Paisagens e Cidades históricas de Portugal

Melgaço

Melgaço: A Sentinela de Granito no Topo de Portugal


Se Monção é a terra das mulheres de armas, Melgaço é a sentinela silenciosa que ocupa o vértice mais setentrional de Portugal. Situada num anfiteatro natural sobre o rio Minho, a vila de Melgaço desempenhou, ao longo de quase nove séculos, o papel de guardiã da porta de entrada do território nacional. A sua história é uma narrativa de isolamento geográfico transformado em força estratégica, onde a dureza do granito das suas muralhas reflete a resiliência das gentes da raia.

1. O Ponto de Encontro da História: A Passagem do Duque

Como mencionado nos registos históricos da Ponte do Mouro (1386), Melgaço era o eixo de ligação para quem vinha da Galiza em direção ao coração de Portugal. Quando o Duque de Lencastre atravessou a fronteira para se encontrar com D. João I, o mestre de Avis, ele não escolheu este caminho por acaso. Melgaço era a chave de acesso.

Este encontro na Ponte do Mouro, tecnicamente situada entre Monção e Melgaço, foi o momento em que Portugal deixou de ser apenas um reino isolado para se tornar um parceiro da maior potência marítima da época: a Inglaterra. Melgaço serviu de bastidor para este casamento que deu origem à "Ínclita Geração".

2. A Fortaleza de D. Afonso Henriques

A importância de Melgaço foi compreendida logo no nascimento da nacionalidade. Foi o primeiro rei, D. Afonso Henriques, quem ordenou a construção do castelo em 1170.

A Arquitetura da Sobrevivência

Diferente das fortalezas abaluartadas que vemos em Valença, o castelo de Melgaço mantém uma aura profundamente medieval. A sua Torre de Menagem, isolada no centro da praça de armas, é um exemplo clássico da arquitetura militar românica e gótica. As muralhas, que outrora abraçavam toda a vila, foram desenhadas para resistir a cercos prolongados num tempo em que a guerra se fazia corpo a corpo.

Hoje, a Torre de Menagem alberga um museu histórico, mas a sua verdadeira função era ser o último reduto. Se as muralhas externas caíssem, os defensores refugiavam-se na torre, cujas portas eram elevadas, tornando-a quase inacessível.

3. A Lenda da Inês Negra: O Duelo das Mulheres

Tal como em Monção existe Deu-la-Deu, em Melgaço a memória popular é dominada pela figura da Inês Negra. Durante as crises de sucessão de 1383-1385, Melgaço estava ocupada por tropas favoráveis a Castela. D. João I cercou a vila para a recuperar.

Diz a lenda que, para evitar mais derramamento de sangue entre os exércitos, o destino da vila foi decidido num duelo singular entre duas mulheres: uma "Arrenegada" (que lutava pelo lado castelhano) e a Inês Negra (ferrenha defensora da causa portuguesa). Após um combate feroz de unhas e dentes, Inês Negra saiu vitoriosa, forçando a rendição dos ocupantes. Esta história reforça o arquétipo da mulher minhota — forte, independente e decisiva nos momentos de crise nacional.

4. O Rio Minho e a Cultura da Raia

A identidade de Melgaço não se explica sem o rio Minho. Historicamente, o rio foi tanto uma barreira defensiva como uma estrada comercial.

O Contrabando e a Sobrevivência

Durante os anos de ditadura e isolamento económico no século XX, Melgaço, tal como Monção, viveu do "salto". O contrabando não era visto como um crime, mas como um ato de resistência e sobrevivência. O café, o açúcar e o bacalhau atravessavam o rio na calada da noite, criando laços de sangue e de negócio com os vizinhos galegos que as leis de Lisboa e Madrid não conseguiam quebrar.

O Destino da Emigração

Melgaço é também um símbolo da diáspora portuguesa. A vila possui um dos museus mais tocantes do país: o Espaço Memória e Fronteira. Este local documenta a história da emigração (muitas vezes clandestina) para França e para o Brasil. Para muitos melgacenses, a fronteira não era apenas o rio Minho, mas a linha que separava a pobreza do sonho de uma vida melhor na Europa central.

5. O Património Gastronómico e Natural

Integrada no Parque Nacional da Peneda-Gerês nas suas cotas mais altas (Castro Laboreiro), Melgaço oferece um microclima que produz um dos melhores vinhos Alvarinhos do mundo.

  • Alvarinho de Melgaço: Enquanto Monção partilha a denominação, o Alvarinho de Melgaço é frequentemente descrito como tendo uma mineralidade mais acentuada, fruto dos solos graníticos e da maior altitude.

  • Castro Laboreiro: Uma aldeia histórica dentro do concelho que possui uma raça de cães própria (Cão de Castro Laboreiro) e um sistema de transumância (as "brandas" e as "inverneiras") que é único na Europa, onde as populações mudavam de casa conforme a estação do ano para proteger o gado do frio.

Pilares Históricos

1. A Guardiã de Granito (Vértice Norte)

Melgaço é a porta de entrada de Portugal pelo Norte. Fundada por D. Afonso Henriques em 1170, a vila foi desenhada para ser o primeiro obstáculo a qualquer invasão vinda da Galiza.

  • O Castelo: Ao contrário das fortalezas modernas, Melgaço preserva a sua identidade medieval com uma Torre de Menagem isolada, símbolo da arquitetura militar românica e gótica.

2. Inês Negra: A Força da Identidade

A história da vila é marcada pelo duelo épico de 1383-1385.

  • O Duelo das Mulheres: Para evitar um massacre entre exércitos, a independência de Melgaço foi decidida num combate entre a Inês Negra (portuguesa) e a "Arrenegada" (castelhana). A vitória de Inês tornou-se o símbolo da resiliência feminina na raia.

3. A Cultura da Raia: Salto, Café e Memória

A vida em Melgaço foi moldada pela proximidade do Rio Minho e pela necessidade de sobrevivência.

  • O Contrabando: O "comércio do salto" (café, açúcar, bacalhau) foi um ato de resistência económica durante o século XX.

  • Emigração: O Espaço Memória e Fronteira é um museu único que documenta a dor e a esperança das rotas de emigração clandestina para França.

4. Castro Laboreiro e a Natureza Selvagem

No topo das serras, Melgaço guarda segredos ancestrais:

  • Transumância: As Brandas (verão) e as Inverneiras (inverno) formam um sistema de habitação sazonal raro na Europa.

  • Património Vivo: O Cão de Castro Laboreiro, guardião de gado, é uma raça autóctone que personifica a rusticidade da região.

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