Paisagens e Cidades históricas de Portugal
Monção
Monção: Sentinela de Honra, Berço de Heroínas e do Alvarinho
Aninhada na margem esquerda do rio Minho, ali onde Portugal espreita a Galiza, a vila de Monção não é apenas um ponto no mapa administrativo do Alto Minho; é um dos pilares da identidade nacional. Através das lentes do saudoso historiador José Hermano Saraiva e da historiografia clássica, Monção surge como uma terra de contrastes: onde a diplomacia mais refinada se cruzou com a guerra mais bruta, e onde o engenho feminino salvou o destino de um reino.
1. A Sentinela do Norte: Onde as Mulheres se Fizeram Soldados
A história de Monção é, indubitavelmente, uma história de resistência fronteiriça. Devido à sua localização geográfica, a vila foi durante séculos a primeira linha de defesa contra as incursões castelhanas. No entanto, o que distingue Monção de outras praças-fortes é o protagonismo das suas mulheres, que assumiram o comando quando o braço masculino fraquejou ou escasseou.
O Pão que Venceu Espadas: Deu-la-Deu Martins
O maior símbolo desta resiliência é Deu-la-Deu Martins. Durante as Guerras Fernandinas, no século XIV, Monção encontrava-se cercada pelo exército de Castela. A fome assolava o interior das muralhas e a rendição parecia inevitável. Foi então que Deu-la-Deu, mulher do capitão da praça, ordenou que se recolhesse a pouca farinha que restava para cozer os últimos pães. Num gesto de audácia psicológica, atirou os pães aos sitiantes das muralhas, gritando: "A vós, que não podendo vencer-nos pela força das armas, nos quisestes vencer pela fome... Deus vos deu, Deus vos dê!"
Acreditando que, se os sitiados podiam desperdiçar pão, a resistência seria eterna, os castelhanos levantaram o cerco. Este episódio não é apenas uma lenda; é o cerne do brasão da vila, onde uma mulher aparece entre torres segurando dois pães.
As Heroínas da Restauração
Séculos mais tarde, em 1658, durante a Guerra da Restauração, o espírito de Deu-la-Deu reencarnou em figuras como Helena Peres. Com os homens ausentes nos campos de batalha, Helena tocou a rebate e liderou um exército de mulheres armadas com foices e chuços, repelindo o invasor. Destaca-se também D. Mariana de Lencastre, que, no comando das baterias de artilharia, demonstrou que a defesa da independência portuguesa em solo monçanense era uma missão de todo um povo, sem distinção de género.
2. A Diplomacia da Ponte do Mouro e a Aliança Inglesa
Se Monção soube ser feroz na guerra, soube também ser sofisticada na paz. Foi nesta região, especificamente na Ponte do Mouro (sobre o rio Mouro, afluente do Minho), que se escreveu um dos capítulos mais determinantes da história europeia.
Em 1386, o Rei D. João I de Portugal encontrou-se com o Duque de Lencastre, pretendente ao trono de Castela. Este encontro não foi apenas uma reunião militar, mas o nascimento da mais antiga aliança diplomática do mundo ainda em vigor: a Aliança Luso-Britânica. Foi aqui que se selaram os termos do casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre.
Deste matrimónio nasceria a "Ínclita Geração", o grupo de príncipes (incluindo o Infante D. Henrique) que catapultaria Portugal para a vanguarda dos Descobrimentos. Monção, portanto, não foi apenas uma sentinela; foi a antecâmara do Portugal global.
3. Identidade Cultural: Entre o Dragão e o Vinho
A alma monçanense é tecida entre o sagrado e o profano, numa simbiose que se manifesta de forma vibrante todos os anos.
A Coca e o Triunfo de São Jorge
Na celebração do Corpo de Deus, Monção revive um combate mítico: a luta entre São Jorge e a Coca. A Coca é um monstro, um dragão de aspeto pré-histórico que simboliza o mal, o pecado e as trevas. No combate encenado, se São Jorge vencer (ferindo a Coca na boca ou cortando-lhe as orelhas), o povo acredita que o ano será de boas colheitas e prosperidade para o vinho Alvarinho. Esta tradição, com raízes no teatro medieval e nas representações bíblicas da vitória de São Miguel sobre Lúcifer, é um dos maiores tesouros do património imaterial português.
O Berço do Alvarinho
Não se pode falar de Monção sem mencionar o Vinho Alvarinho. O microclima único desta região — protegida por montanhas que barram a influência direta dos ventos marítimos — confere à casta Alvarinho uma complexidade e frescura inigualáveis. Embora a sua exploração comercial moderna tenha ganhado fôlego nos anos 30 do século XX, a cultura da vinha é ancestral. O Paço do Alvarinho, no centro da vila, serve hoje como um memorial e centro de promoção desta riqueza que é, simultaneamente, um produto económico e um emblema cultural.
4. Economia de Fronteira: Do Contrabando ao Futuro
A vida na raia sempre exigiu criatividade. Durante décadas, quando as fronteiras eram barreiras rígidas e a pobreza assolava o interior, Monção prosperou através do contrabando.
Este "comércio heroico", como muitos locais o recordam, envolvia a travessia noturna do rio Minho para trocar café, tabaco, ovos e peças de tecido. Mais do que uma atividade ilícita, o contrabando era uma forma de sobrevivência e uma resistência tácita às imposições fiscais e políticas de ambos os lados da fronteira. Criou-se uma cumplicidade profunda entre as gentes das duas margens, que partilhavam a língua, as necessidades e os riscos.
Desafios e Modernidade
O final do século XX trouxe desafios estruturais. O encerramento da linha de caminho de ferro (Linha do Minho) em 1989 foi um golpe na conectividade da vila. Paralelamente, a construção de barragens no rio Minho gerou preocupações ambientais legítimas. Para Monção, o rio não é apenas água; é o regulador do microclima essencial para as suas vinhas e a base do seu ecossistema. A preservação deste equilíbrio é, hoje, a nova "batalha das muralhas".
A arquitetura militar de Monção
A arquitetura militar de Monção é um exemplo fascinante da evolução das artes de fortificação em Portugal, refletindo a transição de um castelo medieval para uma imponente fortaleza abaluartada de estilo moderno.
1. O Castelo Medieval: A Origem de D. Dinis
A primeira grande estrutura defensiva de Monção foi mandada edificar por D. Dinis em 1306. Nesta fase, a arquitetura seguia o modelo gótico:
Muralhas Altas e Estreitas: Projetadas para dificultar a escalada e oferecer uma vantagem de altura aos arqueiros.
Torre de Menagem: O último reduto de defesa e residência do alcaide.
Barbacã: Uma ante-muralha mais baixa que protegia os portões principais. Foi nestas muralhas medievais que, segundo a lenda, Deu-la-Deu Martins enfrentou os castelhanos. No entanto, com a invenção da artilharia (canhões), estas estruturas tornaram-se vulneráveis, pois as torres altas eram alvos fáceis e as muralhas finas não resistiam ao impacto das balas de canhão.
2. A Fortaleza Abaluartada (Século XVII)
O que vemos hoje em Monção é, na sua maioria, a fortificação construída durante a Guerra da Restauração (1640-1668). Para responder ao poder de fogo dos canhões, a vila foi dotada de um sistema "à moderna" ou de estilo Vauban.
Características Principais:
Planta Irregular (Poligonal): A fortaleza foi adaptada à topografia do terreno sobre o rio Minho, assumindo uma forma de estrela irregular.
Baluartes: São aquelas saliências em forma de ponta de flecha que permitem o "fogo cruzado". Nenhum inimigo conseguia aproximar-se da muralha sem estar no campo de visão de, pelo menos, dois baluartes.
Cortinas e Revelins: As cortinas são os lances de muralha retos entre os baluartes. À frente das portas principais, foram construídos revelins (ilhas defensivas triangulares) para proteger a entrada e dividir o exército atacante.
Muralhas Baixas e Espessas: Ao contrário do castelo medieval, estas muralhas são baixas para oferecer menos alvo e extremamente largas, preenchidas com terra e entulho para absorver a energia dos impactos da artilharia.
3. As Portas de Monção: Pontos de Ligação
A fortaleza possuía várias portas estratégicas que ainda hoje podem ser visitadas:
Portas de Salvaterra: Voltadas para o rio e para a localidade galega de Salvaterra de Miño, eram cruciais para o controlo do tráfego fluvial.
Portas do Sol: Orientadas a nascente, por onde entrava a primeira luz do dia e o comércio vindo do interior do Minho.
Portas de São Bento: Uma das entradas principais, preservando a imponência da cantaria de pedra.
4. O Fosso e a Contraescarpa
Para além das muralhas, o sistema defensivo incluía um fosso profundo. Este não servia apenas como obstáculo físico, mas criava uma zona de "morte" onde os atacantes ficavam expostos ao fogo dos mosquetes e canhões instalados nos baluartes superiores.
Pilares Históricos
1. O Heroísmo Feminino e a Resistência
Monção distingue-se por uma narrativa onde as mulheres foram as principais guardiãs da fronteira.
Deu-la-Deu Martins: A figura central da vila. No século XIV, utilizou o engenho psicológico — atirando pães aos castelhanos para simular abundância — para levantar um cerco que parecia perdido pela fome.
As Heroínas da Restauração: Figuras como Helena Peres e Mariana de Lencastre continuaram este legado no século XVII, liderando milícias femininas e operando artilharia para defender a independência nacional.
2. A Ponte do Mouro: O Berço da Diplomacia Mundial
Em 1386, Monção foi o cenário de um dos encontros mais importantes da história europeia.
A Aliança Luso-Britânica: Na Ponte do Mouro, D. João I e o Duque de Lencastre selaram a aliança diplomática mais antiga do mundo ainda em vigor.
D. Filipa de Lencastre: O casamento aqui acordado deu origem à "Ínclita Geração", os príncipes que iniciariam a Era dos Descobrimentos.
3. Património Imaterial e Vinícola
O Combate da Coca: Uma tradição medieval onde São Jorge defronta um dragão (a Coca). A vitória do santo é vista como um presságio de boas colheitas para o ano.
Vinho Alvarinho: Monção (junto com Melgaço) possui um microclima único que produz um dos vinhos brancos mais prestigiados do mundo. O Paço do Alvarinho é o monumento vivo a esta cultura.
4. A Fortaleza: De D. Dinis ao Estilo Vauban
A arquitetura militar de Monção é uma lição de evolução defensiva:
Gótico (D. Dinis): Muralhas altas e torres de menagem para a defesa medieval.
Abaluartado (Século XVII): Adaptação à artilharia com muralhas baixas e largas, baluartes em forma de estrela (estilo Vauban) e revelins para fogo cruzado. As Portas de Salvaterra simbolizam a vigilância constante sobre o rio e a Galiza.

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