Paisagens e Cidades históricas de Portugal
Braga
Braga: A Cabeça de Portugal
Na geografia simbólica da nação portuguesa, existe uma metáfora clássica que define a hierarquia das suas cidades: se o Sul e Lisboa representam o estômago que consome e administra, e o Porto é o coração que pulsa o trabalho e o comércio, Braga é, indiscutivelmente, a cabeça. Esta distinção não é meramente poética; reflete o papel de Braga como o centro intelectual, espiritual e político que, desde a Antiguidade Romana, pensou e estruturou o que viria a ser Portugal.
Com mais de dois mil anos de história ininterrupta, Braga não é apenas uma cidade de monumentos; é um organismo vivo que assistiu ao nascimento de reinos, ao batismo de nações e à resistência de um povo que nunca abdicou da sua identidade.
1. Bracara Augusta: A Capital da Fé e do Conhecimento
Braga é apresentada como a cidade mais antiga de Portugal no que diz respeito à continuidade da vida urbana organizada. Fundada pelos Romanos como Bracara Augusta, foi o centro administrativo de uma vasta província. No entanto, o seu verdadeiro poder consolidou-se quando as legiões deram lugar aos bispos.
O Reino dos Suevos e São Martinho de Dume
Após a queda do Império Romano, Braga tornou-se a capital do Reino dos Suevos. Foi neste período que surgiu a figura colossal de São Martinho de Dume. Um teólogo europeu de vasta cultura, Martinho não se limitou à vida contemplativa no cenóbio de Dume; ele converteu o rei suevo ao catolicismo e organizou a diocese com uma visão moderna. A sua obra, De Correctione Rusticorum, é um dos primeiros documentos de sociologia e pedagogia da Europa, visando corrigir as práticas pagãs da população rural e unificar o pensamento cristão.
Este legado transformou a Arquidiocese de Braga numa das mais poderosas da Cristandade, exercendo jurisdição sobre territórios que hoje abrangem várias dioceses (incluindo Miranda) e consolidando o título de "Primaz das Espanhas".
2. A "Certidão de Nascimento" de Portugal
Se Guimarães é o berço onde o primeiro rei nasceu, Braga é o local onde se assinou a "certidão de nascimento" política de Portugal. A história nacional foi decidida nos corredores do poder eclesiástico de Braga.
O Pacto de Paio Mendes
A fundação de Portugal não foi apenas um ato de bravura militar, mas um pacto de inteligência. As fontes históricas identificam um documento decisivo: um pacto conspiratório entre o jovem Infante D. Afonso Henriques e o Arcebispo D. Paio Mendes. Na véspera da Batalha de São Mamede, o arcebispo comprometeu-se a apoiar financeiramente e politicamente a causa do Infante contra a sua mãe, D. Teresa, e os nobres galegos. Em troca, o novo governo reconheceria os privilégios da Sé. Sem o apoio de Braga, o Condado Portucalense dificilmente se teria tornado um reino independente.
Esta ligação umbilical entre a fundação e a cidade é visível na própria Sé Catedral, onde repousam os túmulos do Conde D. Henrique e da Condessa D. Teresa, os pais do fundador da nação, marcando a cidade como o panteão dos precursores.
3. Tesouros que Unem Continentes e Épocas
O arquivo e o tesouro da Sé de Braga são dos mais ilustres da Europa, contendo relíquias que atravessam milénios.
O Liber Fidei (Livro da Fé): Este cartulário é considerado um dos livros mais importantes de Portugal. Contém documentos cruciais que datam de 572 d.C., servindo de memória jurídica e espiritual do Noroeste Peninsular.
A Cruz da Primeira Missa no Brasil: Segundo a tradição local, a cruz de ferro utilizada na primeira missa celebrada no Brasil pela armada de Pedro Álvares Cabral em 1500 pertencia ao tesouro da Sé de Braga. Levada por missionários que partiram com a frota, este objeto simboliza o papel de Braga como exportadora de fé e cultura para o Novo Mundo.
D. Lourenço e Aljubarrota: Braga também deu ao país prelados guerreiros. O Arcebispo D. Lourenço é recordado pela sua bravura na Batalha de Aljubarrota (1385). Reza a tradição que lutou contra os castelhanos usando um elmo com uma fenda onde guardava uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré, unindo a força do braço à proteção divina.
4. O Espírito Revolucionário: Maria da Fonte
No século XIX, Braga provou que não era apenas uma cidade de clérigos e nobres, mas também de um povo indomável. Foi o palco principal da revolta da Maria da Fonte, um movimento popular liderado por mulheres e camponeses contra as reformas centralizadoras do governo de Costa Cabral.
Quando a revolta atingiu as portas de Braga, aconteceu um fenómeno raro na história militar: o exército enviado para reprimir os amotinados recusou-se a disparar contra as mulheres e os lavradores que protestavam. Este ato de solidariedade popular e militar em Braga foi o golpe final que levou à queda do governo cabralista, reafirmando a cidade como um polo de resistência às imposições que feriam os costumes tradicionais.
5. De Capital Teológica a Cidade da Juventude
Historicamente, Braga sempre foi um centro de saber. Muito antes da universidade moderna, a cidade já era uma "capital intelectual" onde bispos e teólogos (como o Bispo Paterno, envolvido na complexa controvérsia Priscilianista) debatiam o destino da Europa.
Hoje, Braga vive um renascimento vibrante. A presença de uma universidade jovem e dinâmica transformou o ambiente da cidade. Braga é atualmente conhecida como a "Cidade da Juventude", onde a densidade populacional jovem é das mais altas da Europa. Esta energia estudantil funde-se perfeitamente com o cenário barroco da cidade, provando que Braga sabe envelhecer sem perder a vitalidade da "cabeça" que continua a pensar o futuro de Portugal.
Figuras marcantes
Braga não é apenas uma cidade; é um palimpsesto onde se sobrepõem as camadas mais profundas da identidade portuguesa. Se Guimarães é o berço e o Porto é o coração, Braga é, por direito próprio, a "Cabeça de Portugal". Esta metáfora ilustra a sua função como centro de pensamento, autoridade religiosa e decisão política que, desde a Antiguidade Romana até às revoluções do século XX, ditou o destino da nação.
A história de Braga é povoada por figuras que não pertencem apenas ao plano local, mas que são os verdadeiros arquitetos da portugalidade.
1. Bracara Augusta e o Legado Civilizador de São Martinho
Braga começa como a capital da Galécia Romana, Bracara Augusta, um centro administrativo de importância europeia. Contudo, a sua verdadeira alma foi esculpida no século VI, no período suevo, por uma das figuras mais cultas da Idade Média: São Martinho de Dume.
Vindo da Panónia (atual Hungria), Martinho foi o "Apóstolo dos Suevos". Ele não se limitou a converter o rei e o povo ao catolicismo; ele organizou a diocese, fundou mosteiros e escreveu obras fundamentais como De Correctione Rusticorum. Martinho de Dume foi a ponte entre a cultura clássica romana e a nova ordem cristã, transformando Braga numa autoridade eclesiástica tão vasta que, originalmente, o seu poder se estendia por grande parte da Península Ibérica.
2. O Nascimento do Reino: O Pacto de Paio Mendes
A fundação de Portugal é frequentemente contada através de batalhas, mas o seu "ato de nascimento" documental reside em Braga. No centro desta narrativa está o Arcebispo D. Paio Mendes.
Antes da Batalha de São Mamede em 1128, deu-se um pacto conspiratório entre o jovem Infante D. Afonso Henriques e o Arcebispo. Este documento, preservado no célebre Liber Fidei (Livro da Fé) da Sé de Braga, é considerado a verdadeira "certidão de nascimento" da nação. Nele, a Igreja de Braga comprometia-se a apoiar a causa autonomista do Infante contra a influência galega da sua mãe, D. Teresa. Em troca, Afonso Henriques garantia privilégios à arquidiocese. Sem este apoio financeiro e diplomático da "Cabeça de Portugal", o braço armado de Afonso Henriques dificilmente teria vencido.
A ligação da fundação do país a Braga é física e eterna: é na Sé Catedral de Braga que repousam os túmulos do Conde D. Henrique e de D. Teresa, os pais do primeiro rei, marcando a cidade como o panteão dos fundadores do Condado Portucalense.
3. Guerreiros e Templários: Gualdim Pais e D. Lourenço
A história de Braga também se escreveu com o ferro das espadas. A cidade foi o berço de Gualdim Pais, o lendário Mestre da Ordem dos Templários em Portugal. Nascido em Braga, Gualdim Pais foi o braço direito de D. Afonso Henriques e o fundador de castelos icónicos como Tomar e Almourol. Ele representa a simbiose entre a fé bracarense e o espírito de conquista que expandiu as fronteiras do reino.
Séculos mais tarde, na crise de 1383-1385, surge outra figura imponente: o Arcebispo D. Lourenço (Gonçalo Pereira). Este "prelado guerreiro" não se limitou às orações; combateu na Batalha de Aljubarrota ao lado de Nuno Álvares Pereira (de quem era avô). A tradição narra que D. Lourenço combatia com um elmo que continha uma imagem de Nossa Senhora, personificando a autoridade de Braga que, quando necessário, trocava o báculo pela lança para defender a independência nacional.
4. Renascimento e Urbanismo: D. Diogo de Sousa
No século XVI, Braga sofreu uma transformação que ainda hoje define o seu centro histórico, graças ao Arcebispo D. Diogo de Sousa. Inspirado pelo Renascimento que via noutras partes da Europa, D. Diogo foi o grande modernizador da cidade. Abriu praças, traçou novas ruas e mandou construir edifícios que romperam com a estrutura medieval apertada. Foi sob a sua égide que Braga começou a assemelhar-se à "Roma Portuguesa", um título que seria reforçado no período barroco. O seu legado é preservado hoje no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, um dos mais importantes do país.
5. Revoluções e Resistência Popular: Da Maria da Fonte ao 28 de Maio
A importância política de Braga estendeu-se até à era moderna, sendo o rastilho para movimentos que mudaram o regime de Portugal.
A Maria da Fonte
No século XIX, Braga foi um foco central da revolta da Maria da Fonte. Quando o movimento popular contra o governo de Costa Cabral chegou à cidade, assistiu-se a um momento histórico: o exército recusou-se a disparar contra as mulheres e camponeses minhotos. Esta recusa das tropas em Braga foi o fator decisivo para a queda do governo, provando que o poder em Braga tinha raízes profundas no povo.
O 28 de Maio de 1926
Já no século XX, Braga voltou a ser o palco da mudança de regime. Foi aqui que o General Gomes da Costa iniciou o movimento militar de 28 de Maio de 1926. A revolta partiu de Braga em direção a Lisboa, pondo fim à Primeira República e instaurando a Ditadura Militar que daria origem ao Estado Novo. Este evento sublinha que Braga continuava a ser a "cabeça" onde se iniciavam os movimentos que reorganizavam o corpo político da nação.
6. Curiosidades e Ligações Transatlânticas
A influência de Braga cruzou o oceano. Segundo a tradição, a cruz de ferro utilizada na primeira missa celebrada no Brasil por Pedro Álvares Cabral pertencia ao tesouro da Sé de Braga. Este facto, embora por vezes debatido, reforça o papel da cidade como a fonte primordial da expansão da fé e da cultura portuguesa no mundo.
Além disso, a cidade é rica em lendas, como a de São Pedro de Ratos, o suposto primeiro bispo de Braga ordenado pelo próprio apóstolo Santiago, ou a figura enigmática de Prisciliano, cujas doutrinas agitaram o clero bracarense no século IV, mostrando que Braga foi sempre um local de intenso debate intelectual e teológico.
A alma do Barroco em Braga
A arquitetura de André Soares (1720-1769) é a alma do Barroco em Braga. Enquanto noutras cidades europeias o Barroco se manifestava de forma mais contida ou académica, em Braga, graças ao génio de Soares, ele atingiu uma exuberância e um dinamismo quase sem paralelo.
André Soares não foi um arquiteto de formação académica tradicional, mas sim um desenhador de risco. O seu estilo é frequentemente classificado como Rococó, caracterizado por uma ornamentação densa, curvas sinuosas e uma profunda integração entre a pedra e a decoração.
1. O Palácio do Raio (Casa do Mexicano)
Esta é, talvez, a obra mais icónica de André Soares no centro da cidade. Construído entre 1754 e 1755, o Palácio do Raio é um festival de movimento e cor.
A Fachada: É impossível ficar indiferente à exuberância das janelas. Soares utiliza o granito esculpido de forma quase "mole", criando formas que parecem flutuar sobre o azul dos azulejos (adicionados mais tarde, no século XIX).
O Dinamismo: Repare como as molduras das janelas e a porta principal utilizam concheados, volutas e frontões partidos que dão à fachada uma sensação de ritmo e profundidade.
2. O Edifício da Câmara Municipal de Braga
Situado no coração da cidade, este edifício exemplifica a capacidade de Soares em desenhar estruturas institucionais com a mesma elegância das obras religiosas.
A Ordem Central: A fachada é marcada por uma simetria rigorosa, mas quebrada pela decoração rica dos portais e das janelas de sacada.
O Pátio Interior: O desenho do edifício permite uma circulação de luz e ar que era inovadora para a época, mantendo a imponência que uma sede de poder municipal exigia.
3. A Igreja dos Congregados
Localizada na Avenida Central, a fachada da Basílica dos Congregados é uma das demonstrações mais puras do Barroco de Soares.
Verticalidade e Movimento: Soares projeta uma fachada que parece "ondular". As colunas e os nichos criam um jogo de luz e sombra (claro-escuro) que é fundamental na estética barroca para guiar o olhar para o céu.
As Torres: Embora concluídas apenas no século XX, seguiram o risco original de Soares, mantendo a harmonia estilística do conjunto.
4. O Arco da Porta Nova
Este monumento é o símbolo da Braga que se abria ao mundo. André Soares redesenhou esta porta histórica em 1772 (concluída após a sua morte).
A Despedida do Castelo: O Arco da Porta Nova é significativo porque, pela primeira vez na história da cidade, uma porta de muralha era construída sem a função de defesa (não tem ranhuras para portas de ferro). É um arco puramente triunfal e decorativo.
A Decoração: Apresenta um frontão curvo e as armas do arcebispo que patrocinou a obra, fundindo o poder espiritual com a estética urbana.
Características Distintivas do Estilo de André Soares
Para identificar a mão de Soares enquanto caminha pelo centro de Braga, procure estes elementos:
Concheados (Rocaille): Elementos decorativos que lembram conchas marinhas, muito típicos do Rococó.
Granito Esculpido: Soares tratava o granito, uma pedra dura e difícil, como se fosse gesso ou madeira, conseguindo detalhes minuciosos e curvas orgânicas.
Teatralidade: Cada edifício é desenhado como se fosse um cenário. Há uma preocupação com o impacto visual de quem vê o edifício de diferentes ângulos das ruas estreitas de Braga.
André Soares transformou Braga na "Roma Portuguesa" não apenas pela quantidade de igrejas, mas pela qualidade e originalidade da sua arte, que conseguiu converter a pedra cinzenta do Minho numa linguagem de luxo, movimento e espiritualidade.
Pilares Históricos
1. Bracara Augusta e o Pensamento Europeu
Fundada pelos romanos, Braga tornou-se a capital da província da Galécia. O seu papel como "cabeça" consolidou-se no século VI com São Martinho de Dume.
O Apóstolo dos Suevos: Martinho não apenas converteu o reino ao catolicismo, mas estruturou o pensamento rural e jurídico com a obra De Correctione Rusticorum, um marco da sociologia europeia.
Primaz das Espanhas: A Arquidiocese de Braga tornou-se a autoridade máxima espiritual do Noroeste Peninsular.
2. A Certidão de Nascimento de Portugal
Braga foi o centro logístico e financeiro da independência.
O Pacto de Paio Mendes: Antes da Batalha de São Mamede (1128), o Arcebispo Paio Mendes financiou a causa de D. Afonso Henriques em troca da preservação dos privilégios da Igreja. Este acordo é a "certidão de nascimento" política do país.
Panteão Real: Na Sé de Braga repousam os túmulos de D. Henrique e D. Teresa, pais do primeiro rei, ligando a fundação da nacionalidade à cidade para a eternidade.
3. O Barroco de André Soares: A "Roma Portuguesa"
No século XVIII, o génio de André Soares transformou o granito duro do Minho numa linguagem fluida e exuberante, definindo a alma visual da cidade.
Palácio do Raio: O expoente máximo do Rococó, com janelas que parecem ondular.
Arco da Porta Nova: O símbolo da Braga moderna, uma porta de muralha sem funções defensivas, aberta ao comércio e às ideias.
4. Resistência e Revolução
Braga sempre foi um polo de reação popular e militar:
Maria da Fonte (Século XIX): Revolta popular liderada por mulheres que derrubou governos centralizadores.
28 de Maio de 1926: Ponto de partida do movimento militar que pôs fim à Primeira República, reafirmando Braga como a "cabeça" que reorganiza o corpo político da nação.

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