Paisagens e Cidades históricas de Portugal

Guimarães 

Guimarães: O Épico Berço da Identidade Portuguesa


Dizer que Guimarães é o "Berço da Nação" não é apenas um recurso retórico ou um slogan turístico; é o reconhecimento de que, sem este território encravado entre as bacias do Ave e do Vizela, a ideia de Portugal provavelmente nunca teria passado de um sonho fragmentado de barões revoltosos. Guimarães é o local onde a vontade política se tornou soberania e onde o sangue derramado no campo de batalha deu origem à fronteira mais antiga da Europa.

1. Mumadona Dias: A Mulher que Edificou o Futuro

A história de Guimarães não começa com um rei, mas com uma mulher de poder excecional no século X: a Condessa Mumadona Dias. Cerca de 950 d.C., num período em que a Península Ibérica era fustigada por incursões normandas a norte e ataques sarracenos a sul, Mumadona tomou uma decisão fundacional.

Viúva do Conde Hermenegildo Gonçalves, ela fundou no seu domínio de Vimaranes um mosteiro dúplice. Para proteger os religiosos e a população que se aglomerava em redor deste centro espiritual, mandou construir um castelo. Foi este ato de planeamento urbano e militar que criou o polo de atração para a nobreza portucalense. O Castelo de Guimarães, que hoje admiramos com as suas torres quadrangulares, nasceu desta necessidade de defesa de um mosteiro, tornando-se, séculos depois, a residência oficial do Conde D. Henrique e de D. Teresa.

2. São Mamede: O Parto da Independência

O dia 24 de junho de 1128 é, talvez, a data mais importante da cronologia portuguesa. Foi no Campo de São Mamede, junto às muralhas de Guimarães, que se deu o confronto fratricida entre o jovem Afonso Henriques e as tropas da sua mãe, D. Teresa, apoiada pelos nobres galegos da casa de Trava.

Mais do que uma disputa familiar, esta batalha foi uma revolução da nobreza local ("os barões portucalenses") contra a influência estrangeira que ameaçava absorver o condado na órbita galega. A vitória de Afonso Henriques permitiu-lhe assumir o governo do Condado Portucalense e iniciar o processo de autonomia. É por este motivo que a cidade ostenta com orgulho a inscrição "Aqui Nasceu Portugal". Embora Coimbra tenha sido mais tarde a capital estratégica para a Reconquista, foi em Guimarães que a consciência nacional despertou.

3. A Lenda e a Ética de Egas Moniz

A importância de Guimarães na história é também feita de mitos que moldaram o caráter nacional. Um dos episódios mais célebres é o do cerco imposto por Afonso VII de Leão. Encurralado no castelo, o jovem Afonso Henriques viu-se em situação desesperada. O seu aio, Egas Moniz, negociou o levantamento do cerco prometendo que o pupilo prestaria vassalagem ao rei leonês.

Quando, mais tarde, o príncipe recusou cumprir o acordo, Egas Moniz protagonizou um dos atos de honra mais narrados da nossa história: apresentou-se no acampamento do rei de Leão, acompanhado pela mulher e filhos, descalço e com uma corda ao pescoço, oferecendo a sua vida para pagar a palavra empenhada e não cumprida pelo seu senhor. Embora historiadores modernos debatam a veracidade literal deste evento, a sua presença na memória de Guimarães reforça o estatuto da cidade como um lugar onde a palavra e a honra ajudaram a forjar o destino de um povo.

4. O Coração de Pedra: Património e Evolução Urbana

Guimarães conseguiu um feito raro: modernizar-se sem trair o seu passado medieval. O seu centro histórico, classificado como Património Mundial pela UNESCO, é uma lição viva de arquitetura e urbanismo.

O Paço dos Duques de Bragança

Construído no século XV por D. Afonso, filho bastardo de D. João I, este palácio é um exemplar único na Península Ibérica, com as suas inúmeras chaminés cilíndricas e telhados de forte inclinação, revelando uma influência da arquitetura senhorial da Europa do Norte (Borgonha). Foi aqui que se consolidou uma das casas nobres mais poderosas da Europa, que viria a reinar em Portugal a partir de 1640.

A Igreja de Nossa Senhora da Oliveira

Este é o coração espiritual da cidade. Reformada por D. João I após a vitória em Aljubarrota, a igreja é um monumento de gratidão nacional. O famoso "Padrão do Salado", um alpendre gótico situado em frente à igreja, comemora a vitória luso-castelhana sobre os mouros na Batalha do Salado em 1340, sublinhando que Guimarães esteve sempre ligada aos grandes momentos da afirmação cristã na península.

5. Raízes Profundas: Da Idade do Ferro à Idade Média

Para compreender totalmente Guimarães, é necessário olhar para além das suas muralhas medievais. A região é o centro da cultura castreja no noroeste peninsular. A escassos quilómetros do centro, a Citânia de Briteiros revela que a ocupação humana organizada e a resistência à ocupação romana já eram traços distintivos desta gente desde a Idade do Ferro. O trabalho do arqueólogo Martins Sarmento no século XIX foi fundamental para ligar o orgulho da cidade medieval às suas raízes pré-históricas, mostrando que a "Terra de Portugal" já era um polo de civilização muito antes de Mumadona ou Afonso Henriques.

O Panteão de Guimarães: As Figuras que Forjaram o Destino de Portugal 

Guimarães não é apenas um conjunto de muralhas e praças medievais; é a biografia de um povo escrita através das ações de homens e mulheres extraordinários. Falar desta cidade é convocar os fantasmas dos heróis, estrategas e intelectuais que, desde o século IX, decidiram que este território entre os rios Ave e Vizela seria o coração de uma nova nação. A história de Guimarães divide-se em três grandes eras: a da fundação e independência, a das crises dinásticas e a do renascimento cultural.

1. Os Arquitetos da Independência (Séculos IX-XII)

A árvore genealógica de Portugal tem as suas raízes mais profundas em Guimarães, alimentada por figuras que personificam a transição do domínio feudal para a soberania real.

Vímara Peres: O Nome da Terra

Antes de haver um castelo, havia um homem. No século IX, o nobre Vímara Peres foi o responsável pela presúria (repovoamento) da região. O nome da cidade, originalmente Vimaranes, significa literalmente "a terra de Vímara". Ele lançou a semente administrativa que permitiria, séculos mais tarde, o florescimento de uma corte.

Mumadona Dias: A Matriarca Fundadora

Se Guimarães existe como núcleo urbano, deve-o a Dona Mumadona Dias. No século X, ela era a mulher mais poderosa do Noroeste Peninsular. Num ato de visão estratégica e religiosa, fundou o Mosteiro de Guimarães e, para o proteger das incursões de vikings e mouros, mandou erguer o castelo original. Guimarães nasceu deste binómio: o espírito (mosteiro) e a força (castelo).

D. Afonso Henriques: O Conquistador

A figura central da cidade é, inevitavelmente, o primeiro rei de Portugal. Guimarães foi o seu quartel-general e o palco da Batalha de São Mamede (1128). Ao derrotar as tropas da sua própria mãe, D. Teresa, Afonso Henriques não estava apenas a resolver um conflito familiar; estava a expulsar a influência galega e a assumir as rédeas do Condado Portucalense. A estátua de Soares dos Reis (1887), que o representa com espada e escudo, é o ícone máximo desta vontade de independência.

Egas Moniz: O Mestre da Honra

A completar esta tríade inicial está Egas Moniz, o aio do rei. A sua importância reside na ética cavaleiresca que ajudou a definir a honra portuguesa. A lenda de se apresentar ao Rei de Leão com uma corda ao pescoço para pagar com a vida a promessa de vassalagem quebrada pelo seu pupilo é um dos pilares morais da identidade de Guimarães: uma terra onde a palavra vale mais do que o sangue.

2. Resistência e Nobreza (Séculos XIV-XV)

Após a independência, Guimarães continuou a ser um centro de poder e de resistência, mesmo quando as capitais se deslocaram para Sul.

Aires Gonçalves de Figueiredo: O Cavaleiro da Resistência

Durante a crise de sucessão de 1383-1385, Guimarães viveu um momento de tensão dramática. Ao contrário de Lisboa, a cidade estava pelo partido de D. Beatriz. Quando D. João I, o Mestre de Avis, tentou tomar a cidade, encontrou a oposição feroz de Aires Gonçalves de Figueiredo. Este cavaleiro defendeu o castelo com tal bravura que o futuro rei teve de travar combates de rua antes de conseguir a rendição da cidade. Este episódio sublinha que os vimaranenses sempre foram ciosos da sua autonomia, mesmo perante novos reis.

D. Afonso, Duque de Bragança

No século XV, a cidade viu nascer um novo símbolo de poder: o Paço dos Duques. D. Afonso, filho bastardo de D. João I, foi o responsável pela construção deste palácio de inspiração borgonhesa. Ao estabelecer aqui a sua residência, deu início à linhagem da Casa de Bragança, a dinastia que viria a governar Portugal a partir de 1640.

3. O Despertar da Memória (Séculos XIX-XX)

No período moderno, Guimarães deixou de fabricar reis para passar a fabricar História e Arqueologia, preservando o que os antigos tinham construído.

Martins Sarmento: O Caçador de Passado

Francisco Martins Sarmento foi o homem que deu profundidade histórica à região. Arqueólogo de renome internacional, dedicou-se ao estudo da Citânia de Briteiros. Através das suas escavações, provou que a importância de Guimarães era muito anterior à fundação do reino, remontando às comunidades castrejas da Idade do Ferro. A sua dedicação permitiu que Guimarães compreendesse as suas raízes pré-históricas.

Alberto Sampaio: O Guardião da Identidade

O historiador Alberto Sampaio foi fundamental para a compreensão social e económica do Minho. O seu trabalho meticuloso sobre as origens da nacionalidade e a vida rural permitiu uma visão científica do passado. Hoje, o museu que leva o seu nome, situado no antigo mosteiro fundado por Mumadona, guarda tesouros como o loudel (túnica) de D. João I usado em Aljubarrota, unindo a arte à história de forma magistral.

Conclusão: Uma Cidade Feita de Gente

Guimarães é um palimpsesto onde as vidas destas personagens se sobrepõem. Das decisões monásticas de Mumadona à espada de Afonso Henriques, passando pelo rigor científico de Martins Sarmento, cada figura contribuiu para que a inscrição "Aqui Nasceu Portugal" fosse mais do que uma frase — fosse uma verdade absoluta gravada na pedra e na memória.

Pilares Históricos

1. A Fundação: O Legado de Mumadona Dias

Guimarães nasceu no século X da visão estratégica da Condessa Mumadona Dias. Ao fundar um mosteiro e construir um castelo para o proteger, ela criou o polo de atração que unificou a nobreza portucalense e lançou as bases da futura corte.

2. A Independência: São Mamede e Afonso Henriques

O dia 24 de junho de 1128 marca o nascimento político de Portugal. No Campo de São Mamede, D. Afonso Henriques derrotou a influência galega de sua mãe, D. Teresa, assumindo a soberania do Condado Portucalense. A estátua do Conquistador e a inscrição "Aqui Nasceu Portugal" imortalizam este triunfo.

3. A Ética e a Honra: Egas Moniz

A alma de Guimarães é moldada pelo mito de Egas Moniz. O seu ato de se apresentar ao Rei de Leão com uma corda ao pescoço para pagar pela palavra quebrada do seu senhor tornou-se um dos pilares morais da nação, definindo Guimarães como um lugar onde a honra prevalece sobre a vida.

4. Património e Poder: Do Paço à Oliveira

  • Paço dos Duques de Bragança: Um exemplar único de arquitetura borgonhesa no Sul da Europa, símbolo da ascensão da Casa de Bragança.

  • Igreja de Nossa Senhora da Oliveira: O coração espiritual, ligado à vitória de Aljubarrota e ao Padrão do Salado.

  • Citânia de Briteiros: O elo com a cultura castreja da Idade do Ferro, provando que a região era um centro civilizacional milénios antes do reino.

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