A bula confere ao monarca e aos seus herdeiros o direito de conquistar terras aos mouros, e garante-lhes a posse sobre os territórios que conseguissem arrancar "das mãos dos Sarracenos".
Vamos parar um momento para apreciar a importância disto. Na Reconquista, havia constantes disputas entre os reinos cristãos sobre quem tinha direito a conquistar o quê. Os reis de Leão podiam alegar que certo território tradicionalmente pertencera ao reino visigótico que foi seu antecessor, que tinham direito histórico sobre ele. Com esta bula, o Papa estava a dizer: o que Portugal conquistar aos mouros é de Portugal, ponto final. Nenhum outro príncipe cristão pode alegar direitos sobre essas conquistas futuras.
Isto dava a Portugal uma liberdade enorme para expandir para sul sem se preocupar com reclamações leonesas ou castelhanas. Era, de facto, uma autorização papal para construir um reino maior.
O terceiro pilar confirma a vassalagem direta à Santa Sé. O Papa aceita formalmente que Portugal é vassalo direto da Igreja, o que significa que o reino não deve obediência a nenhum outro poder temporal na Península Ibérica. Em troca, o rei compromete-se a pagar um censo anual de dois marcos de ouro, a ser entregue através do Arcebispo de Braga.
Note-se a mudança em relação a 1143: nessa altura, Afonso Henriques tinha oferecido quatro onças de ouro. Agora, em 1179, o tributo era de dois marcos - uma quantia ligeiramente diferente, mas o princípio mantinha-se. Portugal pagava à Igreja, mas não pagava a nenhum rei peninsular. A vassalagem espiritual protegia a soberania temporal.
O Significado Profundo: A Certidão de Nascimento Legal
Os historiadores gostam de chamar à Manifestis Probatum a "certidão de nascimento jurídica" de Portugal, e é uma metáfora perfeita. Tal como uma criança pode existir antes de ter certidão de nascimento, mas precisa desse documento para ter existência legal plena, Portugal existia já de facto há décadas, mas precisava deste documento papal para ter existência jurídica plena no sistema internacional medieval.
O que isto significa na prática é que, a partir de 1179, a independência de Portugal se tornava irrevogável por poderes seculares. Mesmo que, hipoteticamente, um rei de Leão conquistasse Portugal militarmente, não podia simplesmente reabsorvê-lo no seu reino como se fosse um território qualquer. Teria de lidar com o facto de que, aos olhos da Igreja e da Cristandade, Portugal era um reino soberano reconhecido pelo Papa. Violar isso seria violar a autoridade papal, com todas as consequências políticas e espirituais que isso implicava na Idade Média.
A bula validava também a dinastia. Não reconhecia apenas Afonso Henriques pessoalmente, mas estendia o reconhecimento aos seus herdeiros, desde que mantivessem obediência à Igreja. Isto dava estabilidade sucessória ao reino - os filhos e netos de Afonso Henriques herdariam não apenas um território, mas um reino juridicamente reconhecido.
Afonso Henriques: O Velho Rei que Finalmente Viu o Sonho Completo
Há algo profundamente comovente em imaginar Afonso Henriques a receber a notícia da bula papal. Em 1179, o rei tinha já cerca de setenta anos - uma idade muito avançada para a época. Tinha passado a vida inteira a lutar: contra a mãe, contra o primo leonês, contra os mouros, pela independência, pelo reconhecimento, pela expansão territorial.
Cinquenta e um anos depois de derrotar a mãe em São Mamede, quarenta anos depois de ser aclamado rei em Ourique, trinta e seis anos depois do reconhecimento em Zamora, finalmente chegava o reconhecimento papal que completava o puzzle. O projeto que o avô D. Henrique iniciara, que o pai consolidara, que ele transformara em reino, recebia agora o selo definitivo de legitimidade internacional.
Afonso Henriques morreria apenas seis anos depois, em 1185. Mas teve a satisfação de ver, antes de morrer, o seu reino plenamente reconhecido. O filho, Sancho I, não herdaria um condado disputado ou um reino de legitimidade questionável. Herdaria um Reino de Portugal juridicamente consolidado, reconhecido pela maior autoridade da Cristandade, com direito assegurado sobre todas as conquistas futuras.
As Lições de Um Processo de Quarenta Anos
A história que vai de 1143 a 1179 ensina-nos lições importantes sobre como os Estados se consolidam e como funciona o reconhecimento internacional.
Primeira lição: o reconhecimento internacional é um processo, não um evento. Portugal não se tornou independente num único dia. Tornou-se independente através de uma sucessão de passos - vitórias militares, reconhecimento regional, manobras diplomáticas, e finalmente reconhecimento universal. Cada passo foi necessário, cada um preparou o seguinte.
Segunda lição: a paciência estratégica compensa. Afonso Henriques podia ter desistido após anos de ser tratado como "duque" pelo Papa. Podia ter rompido com Roma, podia ter procurado outras formas de legitimação. Em vez disso, manteve a estratégia, continuou a pressionar diplomaticamente, continuou a conquistar território, continuou a provar que Portugal era uma realidade que não ia desaparecer. E a paciência acabou por dar frutos.
Terceira lição: as instituições internacionais movem-se devagar, especialmente quando têm múltiplos interesses a equilibrar. O Papado não estava a ser malicioso ou arbitrário ao demorar décadas a reconhecer Portugal. Estava a gerir uma situação complexa onde tinha de pesar os interesses de múltiplos reinos, manter alianças, evitar conflitos desnecessários. Compreender isto ajuda a perceber porque é que certas coisas demoram tanto tempo.
Quarta lição: o direito internacional medieval era complexo e sofisticado. A forma como Portugal usou a vassalagem à Santa Sé como escudo contra reclamações leonesas, a forma como o Papa equilibrou o reconhecimento com garantias sobre conquistas futuras, a forma como se estabeleceram tributos e obrigações recíprocas - tudo isto revela um sistema legal internacional muito mais desenvolvido do que às vezes imaginamos quando pensamos na Idade Média.
Por Que Celebramos 1143 e Não 1179?
Se a Manifestis Probatum de 1179 foi o reconhecimento jurídico definitivo, porque é que Portugal celebra a sua independência em 1143, a data do Tratado de Zamora?
A resposta tem a ver com o que cada data simboliza. Zamora representa o momento em que Portugal foi reconhecido como reino por outro reino, quando deixou de ser teoricamente vassalo e passou a ser tratado como entidade soberana pelos seus vizinhos peninsulares. Foi quando a independência deixou de ser apenas uma reivindicação unilateral e passou a ser uma realidade diplomática aceite regionalmente.
A Manifestis Probatum foi crucial, mas foi, de certa forma, a confirmação de algo que já existia há décadas. Foi o reconhecimento universal daquilo que Zamora tinha reconhecido regionalmente. Foi o selo final num processo que já estava em curso.
Há também uma razão prática: 1143 é uma data redonda, clara, associada a um evento específico (a conferência de Zamora). 1179 é o culminar de um processo diplomático longo e gradual. Do ponto de vista de construção de narrativa nacional, 1143 funciona melhor como "data de nascimento".
Mas a verdade histórica mais profunda é que Portugal não nasceu numa única data. Nasceu ao longo de décadas, através de múltiplos passos, cada um necessário. São Mamede em 1128 deu-lhe autonomia política. Ourique em 1139 deu-lhe um rei aclamado. Zamora em 1143 deu-lhe reconhecimento regional. Manifestis Probatum em 1179 deu-lhe reconhecimento universal e segurança jurídica definitiva.
Cada momento foi parte da mesma história. E essa história, iniciada há quase novecentos anos, continua até hoje. O Reino de Portugal reconhecido pelo Papa Alexandre III em 1179 é o mesmo Portugal que existe agora, com fronteiras continentais praticamente inalteradas - um feito único na Europa. A certidão de nascimento emitida em Roma naquele longínquo maio de 1179 continua, de certa forma, válida. O reino que ela reconheceu nunca deixou de existir.

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