Paisagens e Cidades históricas de Portugal

Viana do Castelo 

Viana do Castelo: A Capital do Mar e a Alma da Nação Marinheira


Viana do Castelo não é apenas uma cidade no litoral norte de Portugal; é um monumento vivo à persistência, à autonomia e à identidade de um povo que sempre olhou para o horizonte atlântico como o seu verdadeiro destino. Ao contrário de tantas outras urbes europeias que cresceram à sombra de castelos imponentes e sob a proteção (ou opressão) de senhores feudais, Viana nasceu e cresceu "de baixo para cima". É a história de uma comunidade de mareantes e comerciantes que, com o seu próprio esforço, transformou uma pequena foz de rio numa das cidades mais ilustres e cosmopolitas do reino.

1. A Génese da "Viana do Povo"

A fundação oficial de Viana remonta a 1258, pelas mãos do rei D. Afonso III. O monarca, conhecido como "O Bolonhês", tinha uma visão económica aguçada e percebeu que o futuro de Portugal não residia apenas na reconquista terrestre, mas na exploração das rotas marítimas.

Originalmente chamada apenas Viana, a sua localização num sítio então denominado Atrium (lugar de entrada), na margem do rio Lima, era habitada por humildes pescadores. A atribuição do foral não visava criar um reduto militar, mas sim um polo comercial. É por isso que muitos historiadores defendem que o sufixo "do Castelo" é uma adição tardia que quase trai a essência da cidade: Viana nunca foi a cidade de um castelo ou de um alcaide, mas sim a Viana dos homens livres, dos armadores e dos mercadores.

2. O Braço Marítimo de Portugal e o Povoamento do Novo Mundo

Viana do Castelo foi um dos pulmões económicos de Portugal durante os séculos XV e XVI. O seu porto tornou-se um centro nevrálgico de trocas com o Norte da Europa, exportando vinhos, sal e frutas, e importando tecidos da Flandres e cereais.

No entanto, o seu papel histórico mais profundo deu-se na expansão demográfica. Viana foi a grande "mãe" do povoamento do Norte do Brasil. A influência dos minhotos nestas novas terras era tão avassaladora que, nos primeiros tempos da colonização, o grito tradicional de socorro português sofreu uma mutação curiosa. Em momentos de aflição, onde na metrópole se clamava "Aqui d'El-Rei!", nas terras brasileiras gritava-se "Aqui de Viana!". Este grito era o reconhecimento de que a autoridade moral e a presença física naquela vasta região não vinham da coroa distante, mas sim das famílias e dos homens que tinham partido da foz do Lima.

3. O Século XIX: Modernização e a Herança de Eça

A segunda metade do século XIX trouxe a Viana uma nova era de progresso material, consolidando-a como um centro administrativo e portuário de primeira ordem. Durante o reinado de D. Luís, o porto de Viana foi alvo de grandes obras públicas, sendo equiparado em importância estratégica ao Porto de Leixões ou às docas de Lisboa. Foi neste período que a cidade se afirmou como uma infraestrutura moderna, essencial para a economia da Monarquia Constitucional.

Nesta mesma época, Viana cruza-se com a biografia da maior figura do realismo literário português: Eça de Queirós. A mãe do escritor pertencia a uma ilustre família de oficiais de Viana do Castelo. A ligação é, porém, marcada por um drama romântico da época: o nascimento de Eça, na Póvoa de Varzim, teve de ocorrer de forma escondida porque a sua mãe, da conservadora sociedade vianense, não estava oficialmente casada com o pai do escritor na altura. Este contexto de rigidez social e honra familiar é um reflexo das dinâmicas das elites urbanas de Viana no século XIX.

4. Um Património que Respira: Do Renascimento ao Navio Gil Eannes

Caminhar por Viana do Castelo é folhear um álbum de imagens da evolução arquitetónica de Portugal. A cidade soube preservar o seu centro histórico de uma forma que poucas outras conseguiram.

  • A Praça da República: O coração da cidade, onde o Chafariz renascentista e os Antigos Paços do Concelho dialogam. É um espaço que nasceu para o povo; ali se cozia o pão comunitário, reforçando o caráter trabalhador da vila.

  • A Sé Catedral: Um templo do século XV com influências românicas e góticas, testemunha da fé inabalável dos mareantes.

  • O Navio Gil Eannes: Já no século XX, Viana reafirmou a sua vocação oceânica com este navio-hospital. Construído nos estaleiros da cidade, o Gil Eannes foi o anjo da guarda da frota bacalhoeira nos bancos da Terra Nova e da Gronelândia, servindo até como "embaixada" flutuante de Portugal no Brasil em momentos de grande simbolismo diplomático.

5. A Devoção à Senhora da Agonia

Não se pode compreender a alma de Viana sem a Romaria de Nossa Senhora da Agonia. Nascida da angústia das mulheres que esperavam pelos maridos, filhos e pais que enfrentavam as tempestades do Atlântico, esta devoção é o expoente máximo da cultura minhota.

A festa, famosa pelos seus "quadros vivos" de mordomas carregadas de ouro, é mais do que um evento turístico; é um grito de sobrevivência e gratidão. O ouro que as mulheres exibem no peito é o símbolo da poupança e da riqueza conquistada com o suor do mar e da emigração, transformando a agonia em triunfo e celebração.

Personalidades históricas ligadas a Viana do Castelo

Viana do Castelo, a "Princesa do Minho", não é apenas uma das cidades mais belas de Portugal; é um ponto nevrálgico onde a geografia se fundiu com a audácia humana para moldar a identidade nacional e a expansão do mundo. Enquanto outras cidades cresceram à sombra de muros defensivos, Viana cresceu de frente para o Atlântico, fazendo da foz do Rio Lima o seu porto de abrigo e a sua rampa de lançamento para a eternidade.

A sua história não se escreve apenas com nomes de reis, mas com a fibra de navegadores, a fé de santos e o anonimato de milhares de minhotos que levaram o nome de Viana até aos confins do Brasil e às águas geladas do Norte.

1. O Nascimento de uma Estratégia: De D. Afonso III a D. Maria II

A génese de Viana é puramente económica e estratégica. Em 1258, o rei D. Afonso III, "O Bolonhês", concedeu o primeiro foral à povoação, batizando-a como Viana da Foz do Lima. O objetivo era claro: criar um porto que servisse de pulmão comercial ao Norte e garantisse a soberania na foz do rio.

Contudo, o nome que hoje conhecemos, Viana do Castelo, é fruto de uma recompensa real séculos mais tarde. Em 1848, a rainha D. Maria II elevou a vila à categoria de cidade. Este ato não foi meramente formal; foi um reconhecimento da bravura da população e da guarnição do Castelo de Santiago da Barra, que se mantiveram leais à causa constitucional durante as agitações da guerra civil da Patuleia. Viana ganhou o seu título no campo de batalha, provando que a sua alma era tão firme quanto as pedras das suas fortalezas.

2. Os Argonautas de Viana: O Brasil e a Terra Nova

Viana do Castelo foi um dos principais estaleiros e berços de exploradores durante a Epopeia dos Descobrimentos. A cidade deu ao mundo homens que não temiam o desconhecido.

  • João Álvares Fagundes: No século XVI, este navegador vianense explorou as costas da Terra Nova (Canadá), estabelecendo as bases para aquela que viria a ser a grande epopeia da pesca do bacalhau. O seu túmulo, na Igreja Matriz, é um lembrete silencioso da ligação secular de Viana às águas frias do Atlântico Norte.

  • Diogo Álvares Correia (Caramuru): Uma figura mítica do povoamento do Brasil. Naufragado na costa da Bahia em 1509, Caramuru tornou-se o intermediário fundamental entre a coroa portuguesa e os povos indígenas, facilitando a colonização pacífica daquela região através da sua ligação aos Tupinambás.

  • Pero do Campo Tourinho: Outro filho da terra que recebeu de D. João III a Capitania de Porto Seguro, levando consigo famílias vianenses para fundar as bases da civilização luso-brasileira.

Esta ligação ao Brasil foi tão profunda que as fontes históricas registam um fenómeno linguístico fascinante: enquanto em Portugal se gritava "Aqui d'El-Rei" em momentos de aflição, no Norte do Brasil, povoado massivamente por gente do Alto Minho, gritava-se "Aqui de Viana!". Para aqueles colonos, a referência máxima de autoridade e origem não era o trono distante, mas a cidade à beira do Lima.

3. O Porto de Progresso e a Elite de Oitocentos

No século XIX, Viana consolidou o seu papel como polo de modernização. Durante o reinado de D. Luís, a cidade foi palco de grandes obras de engenharia. A construção do Porto de Viana do Castelo foi colocada ao mesmo nível de importância que o Porto de Leixões ou as docas de Lisboa, marcando a entrada definitiva da região na era industrial e do comércio global a vapor.

Foi nesta Viana oitocentista, de burguesia comercial e famílias de oficiais, que se desenrolou parte da trama da vida de Eça de Queirós. A mãe do escritor pertencia a uma destas famílias de prestígio vianenses. O nascimento de Eça, ocorrido de forma quase clandestina na Póvoa de Varzim, deveu-se à rigidez social da época em Viana, onde o facto de os pais ainda não serem casados era visto como uma mácula na honra de uma família de "Oficiais de Viana". Esta ligação literária confere à cidade uma aura de romance e realismo que perdura até hoje.

4. Santidade e Poesia: A Alma Cultural

Viana não viveu apenas do comércio e da guerra. A sua espiritualidade e cultura foram moldadas por figuras de vulto:

  • D. Frei Bartolomeu dos Mártires: O "Arcebispo Santo" que participou no Concílio de Trento e foi uma das vozes mais influentes da Igreja no século XVI. Escolheu o Convento de São Domingos em Viana para passar os seus últimos anos, vivendo em humildade e dedicação aos pobres. A sua canonização em 2019 reafirmou Viana como um centro de irradiação espiritual.

  • Pedro Homem de Melo: O "Poeta de Afife". Embora portuense de nascimento, foi em Viana que encontrou a sua musa. A sua poesia imortalizou o folclore, o Traje à Vianesa e a alma das gentes do mar, tornando-se o bardo oficial das tradições que hoje celebramos na Romaria d'Agonia.

5. A Epopeia do Bacalhau e o Navio Gil Eannes

Até meados do século XX, Viana continuou a ser o braço armado de Portugal no mar. Juntamente com o Porto e Aveiro, a cidade mantinha a frota bacalhoeira que alimentava a nação. As fontes indicam que, em anos de grande atividade, chegavam a sair 60 navios das fozes minhotas rumo à Terra Nova.

O símbolo máximo desta era é o Navio Gil Eannes. Construído nos estaleiros de Viana, serviu de navio-hospital e apoio logístico aos pescadores que passavam meses no gelo. O Gil Eannes, hoje transformado em museu e ancorado na doca comercial, é mais do que um navio; é uma embaixada da memória vianense e um tributo aos heróis anónimos que fizeram do bacalhau o "fiel amigo" da mesa portuguesa.

Pilares Históricos

1. Uma Cidade "De Baixo para Cima"

Viana distingue-se de outras cidades minhotas por não ter nascido à sombra de um senhor feudal, mas sim da atividade comercial.

  • Viana da Foz do Lima: Fundada em 1258 por D. Afonso III, o "Bolonhês", com o objetivo de criar um porto cosmopolita para trocas com o Norte da Europa.

  • Viana do Castelo: O título de "cidade" e o sufixo "do Castelo" foram atribuídos por D. Maria II em 1848, recompensando a lealdade da população à causa constitucional durante a guerra civil.

2. A "Mãe" do Norte do Brasil

Viana foi o principal motor demográfico da colonização do Norte do Brasil, criando uma ligação umbilical que alterou até o vocabulário de socorro.

  • "Aqui de Viana!": O grito de aflição usado no Brasil em vez do oficial "Aqui d'El-Rei", provando que a autoridade e a origem sentida pelos colonos vinham das famílias minhotas e não da coroa.

  • Figuras Chave: Caramuru (Diogo Álvares Correia), o náufrago que facilitou a ligação aos povos indígenas, e Pero do Campo Tourinho, fundador de capitanias, levaram o ADN vianense para o outro lado do Atlântico.

3. O Fiel Amigo e o Anjo da Guarda

A identidade económica de Viana no século XX esteve intrinsecamente ligada às águas geladas do Norte.

  • João Álvares Fagundes: O pioneiro vianense que explorou a Terra Nova ainda no século XVI.

  • Navio Gil Eannes: Construído nos estaleiros locais, este navio-hospital foi o "anjo da guarda" da frota bacalhoeira, prestando assistência médica e apoio logístico aos pescadores nos bancos da Gronelândia.

4. A Agonia que se faz Ouro

A Romaria de Nossa Senhora da Agonia é a síntese da alma vianense.

  • Devoção e Ouro: O ouro exibido pelas mordomas no peito não é apenas vaidade; é a representação da poupança e da segurança conquistada pelos homens no mar e na emigração. É o "ouro de proteção" das famílias de mareantes.

  • Cultura Literária: Viana inspirou o "Poeta de Afife", Pedro Homem de Melo, e marcou a vida de Eça de Queirós, cuja família vianense influenciou o realismo social das suas obras.

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